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'Tá servido?': entregadores de apps se alimentam de marmita a R$ 1 em SP

Entregadores comem marmitas no Bom Prato do bairro de Campos Elíseos - Ricardo Matsukawa/UOL
Entregadores comem marmitas no Bom Prato do bairro de Campos Elíseos
Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL

João de Mari

Colaboração para o TAB, em São Paulo

09/03/2022 04h00

A pequena unidade do Bom Prato do Campos Elíseos, na região central de São Paulo, fica alvoroçada entre o fim de tarde e o início da noite. Como é uma das poucas que abrem também no jantar, é um dos restaurantes mais movimentados de toda rede do programa de segurança alimentar do Governo do Estado, oferecendo cerca de 4 mil refeições por dia — contando o almoço.

Na última sexta-feira (4), por volta das 18h, os clientes formavam uma fila na calçada que dobrava o quarteirão da famosa Alameda Nothmann, rua que desemboca no início da Cracolândia. Impacientes, aguardando a vez de adquirir a quentinha por R$ 1, ninguém sequer olhava para os homens de mochila do iFood, Rappi, entre outras empresas de entregas por aplicativo — que comiam e conversavam entre si sentados no chão, do outro lado da rua ou apoiados nos bancos das motocicletas e bicicletas enfileiradas.

De jaqueta impermeável vermelha e capacete de ciclista da mesma cor, o entregador José Émerson de Mendonça, 52, dá rápidas garfadas em uma das duas marmitas que acabou de comprar. "Eu trazia comida de casa, mas aí não tem onde esquentar. Até tem no posto do iFood na Rua Augusta, mas é uma fila muito grande para esquentar a marmita", disse o entregador.

Ali mesmo, em pé ao lado de sua bicicleta alugada, ele come de olho no celular que a qualquer momento pode apitar chamando para a primeira entrega da noite.

Morador do distrito de Cidade Tiradentes — na zona leste da capital, a cerca de 30 quilômetros de distância —, Mendonça precisa tomar dois ônibus até o terminal Parque Dom Pedro, na região central do município, para trabalhar. Chegando lá, com sorte, consegue encontrar uma bicicleta do Itaú para alugar no posto do Largo São Bento. Caso contrário, tem que andar procurando uma bike disponível.

"Comecei a fazer entrega um mês antes da pandemia, em 2020. Nesse meio tempo eu parei, comecei a fazer Uber, mas não virou, porque eu estava trabalhando praticamente para pagar o aluguel do carro e o combustível. Entreguei o carro e voltei para as entregas em janeiro deste ano", contou, entre pausas para mastigar o jantar.

José Emerson Marinho de Mendonça é um dos entregadores de aplicativo que enfrenta a fila para retirada de marmita no Bom Prato do bairro de Campos Elíseos - Ricardo Matsukawa / UOL - Ricardo Matsukawa / UOL
José Emerson Marinho de Mendonça é um dos entregadores de aplicativo que enfrenta a fila para retirada de marmita no Bom Prato do bairro de Campos Elíseos
Imagem: Ricardo Matsukawa / UOL

O entregador Ronaldo*, que não quis se identificar, guardava na mochila do iFoood quatro marmitas. Sentado no meio fio em frente a sua "magrela" com o banco descascado e o pedal quebrado em duas partes, ele explicou o "esquema das marmitas", como definiu. "Duas eu já como agora, antes de começar o trabalho. A outra eu mando na madrugada, entre uma entrega e outra, e a quarta quentinha é meu almoço de amanhã".

Ronaldo passou a viver em um cortiço no centro da capital paulista há quase quatro meses, apesar de morar em Diadema, cidade da Região Metropolitana de São Paulo. Mesmo sentindo saudades da filha adolescente e da esposa, ele contou que é mais "tranquilo" ficar pelo centro para trabalhar como entregador do que enfrentar o transporte público e voltar todos os dias para casa.

"Quando preciso resolver algum B.O. volto para minha quebrada. Não tem geladeira no quarto onde moro, então venho comer aqui todos os dias. Como levanto tarde [para pegar a fila do almoço no Bom Prato], já deixo meu almoço reservado na mochila."

Nesta unidade do restaurante, há um limite de quatro marmitas por pessoa. Mas só é possível comprar duas por vez. Ou seja, para retirar quatro marmitas é necessário pegar a fila duas vezes.

Entregadores de apps enfrentam filas para retirada de marmita no Bom Prato do bairro de Campos Elíseos - Ricardo Matsukawa/UOL - Ricardo Matsukawa/UOL
Entregadores de apps enfrentam filas para retirada de marmita no Bom Prato do bairro de Campos Elíseos
Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL

Sem dinheiro para o almoço

Com a chave da motocicleta pendurada no pescoço, carregando um capacete, três marmitas e uma banana, o estudante de análise de sistemas Anderson de Lima, 44, se equilibra para conseguir abrir o baú da moto após deixar a fila do restaurante pela segunda vez.

"A gente que trabalha na rua geralmente faz isso, pega três, quatro marmitas. Eu, por exemplo, vou parar em casa, vou jantar e já vai duas marmitas. Sobrou uma, quando eu chegar de madrugada ela já vai embora. O almoço eu venho quando dá. Hoje eu fiquei sem almoço, porque não deu para vir. Não almocei e não tive dinheiro para comprar o almoço. As empresas não te ajudam nessa parte de alimentação", contou. Ele explica que é impossível comer nos restaurantes onde busca a comida porque costuma faturar no máximo R$ 50 ao dia.

Depois de guardar as marmitas, Lima mostrou o celular logado no aplicativo de entregas onde trabalha. À reportagem do TAB, ele fez questão de mostrar que ganhou R$ 18 em uma corrida de mais de 50 quilômetros.

"Fiquei desempregado, estou morando em uma pensão e venho aqui me alimentar, porque é o que dá para fazer. O meu dinheiro só dá para pagar aluguel, prestação da moto, faculdade e comer no Bom Prato", resumiu, enquanto dava pontapés no pneu de sua moto. "Olha o estado do pneu, está careca que nem eu".

Anderson de Lima Sousa é um dos entregadores de aplicativo na fila do Bom Prato - Ricardo Matsukawa/UOL - Ricardo Matsukawa/UOL
Anderson de Lima Sousa é um dos entregadores de aplicativo na fila do Bom Prato
Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL

'Tá servido?'

A rotatividade nesta unidade é grande. Em apenas um minuto, quatro pessoas conseguiram comprar suas marmitas. Em frente a uma fileira com cinco motos de entregadores de aplicativos, Antônio Negreiros, 52, come a marmita que acabou de pegar na porta do restaurante — com a pandemia, é proibido comer no estabelecimento.

Mesmo tendo um trabalho fixo, o funcionário público faz bicos como entregador. "Hoje é carne moída com abobrinha", disse ele, empolgado por ser um de seus pratos favoritos. "Meu ganho é pouco. Trabalho no iFood e em outras plataformas. Eu conheço o bom prato há 'milianos', fundou e eu já estava dentro. As entregas são um bico para complementar a renda, pagar o cartão de crédito. Tenho filhos e netos, tenho que dar uma força", explicou.

Apesar de estar jantando em pé, embaixo de uma marquise após uma tarde chuvosa na cidade, Negreiros come sereno. "Aqui não rola discriminação de jeito nenhum. Além de gastar pouco, a gente [entregadores] se sente mais descontraído. Em restaurantes somos discriminados, até se quisermos comer lá dentro não deixam se tiver com roupa do iFood", revelou.

Após terminar a refeição, ele buscou uma banana no bagageiro da moto. "Tá servido?", ofereceu à reportagem do TAB. Na sequência, sentou no meio fio, como quem recupera as energias, e comeu sua sobremesa antes de montar na moto e sair rasgando pelas ruas de São Paulo.

Faltavam poucos minutos para as 19h, e a movimentação no Bom Prato diminuía. Uma mulher baixa e magra orientava os funcionários, que vendiam as últimas unidades das marmitas. "Hoje, só na janta, foram 1468 marmitas", revelou Márcia Luisa, 60, gerente da unidade do Bom Prato do Campos Elíseos. "No almoço, saíram 2400 unidades. Amanhã, que vai ser feijoada, vai ser quase o dobro."

Entregadores de apps enfrentam filas para retirada de marmita - Ricardo Matsukawa/UOL - Ricardo Matsukawa/UOL
Entregadores de apps enfrentam filas para retirada de marmita
Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL

"Os entregadores de aplicativo vêm bastante. Tem bastante menino novo com filho pequeno, já vem buscar e leva a marmita para casa", completou ela, que é técnica em nutrição.

Adultos pagam R$ 1 e crianças com até 6 anos, se não matriculadas em creche, têm a refeição gratuita. Na pandemia, a população em situação de rua também tinha direito a refeição sem pagar, desde que apresentasse um cartão com QR Code cadastrado — a gratuidade durou até o ano passado.

'Não tem como pagar 15 contos'

Josias de Araújo, 34, um homem forte de estatura média, era um dos últimos a comer a marmita, apoiado em uma bicicleta antiga, na calçada do restaurante, que já estava com uma das portas abaixadas.

"Se puder, eu como no Bom Prato todos os dias devido ao preço. Às vezes a gente não tem como pagar 10, 15 conto num almoço e numa janta. Se eu tiro R$ 70 no dia e pagar 15 contos em almoço e janta, já era. Só não como aqui quando está fechado porque acabou o rango", contou, rapidamente, ao TAB.

Josias de Araújo Carneiro é entregador de frutas e verduras - Ricardo Matsukawa/UOL - Ricardo Matsukawa/UOL
Josias de Araújo Carneiro é entregador de frutas e verduras
Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL

Ele já estava trabalhando havia 12 horas como entregador autônomo naquele dia. Quase diariamente, pela manhã, ele carrega a bicicleta no Mercado Municipal de São Paulo com frutas e verduras e distribui para clientes na região central da cidade.

A pressa em devorar a marmita tem sua razão: ele quer tentar chegar em casa antes das 19h para tomar banho e ligar o aplicativo. Assim como outros clientes, ele também leva outra refeição para casa. Com sorte, Araújo conseguiria fazer algumas entregas naquela noite e, assim que voltasse para casa, terminaria a maratona de trabalhos com uma quentinha do Bom Prato.