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'Receba esse Shalonn': Enderson Cobra, o baiano que estourou em 2021

Enderson Cobra e os gêmeos Kaick e Kauã - Herbert Gama/Divulgação
Enderson Cobra e os gêmeos Kaick e Kauã
Imagem: Herbert Gama/Divulgação

Claudia Castelo Branco

Colaboração para o TAB, de São Paulo

31/12/2021 04h01Atualizada em 21/01/2022 16h46

A vida de Enderson Figueiredo nunca foi fácil. Negro, gay e de família humilde, o responsável pelo bordão "Receba esse Shalonn" ainda sonha comprar uma casa para Gledes, sua mãe.

Quando chove em Camaçari (BA), Enderson e Gledes correm para cobrir o esburacado telhado de amianto com sacos plásticos, mas ele não gosta de falar de momentos tristes. "A nossa vida é babado, irmã. Quem me vê sorrindo não imagina o que passo."

Morando numa casinha, ele dorme no chão e a mãe na cama. Os cômodos — sala, quarto, cozinha e banheiro — são divididos por cortinas. Nesse mesmo terreno moram mais 15 familiares, entre eles a tia, Cláudia, 46, mãe de cinco crianças, incluindo Kaick e Kauã, de 13 anos.

É com a dupla que Enderson fez os vídeos cômicos que alcançam milhares de pessoas. Conhecidos como "gêmeos fexação", eles completam suas frases em sincronia.

São os vídeos curtos, com palavras desconexas e tiradas rimadas os que mais divertem o público. Para fazê-los, o trio sai andando numa rua de pedra cercada por casas simples. Enderson vai na frente e lança um tal "BONDHAGADAGA" enquanto os gêmeos atrás repetem "Ki-ki-ki. Nhá-Nhá". As crianças usam pochete colorida e divertem-se com o primo, que lança o seu famoso "bora levantar que hoje será um dia maravilhoso". Eles continuam: "assim como você". Os irmãos performam com caras e bocas. "E bora beber água que melhor pedra no caminho que pedra no? rim. Porque pedra no caminho a gente... pula."

Aos 25 anos, Enderson tem curso técnico de dança, é do axé, e adotou Cobra como nome artístico por causa de Oxumaré. Símbolo da continuidade do movimento, seu orixá é representado por uma cobra arco-íris que morde a própria cauda.

Enderson Cobra e os gêmeos Kauã e Kaick - Hebert Gama/Divulgação - Hebert Gama/Divulgação
Enderson Cobra e os gêmeos Kauã e Kaick
Imagem: Hebert Gama/Divulgação

Da dança para o humor

O talento para entreter chegou cedo. Enderson lembra da sua primeira apresentação, aos 8 anos. Era um grupo de dança do reforço escolar, formado só por meninas, que ensaiava uma surpresa para o dia das mães. Escondido, ficava observando os ensaios da coreografia montada para a música "Empurra-empurra", de Ivete Sangalo, sua cantora preferida.

Um professor percebeu o interesse e convidou o menino para dançar. No dia, Enderson mostrou toda sua ginga. Gledes tinha medo que o filho fosse xingado, mas aconteceu o contrário. Saiu aplaudido.

Embora todos soubessem que o garoto fosse gay, Enderson resolveu falar abertamente sobre o assunto aos 17 anos. O pai, que morava junto com a família e sustentava a casa, estava ali "só para manter". A partir daí afastou-se, mas já "vivia distante".

Nessa mesma época, uma adolescente tímida chegava ao colégio estadual José de Freitas Mascarenhas. Era Isa Rosas, futura melhor amiga de Enderson. Foi recebida pelo jovem com um "E aí, gata, tudo bem, como é seu nome? Tá boa ou tá mais ou menos?". Enderson não pode ver ninguém quieto ou borocoxô.

"Esses gritos dele não são de hoje, não. Ele tem esse dom de juntar todo mundo", conta Isa, que lembra de uma festa surpresa organizada pelo amigo, em 2015. "Arrumei um trabalho e passei a estudar no período da noite. Ele chamou todas as turmas. Fiquei muito emocionada."

Nas conversas com TAB, Enderson foi interrompido várias vezes por pessoas batendo na porta pedindo um "Shalonn". Aliás, Enderson encerra todos os telefonemas e trocas de mensagens com expressões positivas, do tipo "Abalou, irmã".

Oito semanas e meia de Shalonn

A trajetória de Enderson nas redes sociais começou no Instagram, mas em março de 2020 ele viralizou no TikTok com outro bordão: "Fala, makers! Acordei e não quero boca torta. Porque a vida do crente?". Os três estão num corredor de paredes de argamassa com sinais de infiltração. "Não é fácil", completam os gêmeos.

Em setembro último, esteve em São Paulo buscando oportunidades como dançarino. Ficou um mês, mas voltou desanimado para Camaçari. "Fui recebido de braços abertos por pessoas que começaram me seguindo nas redes sociais e hoje fazem parte de minha trajetória", escreveu num post agradecendo o amigo David Black, criador de conteúdo.

A vida ganhou outro rumo em 25 de outubro, quando estourou de novo — dessa vez ao incluir "Receba esse Shalonn" em seus vídeos. Um mês depois, quando alcançou 100 mil seguidores no Instagram, teve seu conteúdo removido e recebeu um alerta do Instagram informando que estava prestes a perder sua conta por não cumprir as diretrizes da comunidade. Alguns apontaram problemas com direitos autorais por conta de uma música tocada no vídeo. Enderson reagiu, postando um print do conteúdo removido acompanhado da legenda "a vida do crente não é fácil, mesmo".

O ator Carmo Dalla Vecchia lamentou nos comentários. "Deve ser porque acham que você está aliciando menores a serem gays. Tudo isso é ridículo e preconceituoso. Mas vivemos num mundo de polarização radical."

Enderson conta que a relação com os gêmeos é de família, e que os estudos vêm em primeiro lugar. As crianças foram abandonadas pelo pai biológico quando a mãe revelou a gravidez, e Enderson acaba sendo encarado como um pai para eles. Quer registrá-los como filhos. Aliás, o autor do meme, que quer estudar publicidade, foi o primeiro da família a concluir os estudos. Se antes sonhava com a dança, hoje compreende o humor como prioridade.

O meio milhão de seguidores chegou em 2 de dezembro. Quando bater um milhão, Enderson vai dar uma festa. Seu público continua crescendo — hoje são quase 700 mil — e ele não parou de produzir conteúdo.

2021 termina de uma forma positiva para ele, que foi um dos convidados da primeira campanha do Instagram no Brasil, a "Você Que Faz". O vídeo foi publicado na véspera do Natal. "Gen-te, eu tô babado e baba?deira. Estou aqui a convite do Instagram. Eu disse do Insta?gram", narra, usando as populares pausas.

Também promoveu o filme "Te Prego Lá Fora", novo especial de Natal do Porta dos Fundos. "Receba esse Shalonn" será tema de uma festa de Réveillon de uma marca. Enderson avalia os caminhos para 2022. Pensa em fazer stand-up. E lançou recentemente a música "O Hit do Shalonn", disponível no Spotify.

"Sempre quis ser artista", conta Enderson. Antes da fama, dava aulas para crianças numa ação social. Agora, vem fazendo publicidade em eventos locais. Um deles, publicado nos Stories, divulga um mercadinho da região. "Os preços aqui estão igual a vida da gente: lá em? baixo". Procurado por algumas agências com promessas, Enderson é ingênuo, mas também desconfiado. Não abre nomes, mas pergunta à reportagem de TAB a diferença entre agência de influenciadores e assessoria de imprensa.

Abalou, irmã!

O baiano tem muitos sonhos. Um deles é contracenar com Marcus Majella, de quem é fã. "Kkkkkkk eu amo muito!", comentou o ator, um dos seus seguidores, num vídeo recente postado por Enderson.

Participar de um reality show também está na lista, além de conhecer Juliette, a vencedora do BBB 21. A paraibana também deu uma força ao tuitar o bordão. Carlinhos Brown também soltou a frase durante o programa "The Voice", da Globo. Claudia Raia, Angélica, Xuxa e Bruno Gagliasso também estão na lista.

Em dezembro de 2021, Enderson e os gêmeos Kaick e Kauã apareceram pela primeira vez na televisão. Participavam do quadro "Famosos da Internet" no programa da Eliana (SBT) quando foram surpreendidos para participar de outro quadro, mais importante, no próximo ano. Um repórter será enviado para Camaçari para conhecer a história deles de perto. "Mais que isso, nós queremos convidá-los a voltar para contar a história de vocês", disse a apresentadora. Renata Pinto, produtora, confirmou que eles participarão em breve do quadro "Um dia de sorte". De tiradas rápidas, Enderson está animado para enfrentar os desafios no palco e levar prêmios.

Mural no Jardim Jaraguá, em homenagem a Enderson e seu viral de internet - Divulgação - Divulgação
Mural no Jardim Jaraguá grafitado por Chuck, em homenagem a Enderson e seu viral de internet
Imagem: Divulgação

Carlinhos Maia: inspiração

"Oieeee, Gatonaaaaa", atendeu Enderson ao telefone, animado, numa sexta-feira à noite. "Mulher, tô na rodoviária de Camaçari rumo à Maceió. O sinal vai cair." E caiu mesmo.

Enderson e as crianças participariam pelo segundo ano do Natal da Vila, evento organizado pelo humorista Carlinhos Maia. Ele se inspira na história do alagoano, que considera uma referência. Neste ano sua presença no Natal da Vila foi diferente. Vestido de shorts e colete de paetê preto, deixando à mostra sua última tatuagem no peito — "Receba esse Shalonn" —, ficou chocado com a quantidade de flashes, fotos e vídeos.

"Ai, irmã. Sempre sonhei chegar num lugar e ser reconhecido." E foi. Gostou muito do humorista Tirulipa. "Ele elogiou demais, disse que é um bordão que combina com tudo. Me disse pra não desistir."

No mesmo evento, Enderson plantou-se em frente ao palco aos gritos, tudo para chamar a atenção de Ludmilla. Deu certo. A cantora parou o show ao reconhecê-lo e repetiu seus dois bordões mais conhecidos. O baiano foi à loucura, porque era doido para ser seu bailarino.

Enquanto isso, na zona norte de São Paulo, um grafite reproduzindo com spray a imagem de Enderson e os gêmeos chama atenção. Num muro localizado na Estrada Coronel José Gladiador, no Jardim Jaraguá, o desenho vem acompanhado da frase "RECEBA ESSE SHALOM". É assinado por Alexsandro Gomes dos Santos, o Chuck.

"A vida do grafiteiro não é fácil", brinca. "Quis homenagear esses grandes artistas que fazem meus dias e os de tantos outros brasileiros mais felizes com suas publicações."

Chuck não é o único a parafrasear Enderson e as adaptações do meme seguem fortes nas redes sociais. Como a vida do jornalista também não é fácil, ele atendeu ao pedido da reportagem de TAB e gritou do outro lado: "Bora levantar que 2022 será um ano maravilhoso. Receba esse Shalonn".

Errata: o texto foi atualizado
A primeira versão deste texto afirmava que a idade de Cláudia era de 22 anos. Na realidade, sua idade é 46 anos. A informação foi corrigida.