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'Não subam nos bancos!': festas em ônibus fazem sucesso no pós-vacina em SP

O interior do ônibus-balada - Divulgação
O interior do ônibus-balada Imagem: Divulgação

Claudia Castelo Branco

Colaboração para o TAB, em São Paulo

07/12/2021 04h00

"Boa noite, eu sou o DJ Dinho e acompanharei vocês. Por favor, só não subam nos bancos", anuncia pelo microfone um homem branco, boné na cabeça, posicionado atrás de uma pick-up adaptada para um ônibus balada. Um grupo animado de adolescentes grita quando o percurso começa pelas ruas de Moema, bairro da zona sul de São Paulo. Estão ali comemorando os 15 anos de Ana Luiza, no sábado em que o Palmeiras tornava-se campeão da Libertadores.

Edson Lima, 43, o DJ Dinho - Duda Gulman/UOL - Duda Gulman/UOL
Edson Lima, 43, o DJ Dinho
Imagem: Duda Gulman/UOL

Do lado de fora, torcedores do time acenam para o ônibus colorido que passa com o som no talo. Quem está dentro acena de volta. "Fiquem à vontade para pedir as músicas de vocês também", reforça o DJ preocupado com o aparente desinteresse do grupo.

Empolgado, o pai da aniversariante garante que a reportagem do TAB pode fotografar tudo. A mãe, mais centrada, diz que só autoriza imagens dos seus filhos. Um deles está em Brasília, mas já festejou no ônibus balada em outra ocasião. A irmã curtiu tanto que resolveu fazer a sua festa da mesma forma.

A aniversariante Ana Luiza e seu pai no BusParty - Duda Gulman/UOL - Duda Gulman/UOL
A aniversariante Ana Luiza e seu pai no BusParty
Imagem: Duda Gulman/UOL

Uma parente aposentada, sentada na área destinada aos adultos, diz que adoraria fazer uma festa no ônibus com as amigas da terceira idade, enquanto uma moça, tentando não cair, passa servindo salgadinhos. A essa altura, o pai circula de uma ponta a outra perguntando se o DJ Dinho não vai tocar funk.

O grupo só anima mesmo quando os últimos hits do Tik Tok começam a tocar. E vão equilibrando-se no transporte para fazer os passinhos de "Trava na pose". Este equilíbrio numa balada em movimento, aliás, parece ser um dos desafios mais divertidos de uma festa como essa. É comum que um fique segurando no outro. Outra coisa comum são os passinhos rápidos entre o banco e o corrimão. Uma música de MC Kevin o Chris que diz "dentro do carro hoje vai ter putaria" é alterada para "vai ter ousadia". Outra música que levanta a turma é um medley da cantora Jennifer Lopez. Num canto, desanimada, uma convidada de 14 anos não sai do celular. No outro, duas meninas dão um primeiro beijo. O TAB despede-se da família e seus convidados na primeira parada, no parque do Ibiraquera. A festa segue.

Festa de aniversário em um BusParty - Duda Gulman/UOL - Duda Gulman/UOL
Festa de aniversário em um BusParty
Imagem: Duda Gulman/UOL

'O que acontece em Vegas?'

"O que acontece no ônibus balada fica no ônibus balada", afirma Edson Lima, 43 anos, o DJ Dinho. Ele se apresenta como sócio da empresa Bus Party.

A ideia, não por acaso, surgiu nos Estados Unidos. Em 2010, Maurício Somlo resolveu trazer o modelo para o Brasil fazendo algumas adaptações. Lá, por exemplo, não tinha pista de dança. Aqui deram um jeito. Segundo ele, são os pioneiros no Brasil. Quatro anos depois, Edson entrou como DJ freelancer para comandar as festinhas. Foi de DJ foi a coordenador. "Edson é o representante da área comercial. Não somos sócios, mas ele é meu braço direito e esquerdo", diz Mauricio, que descreve o colega como extremamente competente.

O ônibus-balada que circula em SP - Eduardo Romeiro - ORELHA - Eduardo Romeiro - ORELHA
O ônibus-balada que circula em SP
Imagem: Eduardo Romeiro - ORELHA

Uma palavra que Edson usa muito é "diferencial". Segundo o próprio, a parte da interação com o microfone, cantando e tocando as mais pedidas, explica o sucesso das festas que ele comanda. "É um feedback que tenho recebido. Sou o único que faz isso."

Antes de virar o DJ Dinho, Edson se apresentava na noite como cantor. "Percebi uma lacuna entre os intervalos dos shows. Só colocar o play o pessoal não via muita graça". Foi aí que resolveu apostar também na carreira como DJ e comprou uns equipamentos. Além de cantar, agora animaria o vazio que ficava entre uma apresentação e outra.

Saía Edson, o cantor e entrava Dinho, o DJ. Numa das primeiras vezes como DJ de ônibus, o anfitrião pediu que Dinho fizesse um flashback dos anos 1980 e 1990. O grupo estava indo para uma danceteria conhecida em São Paulo, a The History. Na volta, com o mesmo grupo, escutou do cliente que, se pudesse, teria colocado o ônibus lá dentro da boate. "Aquele elogio foi estimulante", conta.

Festa de aniversário em um BusParty - Duda Gulman/UOL - Duda Gulman/UOL
Festa de aniversário em um BusParty
Imagem: Duda Gulman/UOL

Balada e casamento

O ônibus da ocasião já não roda mais em São Paulo. Foi vendido para outra empresa que agora circula fazendo festas sobre rodas em Goiás. Nesse meio tempo, Edson passou a tocar em festas de outras empresas do mesmo segmento. Numa delas, diz que saiu emocionado. Era uma festa infantil e o ônibus quebrou na frente do prédio antes das crianças, em torno de sete anos, entrarem. Sua filha acabara de nascer. "Como pai, a gente se coloca no lugar deles também."

Ficou da janela do guincho observando, de coração partido, o choro das crianças inconformadas com a festinha que não aconteceu. Outro momento emocionante da sua carreira, conta, envolve um pedido de casamento. O cliente não avisou antes e pegou todos de surpresa. Pediu uma música especial e usou o microfone para declarar, durante o percurso, seu amor à amada.

Por falar em casamento, Edson vive uma relação estável com Cristiana Matias, fotógrafa especializada em fotos de família, gestantes, smash the cake e recém-nascidos. "Nada como uma foto linda de uma bebe linda, para alegrar nosso dia. Newborn com muito amor!", diz a legenda de uma de suas fotos no Instagram.

Na pandemia, o casal começou um outro negócio: o maskyourself. São máscaras de tecido que imprimem o rosto da pessoa. Com o slogan "máscaras que são sua cara", conta que vendeu bastante. "Chegamos num patamar de aperfeiçoamento muito próximo à realidade. Luciano Huck já usou. Sonia Abrahao também". Mas não as que ele produziu. "Fomos copiados". Edson é assim. Não para de se vender um minuto.

A aniversariante e o DJ Dinho - Duda Gulman/UOL - Duda Gulman/UOL
A aniversariante e o DJ Dinho
Imagem: Duda Gulman/UOL

A Bus Party não é a única empresa do ramo em São Paulo. Outras quatro prestam serviços semelhantes. Algumas com ônibus urbanos, outras com ônibus rodoviários. Este último tem o teto mais baixo. Já o urbano, mais alto, piso reto, é o que funciona mais para as adaptações. Eles são comprados e transformados em ônibus recreativos: saem os assentos e entram bancos no estilo "limousine". Entra também uma iluminação especial e o bar.

Apesar de Edson reforçar a ideia de um clima familiar, festas em ônibus balada não são, nem de longe, focadas somente no público. Ele deixa escapar que um grupo de clientes costuma alugar o ônibus-balada para fazer "esquenta" antes de chegar à uma determinada casa noturna. Ao lado de sua equipe, formada por motorista, barman, fotógrafo e garçonete, diz que são todos maiores de idade e que sexo ali dentro não é permitido e nunca aconteceu.

Edson tende a desconversar diante de perguntas mais curiosas e evita sair do personagem que criou — no caso, o DJ Dinho. Segundo ele, a trupe faz 350 festas por ano.

A produtora de moda Melina Harden é uma das clientes que já organizou uma festa sobre rodas. Foi em 2016, uma despedida de solteira surpresa para uma amiga. Não se lembra de Edson, mas lembra da ressaca no dia seguinte. Diferente da festa de quinze anos, esta foi regada a bons drinks. "Foi divertido".