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'Fora da caverna': quem é a jovem artista que fez mural de Tim Burton em SP

A artista paulistana Luna Buschinelli, que fez um mural com o cineasta norte-americano Tim Burton - Fernando Moraes/UOL
A artista paulistana Luna Buschinelli, que fez um mural com o cineasta norte-americano Tim Burton
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Adriana Terra

Colaboração para o TAB, de São Paulo

15/05/2022 04h01

"Oi!", abre a porta de um galpão no Cambuci, no centro de São Paulo, a artista Luna Buschinelli. O jeito introspectivo, quebrado em diversos momentos por um sorriso afetuoso, é um velho conhecido da paulistana de 24 anos e à primeira vista parece contrastar com a eloquência de seus imensos murais pintados em prédios. Mas, não: eles são complementares.

"Sempre fui uma pessoa muito tímida e a arte era minha forma de me expressar. Eu me sinto uma artista no casulo, e acho que é a obra que acaba indo para fora da caverna", diz ela, enquanto se ajeita no sofá do ateliê que, há alguns meses, divide com colegas.

Luna foi se tornando artista em um processo contínuo, um tanto orgânico: desde os primeiros rabiscos, nunca parou de desenhar. Do caderninho levado à terapia na infância, onde pouco falava, a um mural imenso assinado ao lado de Tim Burton na região da 25 de Março, ela foi se comunicando com o mundo por intermédio de um universo de alegorias envolvendo questões existenciais, realismo mágico e dilemas humanos.

Foi esse cenário pintado por ela que interessou ao cineasta norte-americano ao escolhê-la, no fim de 2021, para imprimir um desenho seu em uma empena no Parque Dom Pedro 2°, obra feita por ocasião de sua vinda à cidade para a exposição "A Beleza Sombria dos Monstros", em cartaz na Oca, no parque Ibirapuera. Outra sintonia entre os artistas foi o próprio traço. "Sempre fiz personagens longilíneos, sempre me vi como essa pessoa compridinha, e isso também tem a ver com o mundo do Tim Burton."

Intervenção urbana na rua 25 de Março, de autoria da artista plástica paulistana Luna Buschinelli, faz parte da exposição sobre a obra de Tim Burton em São Paulo - Vincent Bosson/FotoArena - Vincent Bosson/FotoArena
Intervenção feita por Luna e a partir de desenho de Tim Burton na região da 25 de Março, no centro de SP
Imagem: Vincent Bosson/FotoArena

Oi, osgemeos

Na semana passada, Luna subiu com Burton no topo do prédio que, por cerca de um mês, foi seu ambiente de trabalho. Com 85 m de altura e 25 m de largura, a dimensão da obra impressiona ainda mais quando se observa os detalhes. Enquanto pintava o mural, a artista se dava conta de que só um olhinho do desenho já era maior do que seu tamanho, cerca de 1,70 m.

Assim que recebeu o convite, moveu mundos para que o trabalho desse certo. Sem agente ou produtor próprio no momento, foi atrás de tintas, ajudantes e outros trâmites burocráticos. O mural é uma parceria entre o Museu de Arte de Rua, projeto da Prefeitura de São Paulo, a produtora brasileira da exposição na Oca e o próprio Burton.

Esse empenho não é incomum para ela. "No meu caminho, muitas vezes eu tive que tirar leite de pedra", diz. Fã da dupla de artistas osgemeos, Luna começou a grafitar ainda na adolescência. Aos 14 anos, procurava muros nas ruas, por vezes acompanhada da mãe que sempre a apoiou. "Ela não é artista, mas é uma pessoa muito sensível, me ajudou a mostrar meu trabalho para o mundo. Se não fosse minha mãe, talvez eu ainda estivesse desenhando no meu quarto."

Foi também junto da mãe que um dia viu os gêmeos Otavio e Gustavo Pandolfo na rua grafitando. A vontade de conhecê-los a fez driblar a timidez e se apresentar. A partir dali, um dos irmãos a seguiu nas redes sociais e, um tempo depois, foram eles quem escreveram a apresentação de sua primeira e única mostra, na Verve Galeria, no centro de São Paulo, quando tinha 17 anos.

Até isso rolar, Luna foi se embrenhando na arte de rua, ao mesmo tempo em que gostava de perambular pelo bairro da Liberdade atrás de mangás — "Vagabond", de Takehiko Inoue, é seu favorito. Aos 15, arrumou um trabalho em uma loja de spray na Vila Madalena, onde morava. "Pensei: 'vou ficar aqui porque eu vou conhecer todos os materiais, saber para que servem'", conta. "E os grafiteiros iam muito lá. De quebra, acabava conhecendo alguns."

Os primeiros convites profissionais vieram por meio das redes sociais. Foi a partir de postagens de seus desenhos que foi convidada por uma produtora do festival italiano Cvtà Street Fest a fazer seu primeiro mural, em 2015. De grafites pequenos na Baixada do Glicério, viajou para pintar uma empena de 25 metros em um vilarejo medieval no sul da Itália. O clima de cidade antiga que a encantou por ali se conecta com lembranças de seus primeiros anos de vida, quando morou em Trancoso, na Bahia, onde vive seu pai, e que de certa forma se reflete no seu trabalho. "Gosto muito das construções jesuítas."

Para dar esse salto, a timidez, outra vez, foi vencida por uma força que Luna parece carregar. "Porque são oportunidades que às vezes a gente só recebe uma vez na vida", reflete. Força essa que se tornou também física, já que os imensos murais lhe deram uma resistência ao longo dos anos. "Tem um cansaço corporal e, quando pinto, procuro ouvir música, e ela acaba ditando um ritmo. Fazer o mural vira uma dança."

A artista plástica Luna Buschinelli, no ateliê-galpão que compartilha com outros artistas, no Cambuci - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
'A obra está aqui para conviver com o mundo, sabe?', diz Luna, no ateliê compartilhado com outros artistas
Imagem: Fernando Moraes/UOL

'Arte às vezes salva'

De 2015 para cá, essa coreografia nas alturas se transformou em painéis em Portugal, em São Paulo, no Rio - onde pintou uma escola na avenida Presidente Vargas, em 2017, mural na época considerado o maior do mundo feito por uma mulher. Obcecada por aprender coisas novas, tentou fazer faculdade, mas a rotina de trabalho que começou cedo e seu jeito de lidar com os estudos a fizeram seguir um caminho mais autodidata.

Enquanto hoje, do lado de fora de seu casulo, tem visto a repercussão de seu trabalho, do lado de dentro tem continuado a ler, testar materiais, num dia a dia mais silencioso. Nas redes sociais que a impulsionaram, percebe também uma ansiedade por retorno, elogios, críticas. Não que não goste do diálogo, pelo contrário, mas parece buscar um tempo menos afobado, com mais reflexão e menos certezas.

No ateliê, ao seu redor estão telas nas quais está trabalhando — ela vem experimentando o uso do carvão — e um exemplar de "História da Feiura", de Umberto Eco. Junto ao desenho, a filosofia é companheira de longa data, assim como a psicanálise, herança da relação com as duas pessoas que a criaram, mãe e avó, que classifica como mulheres fortes.

É nessas humanidades que encontra interlocução para suas pinturas. "Meu trabalho sempre tratou de um tema existencial, do nosso lugar no mundo, do inconsciente. Essa é minha paixão, o sentimento — aquele sentimento muitas vezes negado, mas que também é importante", conta ela, que é fã de cinema e tem assistido aos filmes do chinês Wong Kar-Wai, assim como tem se inspirado no trabalho do artista Lucas Arruda e na surrealista mexicana Remedios Varo, "ídola" há tempos — "foto na cabeceira da cama", brinca.

Apesar de pontuar referências, Luna gosta de ver sua obra sendo lida de maneira livre, sem medo dos rumos que ela pode despertar. "Sinto que é importante dar um contexto, mas nunca limitar a imaginação, porque acho que todo mundo tem uma imaginação muito rica. Não querer controlar o subjetivo do outro nem ter essa pretensão, porque, não tem como, a interpretação é de todos", pondera. "Às vezes um trabalho pode levar a pessoa a um caminho completamente diferente do que o artista pensou, mas válido e importante para ela, e é por isso que faço arte. E arte é uma coisa que às vezes salva, sabe?"

Como exemplo desse mergulho incerto e profundo que a atrai, lembra-se de um clássico. "Gosto muito da obra do Machado de Assis, 'Dom Casmurro', que no final fica aberto para interpretação se a Capitu traiu ou não. Acho isso genial porque não importa o que o artista pensava", considera. Afinal, se tem algo que Luna aprendeu logo cedo desenhando nas ruas é que, como ela diz, "a obra está aqui para conviver com o mundo".