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Moradores de rua voltam para viadutos assim que prefeitura retira pedras

Jairo considera que a prefeitura de São Paulo acerta ao colocar pedras embaixo de viadutos - André Lucas/UOL
Jairo considera que a prefeitura de São Paulo acerta ao colocar pedras embaixo de viadutos
Imagem: André Lucas/UOL

Felipe Pereira

Do TAB

06/02/2021 04h01

O sol impiedoso das últimas semanas começa a desenhar na pele de Jairo a camiseta regata usada ao puxar a carroça de catador. Dono de costas e tórax desenvolvidos por arrastar uma estrutura de ferro carregada com 30 quilos de papelão, ele tem amor-próprio atrofiado.

Jairo vive embaixo do viaduto Antonio Paiva de Monteiro, um dos locais na zona leste de São Paulo onde a prefeitura havia instalado pedras para expulsar moradores de rua. Ele considera a medida correta: justifica que as pessoas usam drogas no local e deixam lixo espalhado. Acrescenta que, se tivesse casa na vizinhança, cobraria providências, porque ninguém é obrigado a arcar com os erros dos outros.

Avisado da repercussão negativa da colocação das pedras, Jairo balança a cabeça, discordando. A reação do padre Julio Lancellotti, que foi quebrar pedras na última terça-feira (2), junto com os funcionários da prefeitura, que tinham ordem para arrancá-las dali, foi um erro, na opinião do carroceiro. Ele acredita que merece o tratamento recebido.

Questionado se não seria o caso de a prefeitura, o governo estadual ou o governo federal estenderem a mão, Jairo faz uma pausa. Parece pego de surpresa pela alternativa e raciocina em silêncio. Quando abre a boca, explica que, na realidade em que vive, a oferta de apoio não é uma variável possível.

Diz ainda que sua vida foi de erros repetidos à exaustão, por isso não merece solidariedade. Jairo internalizou que merece repressão e punição. O homem que não revela o sobrenome e a idade carrega muita culpa, mas se nega a detalhar a origem dela.

Jairo - André Lucas - André Lucas
Jairo carrega muita culpa e acredita que merece somente repressão e punição
Imagem: André Lucas

Explica que teria de falar em drogas e suas consequências: briga com a família, vida na rua e cadeia. Ele conta que não confiaria em alguém com seu passado.

O carroceiro está há 24 anos perambulando por São Paulo, e não vê outro horizonte para o que lhe resta de vida. Acha impossível que alguém dê emprego para uma pessoa que veste roupas doadas, não tem residência fixa e carrega a marca de ex-detento. Ele recorre a uma frase feita para traduzir sua visão de mundo: "Estou colhendo o que plantei".

O homem de barba grisalha faz outra pausa quando perguntado se não é hora de perdoar a si mesmo. Fala que talvez esteja começando a conseguir se desculpar. Caso seja verdade, deverá ser um processo demorado. Jairo logo emenda que foi uma vida de muitos erros.

Lágrima - André Lucas - André Lucas
Luan tatuou uma lágrima abaixo do olho direito, o que significa que carrega uma grande mágoa
Imagem: André Lucas

A outra extremidade do viaduto

O viaduto Antônio Paiva de Monteiro serve aos trens que saem da estação Tatuapé e é a morada de Luan Junior, 20. Ele tem dificuldade para se expressar, mas as tatuagens ajudam a contar sua história. Nas ruas de São Paulo, a tatuagem de uma lágrima embaixo do olho manifesta uma grande mágoa ou tristeza.

As duas máscaras de teatro, gravadas na lateral do pescoço, são a representação do drama e da comédia. É uma espécie de yin-yang, e servem como lembrete de que a vida é feita de momentos bons e ruins. Mas a definição de ruim é algo subjetivo. Depende das experiências de cada pessoa.

Luan não gostou das pedras, mas não achou novidade, nem calamidade. O rapaz disse que não foi a primeira vez que o poder público tomou a decisão. Ele passou metade de sua existência na rua.

Luan 2 - André Lucas - André Lucas
Luan mora embaixo do viaduto Dom Luciano Mendes de Almeida desde o ano passado
Imagem: André Lucas

Até os 10 anos, Luan morou com uma senhora a quem chama de vozinha. O apelido não indica laço sanguíneo, mas ela recebe a reverência como manifestação de afeto. Sem conhecer a família, o rapaz foi criado por vozinha numa casa na região da Ceagesp, o maior centro distribuidor de alimentos do país. O local é cercado de moradores de rua e muitos usuários de drogas.

A vida escolar, as refeições regulares e o convívio com vozinha acabaram aos 10 anos, quando Luan saiu para morar com amigos numa maloca no Tremembé, bairro da zona norte. Não deu certo e ele foi parar na Sé, área com mais moradores de rua de São Paulo. Depois de viver em vários locais, em 2020 passou a dormir sob o viaduto Antônio Paiva de Monteiro. O discurso é que nunca usou drogas, mas a magreza acentuada e a calça com furos de brasa sugerem outra coisa.

Independentemente de sua situação, o rapaz dorme sobre um colchonete que tem a grossura de um livro. Mesmo no verão severo, carrega o cobertor cinza que moradores de rua recebem no inverno. No teto do viaduto, existe uma bicicleta pendurada. Ele diz que a achou.

Atrás do local onde passa as noites há um espaço onde Luan guarda um balde com água, cigarros e um sacola de lixo cheia de embalagens de bolacha recheada, papel de bala e um saco vazio de marshmallows. O rapaz admite que é um devorador de doces.

bicicleta 2 - André Lucas - André Lucas
Luan tem uma bicicleta presa no teto do viaduto onde mora
Imagem: André Lucas

Mas Luan não é egoísta. Tentou dar um marshmallow para as pombas, que ignoraram a oferta. O rapaz também não se importa de dividir o espaço com elas.

Arquitetura antimendigo

No último dia 3, o padre Julio Lancellotti denunciou a colocação das pedras nos viadutos Dom Luciano Mendes de Almeida, onde fez foto derrubando pedras com uma marreta, e no viaduto Antônio de Paiva Monteiro, local onde Luan vive. Ambos ficam na avenida Salim Farah Maluf, no Tatuapé.

Quando não pôde dormir sob o viaduto, soube onde buscar refúgio. Buscou abrigo embaixo de uma árvore numa rua próxima.

Mas sair do viaduto tem uma desvantagem. Ele explica que, uma vez por mês, aparecem voluntários que lhe dão tratamento vip. Ganha um banho que não é de caneca e as pessoas cortam suas unhas e cabelo. Foi assim que escolheu o atual penteado Cascão, raspado do lado e bagunçado no topo da cabeça.

Luan não sabe quem é Bruno Covas e, muito menos, padre Julio Lancellotti, mas estar alinhado faz muita diferença para ele. Ainda que as ruas tenham ensinado que as coisas boas têm prazo de validade, é bom poder aproveitar mais um pouco os serviços dos voluntários.

Sobre a colocação das pedras, a prefeitura afirmou que foi uma ordem individual de um funcionário exonerado. A Secretaria Municipal das Subprefeituras instaurou uma sindicância para apurar os fatos, inclusive sobre o custo e a data de instalação, que "se tratou de uma decisão isolada que não faz parte da política de zeladoria da gestão municipal". O serviço de retirada foi finalizado na terça-feira (2). As pedras saíram, os moradores voltaram. Falta resolver a situação de quem não tem onde morar. Parece mais fácil Jairo conseguir se perdoar.