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Bylucas, o figurinista de Bangu que já vestiu de Xuxa a Zé Ramalho

Sérgio Ricardo Brilhante Cordeiro, o Bylucas - Lucas Seixas/UOL
Sérgio Ricardo Brilhante Cordeiro, o Bylucas
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Matheus de Moura

Colaboração para o TAB, do RIo

22/12/2021 04h00

No fundo do corredor do terceiro andar do Planetário da Gávea, na Zona Sul do Rio de Janeiro, estava Flavia de Oliveira Costa, 46. Sob a penumbra causada pela má iluminação da área, a mulher esperava ansiosamente pela chegada de seu companheiro Sérgio Ricardo Brilhante Cordeiro, 62, vulgo Bylucas.

Estava sentada numa banqueta preta forrada com uma blusa branca que levava o nome de algum artista do século passado, tal qual a camiseta que ela mesma vestia: também branca, com o rosto de Frida Kahlo bordado — mais uma das coloridas obras de Bylucas, que realizava sua primeira exposição após 30 anos de carreira.

Flávia passara os últimos dois dias montando a mostra das obras do pai de sua filha, que tem cinco anos de idade e é a temporã dos cinco filhos do artista — quatro de outro relacionamento. Há mais de 20 trabalhando com montagem de vitrines de loja e exposições artísticas, ela nunca se sentiu tão pressionada a realizar um bom trabalho quanto naquele dia: além de ser a grande estréia de Bylucas, que vinha trabalhando como figurinista de artistas e escolas de samba havia pouco mais de três décadas, era também uma exibição de um dia só.

Subindo a rampa logo à frente, vinha Bylucas — de sapatênis, bermuda, chapéu de couro e óculos de grau. Quanto mais perto chegava, mais agitada ficava Flávia. A filha transitava pelo ambiente junto da neta do artista, ambas da mesma faixa etária. Bylucas abriu um sorriso grande o suficiente para se notar por trás da máscara preta e abraçou a companheira fortemente. Ela então passou a chorar copiosamente, dizendo em looping: "Eu tava preocupada, eu tava tão preocupada?".

O figurinista, com sua voz de quem muito desgastou a garganta na boemia, elogiou calidamente o trabalho da companheira. "Não acompanhei nada da montagem. Cada artista tem seu papel, e se eu viesse pra cá com ela, ia ficar interferindo. Queria que ela tivesse liberdade de fazer o que entendia", justificou.

Bylucas e suas obras - Lucas Seixas/UOL - Lucas Seixas/UOL
Bylucas e suas obras
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Orquídeas

Bylucas vive em uma casa de dois andares no mesmo terreno da rua Abaeté, em Bangu, onde nascera e fora criado. Orgulhoso de sua origem, renega com veemência um possível êxodo para a Zona Sul — como faz a maioria dos artistas fluminenses que em algum momento alcançam sucesso e reconhecimento.

Sua casa tem piscina, jardim e uma televisão de 76 polegadas (recém comprada, para ver a final da última Libertadores na qual o Flamengo, para a tristeza do figurinista e sua família, perdeu de 2 a 1 para o Palmeiras). Do portão de entrada às paredes do banheiro, tudo é decorado com as cores do arco-íris e flores — uma obsessão de Bylucas, que frequenta há décadas a fazenda de um amigo com um jardim rico em todo tipo de espécies, incluindo orquídeas, suas favoritas. As referências à cultura pop também estão em todos os ambientes da residência.

O andar de baixo serve de ateliê. Durante a visita do TAB, havia material de trabalho e máquinas espalhadas por todos os cantos. Nas paredes, as mesmas cores vibrantes somadas a referências culturais da segunda metade do século passado aparecem nos quadros da exposição do Planetário da Gávea. Tudo no ateliê — e até mesmo no segundo andar, onde a família habita — grita Bylucas.

Há alguns anos, quando ainda trabalhava na produção de roupas para venda em lojas, o artista contava com uma equipe de mais de 20 pessoas focadas na confecção de peças, sempre misturando sua antiga técnica de airbrush com a modernidade do pacote Adobe.

Bylucas em seu ateliê - Lucas Seixas/UOL - Lucas Seixas/UOL
Bylucas em seu ateliê
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Da Alcione ao Zé Ramalho

Sua mãe Anna Brilhante Cordeiro, 91, e seu pai Valmir Mário Cordeiro, falecido há uma década, criaram Bylucas num lar de classe média permeado por cultura. Desde pequeno, assistia à matriarca, costureira profissional, tocar seu piano noite adentro. O contato com a produção artística, contudo, veio através de um primo que era casado com um produtor de shows.

Por já demonstrar afinidade com a arte, Bylucas foi convidado para trabalhar na montagem do palco onde Alcione se apresentaria, num teatro do Flamengo. E assim, aos 19 anos de idade, em meados dos anos 1970, introduziu-se no meio artístico carioca.
Seu apelido surgiu na adolescência, por se parecer com um jogador de futebol do Bahia de mesmo vulgo, com a diferença na grafia. O apelido do esportista começava com "Bi", enquanto o do artista é By -- é que certa vez, um amigo dele pediu que, jocosamente, assinasse uma roupa com By: Luca. Pegou.

Bylucas em sua casa em Bangu, no Rio - Lucas Seixas/UOL - Lucas Seixas/UOL
Bylucas mostra sua casa em Bangu, no Rio
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Por um breve período, já na faixa dos 20 anos de idade, tentou cursar jornalismo na extinta UniverCidade, mas não conseguia equilibrar os estudos com o ofício de produtor e diretor de shows e peças teatrais. Esse foi o único período em que morou fora de Bangu, residindo num apartamento de fundos em Copacabana, onde conviveu com artistas sambistas, poetas e drag queens cariocas.

Foi na década de 1980 que Bylucas se aventurou no mundo da confecção. Começou estampando camisetas com figuras do pop usando pistola de airbrush. Em pouco tempo, chamou atenção de amigos e passou a vendê-las em diferentes lojas das zonas Oeste e Sul do Rio, chegando a vender uma peça por mais de 200 euros para um estrangeiro. Já fazia algum tempo que frequentava a premiada escola de samba Mocidade de Padre Miguel — conhecida por ter tido como patrono o bicheiro Castor de Andrade — quando foi convidado pelo locutor Paulinho do Gogó para desenhar os figurinos da Mocidade.

A colaboração se estendeu por mais de década, chamando atenção de cantores e artistas como Xuxa, Zé Ramalho e Andrezinho do Molejo, que eventualmente encomendaram peças exclusivas. "Zé Ramalho foi o primeiro cliente que pagou um valor alto por uma roupa minha. Fiquei muito feliz em atender um ídolo de infância!"

Bylucas e algumas de suas telas - Lucas Seixas/UOL - Lucas Seixas/UOL
Bylucas e algumas de suas telas
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Um trem sem apoio

Sua exposição "Trem das Estrelas" é uma junção de figurinos produzidos ao longo dos últimos quatro anos, com peças e quadros feitos exclusivamente para expor no Planetário. Tematizada na própria ideia do espaço sideral, a exposição ilustra o amor do artista pelos músicos e pintores que marcaram o século 20 — a começar por um espaço quase religioso de homenagem à pintora Frida Kahlo, que inspira o figurinista desde o começo da carreira. Outros grandes homenageados são Salvador Dalí e Pablo Picasso, que também estampam quadros e peças de roupa da mostra.

"A ideia era falar de quem marcou a cultura no século passado e virou uma estrela da arte depois", explica ele, que lotou os corredores com imagens de Janis Joplin, Elvis Presley, Kurt Cobain, Michael Jackson, Cartola, Ferreira Goulart, dentre outros roqueiros e poetas que fizeram sucesso entre 1950 e 1990. As obras são repletas de flores e estrelas — contrastando com o estado do terceiro andar do Planetário da Gávea, um tanto abandonado, com metade das lâmpadas queimadas. Para resolver o problema, Flávia e amigos realocaram as obras para áreas mais iluminadas.

"Fomos convidados por um membro da Secretaria de Cultura [Gledson Vinícius, presidente do Planetário], mas foi tudo muito rápido, não recebemos apoio nenhum, foi tudo do nosso bolso", reclama Flávia, que é complementada pelo companheiro: "Na próxima, vão ter que nos pagar, porque não é barato organizar tudo isso!" Se fosse um artista da Zona Sul, reflete, talvez tivesse mais apoio do Estado.

Na mostra, Bylucas recebeu visitas de familiares, amigos da cena cultural suburbana carioca e crianças de diferentes escolas públicas. Na opinião dele e de Flávia, o evento foi um sucesso: agora, conta com a promessa de ser replicado em janeiro de 2022 no Museu da Arte do Rio, no Centro da capital.