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Por que o projeto do cemitério corintiano, mesmo com obra iniciada, morreu?

População de Itaquaquecetuba (SP) pesca em lago que seria parte do cemitério Corinthians Para Sempre na cidade - Edson Lopes Jr./UOL
População de Itaquaquecetuba (SP) pesca em lago que seria parte do cemitério Corinthians Para Sempre na cidade
Imagem: Edson Lopes Jr./UOL

Rodrigo Bertolotto

Do TAB, em Itaquaquecetuba (São Paulo)

04/12/2021 04h01Atualizada em 27/12/2021 09h29

Já havia lugar reservado para Sócrates, Baltazar e outros craques imortais, mas os únicos habitantes daquele morro em Itaquaquecetuba, município da Grande São Paulo, são alguns calangos, quero-queros e jararacas. Dez anos após sua idealização, o cemitério "Corinthians Para Sempre", com obras iniciadas em 2014 e dezenas de jazigos vendidos, é uma ideia sepultada.

"Paguei durante dois anos e depois ficaram me enrolando mais dois, até devolverem meu dinheiro. Foi muita dor de cabeça", conta o corintiano Ricardo Katinskas, 59, que comprou um túmulo com três gavetas. O Grupo Memorial, parceiro do clube no empreendimento funerário, afirmou em nota que, "com o passar dos anos e com a situação econômica do país se agravando, o projeto se mostrou inviável".

O plano surgiu em 2012, ano em que o Corinthians foi campeão do Mundial Interclubes e construía finalmente seu estádio, enquanto o Brasil crescia e uma parcela da população havia pulado da pobreza para a classe média. A inspiração era o Boca Juniors, clube argentino de torcida tão fervorosa como a corintiana, que havia erguido sua necrópole em 2006.

"Surgiu como uma iniciativa para reforçar a sensação que o Corinthians é uma nação. Não era algo que daria muito dinheiro e alteraria o balanço do clube. O marketing tem que sentir o que a fiel quer e entregar", relata o economista Luis Paulo Rosenberg, dirigente corintiano à época e um dos idealizadores do projeto.

O anúncio do lançamento aconteceu em 2014, com o ídolo alvinegro Geraldão como garoto-propaganda, e tinha prazo de entrega inicial para o segundo semestre de 2015. Atrasos, problemas burocráticos e mudanças na empresa e no clube estenderam a obra até 2017. Só em 2019 o projeto foi "descontinuado", gíria corporativa em caso de cancelamento. Até hoje, alguns proprietários ainda estão sendo ressarcidos.

Do tumulto para o túmulo

De origem lituana, a família Katinskas é toda corintiana e mora próximo ao terreno. "Vi na TV uma reportagem sobre o assunto e na mesma semana passaram uns corretores na minha rua. Como tive muitos problemas com os enterros e retirada de ossadas de parentes em cemitérios públicos, decidi comprar o jazigo, apesar de minha mulher ser contra", conta o fiscal de ônibus Ricardo. "Já pensei em um velório com os símbolos do clube."

Os serviços incluíam seguro de vida, assistência funeral e cerimonial de despedida com rabecão, caixão e decoração alvinegra. As coroas de flores sequer tinham folhas verdes, para não lembrar o arquirrival Palmeiras. Seguindo um dos slogans do clube, os setores eram chamados "Minha História", "Minha Vida" e "Meu Amor" — esta área, a mais cara (R$ 7.800), era em formato de campo de futebol e uma tribuna lateral seria ocupada por 100 tumbas gratuitas para campeões do clube como Wladimir, Biro-Biro, Zé Maria e Basílio.

cemitério corintiano - Edson Lopes Jr./UOL - Edson Lopes Jr./UOL
Ricardo Katinskas mostra diploma que recebeu ao adquirir um jazigo no cemitério corintiano
Imagem: Edson Lopes Jr./UOL

Na frente do cemitério havia um outdoor (hoje retirado) e um estande de vendas atualmente em ruínas, com telhado derrubado pelas tempestades e servindo de ninho de jararacas. O único item que lembra o Corinthians são as tampas de bueiros com o distintivo.

Os problemas do empreendimento foram uma das razões da saída em 2016 do corintiano fanático Ricardo Pólito do posto de CEO do Grupo Memorial, que administra outras cinco cemitérios no estado de São Paulo. O Corinthians teria parte dos lucros em troca da cessão da marca.


Estádio mal-assombrado

A relação pós-morte dos torcedores com os times de futebol é algo que nem o marketing consegue decifrar. Muitos clubes não aceitam que se joguem cinzas nos estádios próprios. Outros exigem pedidos formais e autorizações ou só permitem quando é de algum jogador, técnico, dirigente ou torcedor ilustre. Há vários relatos de torcedores que montaram esquemas mirabolantes para conseguir espargir os restos mortais de seus pais fanáticos, driblando negativas oficiais e as revistas na entrada.

Durante uma má fase do Boca Juniors, os dirigentes decidiram culpar as cinzas de tantos "hinchas" que eram espalhadas durante as partidas ou nas visitas guiadas a La Bombonera, o "templo sagrado" do time argentino. A desculpa foi que estava dando azar. Também começaram a surgir histórias de fantasmas correndo com os braços erguidos, como se estivessem festejando um gol, pelas arquibancadas, relatadas por funcionários do turno noturno do estádio.

cemitério corintiano - Edson Lopes Jr./UOL - Edson Lopes Jr./UOL
Vista aérea do local onde seria o cemitério corintiano, com entrada na parte inferior da foto
Imagem: Edson Lopes Jr./UOL

Pouco depois, em 2006, o então presidente do clube, Mauricio Macri, depois eleito presidente da Argentina, anunciou o cemitério exclusivo para os seguidores do Boca, com 300 túmulos gratuitos para ex-dirigentes e futebolistas e lápides por até US$ 5.000 para os torcedores interessados. "Nesse cemitério, você tem acesso direto ao céu", brincou Macri.

Clubes alemães, como o Schalke 04 e o Hamburgo, seguiram a ideia e inauguraram cemitérios perto de seus estádios locais para enterrar seus mortos. Já os times espanhóis do Betis, Espanyol e Atlético de Madri tocaram projetos de columbários em suas instalações para os seguidores colocarem restos mortais de familiares.

Como o Corinthians, o Barcelona também embarcou em 2012 em um projeto funéreo que foi enterrado. Depois de tentar vender a ideia para o Manchester City, da Inglaterra, o empresário Santi Bach convenceu os dirigentes catalães a criar uma necrópole com 30 mil vagas perto do estádio Camp Nou. Entraram na jogada investidores e revendedores, mas a empresa responsável faliu e o cemitério nunca foi erguido. Para os críticos, esse é o limite mórbido da onda de produtos licenciados que os clubes abraçaram para arrecadar cada vez mais dinheiro.

Paz eterna

A dona de casa Marlene Abreu fica sentada o dia todo na frente de três varas de pesca à beira do lago do ex-futuro cemitério corintiano. "Eu esqueço de todos os problemas aqui. E ainda garanto o almoço do dia seguinte", resume. O resultado da pescaria ela deixa marinando à noite com tempero e frita no dia seguinte.

Troncos servem de assentos, e há tachos de lixo cheios de cerveja mostrando que o passatempo reúne muita gente por lá. Marlene disputa com o marido quem tira mais tilápia, lambari e carazinho dali. "Um japonês que é dono de pesqueiro limpou os tanques dele e jogou tudo aqui. Agora não para de dar peixe", conta Marlene.

Na tranquilidade daquele canto meio rural, meio suburbano, ela vai proseando sobre o empreendimento vizinho. "Ouvi falar que fizeram muita coisa errada. Esse lago é porque aterraram o rio que passava aqui", relata ela para uma companheira de pescaria que não sabia da história.

cemitério corintiano - Edson Lopes Jr./UOL - Edson Lopes Jr./UOL
Único objeto que ainda marca o local que ia ser o cemitério corintiano em Itaquaquecetuba (SP) é a tampa do bueiro
Imagem: Edson Lopes Jr./UOL

As obras ficaram paradas um tempo depois de a terraplanagem do local soterrar um curso d'água, obrigando a pedir nova documentação ambiental. Problemas no asfaltamento das vias dentro do cemitério e na construção das salas de velório ajudaram a atrasar ainda mais o cronograma.

Atualmente, a grama alta atrai as vacas de um sitiante vizinho, que pastam e fazem suas necessidades por lá. Cortejo mesmo só o formado pela fileira de pinheiros que foram plantados há oito anos e estão bem crescidos.

Em nota enviada à reportagem após a publicação, o Grupo Memorial afirmou: "Outrossim, oportuno esclarecer que o local no qual o cemitério seria instalado conta com ampla segurança e acesso restrito, sendo garantida a integridade física de todos aqueles que por ali circulam, além de proteção ao meio ambiente e devido respeito à legislação. Os cursos d'água ali presentes foram canalizados e aprovados pelos gestores públicos à época, garantindo que nenhuma fonte ou manancial fosse prejudicado ou danificado. Além disso, todos os processos de construção civil contaram com as devidas licenças e aprovações dos órgãos competentes, sendo interrompidos única e exclusivamente em razão da inviabilidade financeira do projeto".

A nota prossegue: "O projeto Corinthians para Sempre foi idealizado em parceira com o Sport Club Corinthians e o Grupo Memorial em 2012. Com o passar dos anos e com a situação econômica do país se agravando, o projeto se mostrou inviável. Em comum acordo com o clube declinamos do projeto. Os clientes que adquiriram os produtos deste projeto foram prontamente comunicados e estão sendo ressarcidos, conforme as cláusulas contratuais".

Inicialmente, a ideia do Corinthians era ter uma área em um cemitério do ABC Paulista para os corintianos — assim como havia o projeto de uma ala de maternidade para os nascidos corintianos. Mas o projeto fúnebre ganhou escala e virou, no plano das ideias, um cemitério inteiro a 37 quilômetros da sede do clube no bairro do Tatuapé (zona leste de São Paulo), com lugar para 70 mil mortos, um número digno de estádio lotado.