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Bernardo Machado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Brasil, um país ansioso: até quando seguraremos a angústia coletiva?

Bernardo Machado

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Colunista do TAB

13/02/2021 04h01

O simples ato de imaginar os rumos do país nos meses vindouros pode gerar angústias agudas: faz as veias ferverem, a mente fundir e até as lágrimas abundarem. A crise sanitária, as incertezas econômicas e as disputas políticas criam uma espécie de ansiedade social. De um lado, os problemas nacionais parecem pipocar; de outro, o que era urgente no domingo passado se normalizou, não se resolveu, e foi eclipsado por um dilema de igual (ou maior) proporção.

Se existe o chamado "risco Brasil", uma categoria econômica que afere a probabilidade de insolvência do Estado, talvez seja possível criar uma outra noção, mais subjetiva e heterodoxa, que indica o grau de angústia que o país nos gera: a "ansiedade Brasil". Essa invenção nomearia um conjunto de humores que afetam nosso convívio: a sensação movediça de afundar a cada movimento e o engasgo no peito que fermenta diante de um horizonte imponderável e sombrio.

A crise sanitária instiga cansaço e desejo de superar uma situação que se prolonga para além do que imaginávamos. Uma parte considerável de nós (embora nem todo mundo) quer logo uma dose de vacina no braço — seja para si, seja para as pessoas que ama. E as perguntas avolumam: os insumos são suficientes? Quando terminará a vacinação no país? Para completar o quadro, as novas variantes prometem entregar mais dúvidas: as vacinas serão eficazes? As máscaras protegem?

No plano da economia, os medos igualmente irrompem. Muitas pessoas temem perder o emprego, outras receiam não conseguir uma realocação diante do cenário de incertezas. Espera-se por uma notícia salvadora: uma mensagem, e-mail ou um telefonema que ofereça a almejada segurança financeira. Os sinais oscilantes a respeito do auxílio emergencial dificultam o planejamento e a tranquilidade entre quem não quer passar fome. Enquanto muitos estabelecimentos fecharam, as calçadas tornam-se, aos poucos, a materialização do que pode vir — ou do que já veio —, com placas e mais placas de "aluga-se" ou "vende-se". O nó na garganta aperta e a "ansiedade Brasil" inflaciona.

Para quem tem crianças ou adolescentes em idade escolar, os impasses no retorno às aulas fomentam os dilemas do amanhã e a tremedeira do hoje. Docentes, cientes do risco de exposição e do imponderável das classes, também se angustiam com o fantasma da contaminação e as precárias condições de trabalho.

O novo fenômeno televisivo, o BBB 21, parece ter colocado no gatilho experiências que criam ansiedade entre quem assiste e quem está no confinamento. As redes sociais tampouco facilitam, criando um amálgama onde fervilham fragilidades e decepções.

Por fim, o universo das disputas políticas estimula a paranoia. As eleições de 2022, tão perto e tão distantes, fomentam arranjos de interesses e trazem a sensação de que, até lá, todas as decisões políticas estarão sob a sombra das urnas. Tal antecipação injeta força na "ansiedade Brasil": haverá continuidade ou mudança? Algumas autoridades públicas, inclusive, instigam essa angústia como combustível para existência. Está difícil encontrar quem queira reduzir as ansiedades do país.

De toda forma, há uma vontade de que alguma solução se concretize, mas resta o tormento. O estado de nervos, com noites mal dormidas, ora interrompe a respiração, ora acelera as ações e atropela o raciocínio. Dizemos privadamente e com alguma vergonha: "meu coração apertou", "estou com falta de ar e taquicardia". Embora coletiva, a "ansiedade Brasil" é vivida sob uma retórica secreta: evitamos enunciá-la. Nesse sentido, é bom lembrar Susan Sontag: as metáforas das doenças revelam muito sobre nós.

A ansiedade é entendida como fenômeno imprevisível, uma angústia inoportuna que paralisa. Curiosamente, nos últimos anos, não tivemos vergonha do ódio social, da vontade de vencer um opositor político e, por vezes, de exterminá-lo. Mas a ansiedade é considerada obscena, um mau agouro, talvez porque seja associada a uma suposta fragilidade, a uma ausência de reação.

Como não falamos abertamente sobre essa tal "ansiedade Brasil", parecemos estar num estado entre a passividade, a indiferença e a tranquilidade. Enquanto isso, a angústia nos come por dentro. Talvez ela seja exclusivamente o sintoma de estruturas econômicas perversas, de anormalidades políticas de longa duração, de crises sanitárias atreladas à destruição do planeta. Não sei. De toda forma, ao insinuar a existência dessa "ansiedade Brasil", talvez seja interessante pensar nessa condição que acomete os nacionais desta terra sob as condições atuais de temperatura e pressão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL