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'Prioridade é o lucro': usuários e equipes denunciam falhas em trens de SP

ViaMobilidade assume Linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda e anuncia compra de 36 novos trens da Alstom - Divulgação
ViaMobilidade assume Linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda e anuncia compra de 36 novos trens da Alstom Imagem: Divulgação

Juliana Sayuri e Marie Declercq

Do TAB

28/01/2022 04h00

Na noite de 22 de janeiro, Alan Afonso, 33, passou uma hora parado dentro de um vagão entre as estações Antônio João e Santa Terezinha, um trecho da linha 8-Diamante entre Barueri e Carapicuíba, na região metropolitana de São Paulo. "Ficamos quase 20 minutos com as luzes do trem apagadas, sendo iluminados somente pelas luzes das lanternas dos celulares", lembra ele, vendedor em uma livraria, que todo dia viaja a bordo de trens com destino ao trabalho.

"Ninguém comunicou sobre o que estava acontecendo. Nós abrimos as portas do trem à força e começamos a ir para os trilhos para poder andar até a próxima estação."

Andar de trem na região metropolitana de São Paulo às vezes é uma prova de resistência, com o adicional do calor intenso do verão. Nas linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda, o TAB apurou, alguns vagões com ar-condicionado quebrado brincavam com a tolerância de quem estava vindo de Itapevi em direção ao centro de São Paulo na manhã do dia 26.

Ar gelado oscilando, vagões apinhados de passageiros no pico da manhã, ambulantes pingando de estação em estação para driblar fiscais e tentar vender aromatizantes de eucalipto e pochetes antifurto aos reclames de "shopping trem", a história de sempre. Com um detalhe: o trem não é mais da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).

Passageira registra lotação em trem da linha Coral  - Reprodução/Twitter - Reprodução/Twitter
Passageira registra lotação em trem da linha Coral
Imagem: Reprodução/Twitter

41 paradas, 80 km e 1mi de passageiros por dia

No fim de dezembro, o comando das linhas 8 e 9 do Sistema de Trens Metropolitanos de São Paulo começou a ser transferido para o consórcio ViaMobilidade, composto pela companhia CCR e pela holding RuasInvest Participações. Nesta quinta (27), a concessionária assumiu 100% das operações das duas linhas, que foram arrematadas abril passado por R$ 980 milhões. Foi a primeira concessão de trens da CPTM à iniciativa privada.

Juntas, as linhas contam 41 paradas, quase 80 quilômetros de extensão, e transportam cerca de um milhão de passageiros por dia. A 9-Esmeralda hoje vai de Osasco a Vila Natal, passando por Pinheiros, Cidade Jardim, Vila Olímpia, Berrini, Morumbi e Primavera-Interlagos, entre outras. A 8-Diamante liga a estação Amador Bueno, na cidade de Itapevi, à histórica estação Júlio Prestes, na Luz.

Ocorrências foram registradas nessas linhas desde fins de dezembro, segundo registros internos aos quais o TAB teve acesso: falta de energia e falhas como trens parando fora da plataforma, abrindo portas do lado errado, avançando sinais vermelhos - e atrasando, o pior dos pesadelos para quem depende da malha que, basicamente, possibilita o acesso ao centro paulistano para quem mora nas cidades periféricas. Hoje o bilhete custa R$ 4,40.

O maquinário não mudou. O que ocorre, diz um funcionário há 15 anos na CPTM, concursado, que conversou com a reportagem sob a condição de anonimato, é que os novos operadores da ViaMobilidade não tiveram tempo de treinamento o suficiente para lidar com imprevistos.

Procurada, a ViaMobilidade informou, após a publicação da reportagem, que há '2131 colaboradores' nas linhas 8 e 9. E que 'profissionais altamente qualificados' tiveram 210 dias de treinamento no total.

Inauguração da Estação Mendes-Vila Natal da Linha 9-Esmeralda - Governo do Estado de São Paulo/Divulgação - Governo do Estado de São Paulo/Divulgação
Inauguração da Estação Mendes-Vila Natal da Linha 9-Esmeralda
Imagem: Governo do Estado de São Paulo/Divulgação

Viagens perdidas

A cada deslize de maquinistas, encavala-se um atraso - e, de atraso em atraso, isso equivale a "viagens perdidas de gente que deixou de embarcar e se atrasou para um destino", diz a fonte, que também é, desde a infância, passageiro frequente das ferrovias metropolitanas de São Paulo.

"Operador de trem, maquinista da CPTM, precisa de conhecimento técnico e tempo - tempo para treinar, preparar para eventualidades e se adaptar para não ficar nervoso na via", diz Altino Prazeres, 54, atual coordenador do Sindicato dos Metroviários de São Paulo e há 26 anos operador da linha 1-Azul do metrô, a Jabaquara-Tucuruvi. "Mas treinamento acelerado, tudo a toque de caixa, é a lógica do setor privado, a prioridade é o lucro", critica.

Foram registradas falhas inclusive em vídeos que viralizaram entre trabalhadores dos trens no WhatsApp, como a abertura de portas do lado errado, oposto às plataformas.

Abrir a porta ao léu pode parecer um erro simples. Entretanto, envolve três riscos para passageiros que porventura se distraírem e saírem do lado errado: cair de uma altura de 2 metros de altura, a depender do trecho; ser eletrizado por um choque de 3.500 volts se tocar no pantógrafo, dispositivo no topo da locomotiva; ou ser atropelado por um trem passando na direção contrária, alerta Altino.

Na manhã de 7 de janeiro, um trem que estava no pátio da estação Presidente Altino avançou para onde trabalhavam equipes de manutenção e energizou a área - isto é, a energia foi ligada ali, o que poderia eletrocutar todos os trabalhadores de uma vez. "É o mesmo que um indivíduo desligar os fusíveis de uma residência para trocar o chuveiro e alguém por acidente ligá-los novamente, é uma ocorrência que fere todas as normas técnicas e de segurança. É gravíssimo", relata um funcionário da CPTM. Por sorte, ninguém se feriu.

Estação Grajaú, da A Linha 9-Esmeralda  - Talita Marchao/UOL - Talita Marchao/UOL
Estação Grajaú, da A Linha 9-Esmeralda
Imagem: Talita Marchao/UOL

'Vão pagar Uber?'

Passageiros têm recorrido a canais independentes na internet que atualizam a situação das linhas com mais frequência, como a página Diário da CPTM, no Twitter. Alguns reportam reclamações diversas no 0800 e no WhatsApp da CPTM, segundo registros.

Apitou às 4:41 de 30 de dezembro, por exemplo: "Lamentável... Trem atrasado... de novo??? [...] Se não bastasse, ainda está andando em velocidade tartaruga. [...] Não aguento mais chegar atrasado no metrô Barra Funda e consequentemente chegar atrasado no trabalho. Uma irresponsabilidade com o usuário, estamos entre Lapa e Barra Funda andando a 10 km/h, se arrastando e a hora passando..."

Na noite de 31 de dezembro, registrou-se na linha 9: "Passageira reclama no dia 31/12/2021 por volta da 1:10 que está numa composição sentido Gra[jaú], próxima estação Gra[jaú] há 20 minutos. Questionou se os passageiros vão dormir dentro da composição e se vamos pagar Uber para que possa completar a viagem. Desejou que o registro de suas ponderações fosse feito."

No dia 13 de janeiro, alguém escreveu no formulário eletrônico do site da CPTM: "Bom dia! Gostaria de saber o porquê, desde o fim do ano passado, os trens estão demorando em torno de 10 min entre um e outro em pleno horário de pico. [...] Cheguei à estação Cidade Jardim às 18:35 e só consegui embarcar às 19:00. Os trens estavam extremamente lentos e lotados. [...] Sugiro a vocês pegarem o trem no período da manhã e no fim do dia para avaliarem melhor se, de fato, é justo [...]. Desde já, obrigada."

"Desde que começou a mudança para a nova concessionária, sinto que eles não têm mais comunicado falhas no sistema de som das linhas", diz ao TAB o estudante Caio Marcelo Lourenço, 26. Na manhã de 10 de janeiro, relata ele, dois trens pararam na estação Jardim Belval quase que ao mesmo tempo - e no mesmo sentido. "Não sei o que rolou, mas foi tão incomum que o segundo trem ficou um tempão parado até que o trem da frente ficasse relativamente distante", conta. Os seguranças na plataforma, diz o estudante, pareciam tão confusos quanto os passageiros.

Procurada pela reportagem, a ViaMobilidade não respondeu questões pontuais e nem confirmou ou deslegitimou os registros obtidos pela reportagem. Informou que prevê investimentos de R$ 3,8 bilhões para as duas linhas nos próximos 30 anos, para modernização de estações, aquisição de novos trens e aprimoramento da infraestrutura. "Todas as melhorias previstas em contrato serão implementadas de maneira gradual. Dessa forma, as inovações serão percebidas pelos passageiros nos primeiros anos de concessão", diz a nota.