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Quem vai no gol? Goleiros de aluguel se destacam nas peladas pelo país

O goleiro de aluguel Leandro Fulgencio - Plínio Lopes/UOL
O goleiro de aluguel Leandro Fulgencio Imagem: Plínio Lopes/UOL

Plínio Lopes

Colaboração para o TAB, de Curitiba

24/11/2021 04h01

Na noite de 11 de novembro, o árbitro Roberto Tobar apitou o início da partida entre Brasil e Colômbia na Neo Química Arena, em São Paulo. Naquela quinta-feira, o goleiro Alisson Becker completaria seu 50º jogo com a camiseta da seleção brasileira. Exatamente no mesmo horário, o alarme da quadra de futebol society ARP, na região central de Curitiba, soou anunciando o final da partida, o jogo de número 1.072 do goleiro Luiz Borlicoski via aplicativo Goleiro de Aluguel, que conecta goleiros e jogadores de pelada em todo o país.

Borlicoski, 27, é uma das estrelas do aplicativo. Em setembro, jogou 100 partidas. Em outubro foram 115. "E poderia ser 125 ainda, mas eu me machuquei em uma delas e precisei cancelar o restante dos jogos do dia", conta o goleiro.

Naquela quinta-feira, defendeu uma meta às 17h, uma às 19h, uma às 20h30 e outra às 21h30, realizando todo o trajeto entre a sua casa e as diferentes quadras de bicicleta. "É um sonho de menino realizado. Ganho dinheiro jogando futebol", resume Borlicoski, sentado em uma cadeira de plástico enquanto aguardava o início de uma das partidas.

Para "alugar" um goleiro na modalidade society de grama sintética por uma hora, o contratante precisa desembolsar R$ 32,99. No começo, o goleiro recebe 60% desse valor - e chega até 75% depois de completar algumas partidas, além de cashbacks e prêmios na loja virtual do aplicativo. A ideia do serviço surgiu ainda em 2014 com Samuel Toaldo, 38, formado em física na UFPR (Universidade Federal do Paraná) e dono de uma loja de informática. "Sempre fui goleiro. E quando ia jogar com meu grupo de amigos, os times que iam jogar depois sempre me chamavam pra jogar também porque não tinham goleiros", conta Toaldo.

Sabendo que havia procura, passou a anunciar o serviço de goleiro de aluguel nas redes sociais e cobrar por isso. Em três meses, já não dava conta de atender todos os times e grupos que buscavam um goleiro. Foi nesse momento que Toaldo começou a convocar outros goleiros para atuar nos jogos e conheceu seu sócio, Eugen Braun, 34. Das redes sociais, passaram para um site e depois para um aplicativo. Na busca de investimentos nos negócios, participaram do reality show "Shark Tank".

Entre 2017 e o começo de 2020, o número de partidas mensais feitas pelo aplicativo cresceu de 300 para mais de 4 mil. Com a pandemia, os jogos zeraram e eles perderam os investidores. "Foi do dia pra noite. Falaram que ia fechar tudo e no dia seguinte não tinha mais jogo", lamenta Toaldo. Mas, com o avanço da vacinação e o retorno das atividades, as partidas voltaram a acontecer.

Eugen Braun (de boné) e Samuel Toaldo (de óculos), do aplicativo Goleiro de Aluguel - Plínio Lopes/UOL - Plínio Lopes/UOL
Eugen Braun (de boné) e Samuel Toaldo (de óculos), do aplicativo Goleiro de Aluguel
Imagem: Plínio Lopes/UOL

Hobby que virou renda

Até 2019, Borlicoski trabalhava o dia todo como auxiliar de estoque de uma loja de peças de automóveis em Curitiba. Nas noites dos dias de semana e nos finais de semana, ele aproveitava o tempo livre para jogar futebol com amigos e colegas. Sempre jogou de graça e no gol. A paixão por defender chutes e cabeçadas de dentro e de fora da área é familiar. O pai dele foi goleiro quando "tudo era mato", como ele gosta de frisar. "Meu pai não foi profissional, mas todos os colegas dele falam que ele catava muito no gol, jogava muito", conta Borlicoski, que mora com a esposa e o pai no Boqueirão, bairro afastado do centro.

Ao descobrir o aplicativo, a vida de Borlicoski deu um giro. Largou o antigo emprego e passou a se dedicar integralmente à nova profissão. Sobre ídolos arqueiros fora da família, Borlicoski cita vários nomes. "Fora do Brasil tem o Manuel Neuer [goleiro alemão do Bayern de Munique]. Aqui no Brasil tem o Weverton [ex-Athletico Paranaense e atual Palmeiras]", revela. "Torço para o Athletico, mas admiro muito o Wilson [goleiro do Coritiba], que é um ótimo goleiro."

O jogo da seleção, que fora exibido em uma televisão na lanchonete da quadra, não empolgou os presentes, que preferiam conversar, beber e eles próprios jogarem futebol a assistir as eliminatórias da Copa de 2022.

Com o isolamento social provocado pela pandemia, a única fonte de renda de Borlicoski secou. Hoje em dia ele depende da renda do aplicativo e dos jogos. "Consegui sobreviver nos primeiros meses graças à minha esposa e ao meu pai", complementa. Como as regras do que poderia abrir e fechar eram ditadas pelas prefeituras, várias cidades vizinhas de Curitiba permitiram as partidas antes da capital. E Borlicoski garantia sua renda indo de bicicleta jogar na região metropolitana.

A pandemia também marcou a carreira do goleiro de aluguel Leandro Fulgencio da Cruz, 40, que estava empolgado para pegar ritmo de jogo depois de ter se recuperado de uma lesão no joelho. Goleiro desde criança, tentou a carreira futebolística como jogador de linha porque era considerado "baixinho" (mede 1,65 m). Chegou a realizar alguns testes em clubes profissionais quando era jovem, mas não deu certo. Com isso, foi estudar e começou a trabalhar, mas sempre manteve o futebol presente nos momentos de lazer. "Sempre fui goleiro e sempre joguei de graça com os amigos", conta Fulgencio. "Mas depois do primeiro jogo [pelo aplicativo], não parei mais", afirma.

O goleiro Luiz Borlicoski - Plínio Lopes/UOL - Plínio Lopes/UOL
O goleiro Luiz Borlicoski
Imagem: Plínio Lopes/UOL

Em 2019, ele estava chegando a 300 jogos disputados pelo app. "Tava bem empolgado, então veio a pandemia e tudo parou. Precisei ficar dois meses sem jogar", conta o goleiro. "Depois disso, teve até quadra que eu fui chamado pra jogar e, quando cheguei lá, a polícia apareceu pra fechar tudo."

A carreira serve como complemento de renda para Fulgencio. Atualmente, ele é motorista e faz o transporte de leite fresco em pacotes. "Começo às 5h da manhã e trabalho até as 16h. Depois disso, vou fazer uma ou duas partidas como goleiro", diz ele.

"Mantém o exercício físico e a saúde em dia e é um complemento de renda. Dá pra pagar uma luz e eu até comprei uma geladeira juntando dinheiro", complementa o goleiro, que se desloca até as quadras de futebol de moto.

Os goleiros de aluguel Leandro Fulgencio (à esq.) e Luiz Borlicoski (à dir.) - Plínio Lopes/UOL - Plínio Lopes/UOL
Os goleiros de aluguel Leandro Fulgencio (à esq.) e Luiz Borlicoski (à dir.)
Imagem: Plínio Lopes/UOL

A segunda carreira deu tão certo que ele recebeu o apelido de "Ochoa" em homenagem ao goleiro mexicano que brilhou em uma partida contra o Brasil em 2014. No mês de outubro, jogou 75 partidas, seu recorde até então. Com o nascimento do terceiro filho, em 2020, a esposa dele parou de trabalhar e ele passou a focar mais nas partidas para garantir a renda extra.

"Antes [quando eu não jogava pelo aplicativo] ela não gostava que eu fosse jogar sempre, até me proibia às vezes", diz Fulgencio. "Mas agora ela até ajuda a procurar as partidas. Tem vezes que a família toda vai junto pra me assistir jogar", conta o goleiro, que está chegando às 700 partidas pelo aplicativo.

Na infância, foi o goleiro Ronaldo Giovanelli, na época jogador do Corinthians, que inspirou Fulgencio a atuar debaixo das traves. "Acho que nem tanto por ele, mas mais pela narração do Silvio Luiz [locutor esportivo]. Eu ia jogar na rua e toda defesa eu gritava 'Ronaldo, Ronaldo'", relembra o goleiro de aluguel. Além do astro corintiano, Fulgencio também lembra de assistir às partidas de Taffarel, que atuava na seleção brasileira, do Zetti, que jogou no Palmeiras, e do Chilavert, goleiro paraguaio famoso por cobrar faltas. "É que eu sou velho, quarentinha", justificou.

Na quadra Bola de Meia, também na região central de Curitiba, existem dois campos de futebol society. Às 19h, as quatro balizas estavam ocupadas por goleiros de aluguel. "Já melhorou muito, tá melhor que 2019 e começo de 2020. Mês passado passamos os 6 mil jogos e tudo indica que esse mês vamos passar os 7 mil", conta Toaldo, dono do aplicativo.

De acordo com um relatório da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), mais de 80% dos jogadores de futebol brasileiros recebem até um salário mínimo. Com as quatro partidas disputadas naquela noite, Borlicoski embolsou cerca de R$ 99. No restante da semana, ele fez o mesmo número de jogos diários, mas sabe que não vai conseguir atuar com a mesma regularidade para sempre. "A carreira é curta, mas por enquanto consigo pagar as contas", conta o goleiro.

"Pro futuro [quando não der mais pra jogar assim], penso em comprar um carro e virar motorista de aplicativo", considera Borlicoski. "Eu pulo muito, então o joelho, as costas e as coxas sentem muito", desabafa Fulgencio. "Hoje tenho 40 anos, então acho que dá pra jogar até uns 50, 55 anos. Depois preciso inventar outra coisa."