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O fim de São João Marcos: a cidade que foi inundada para abastecer o Rio

O Parque Arqueológico e Ambiental São João Marcos: antes da pandemia, o espaço recebia cerca de 10 mil visitantes ao ano  - Mariana Costa/UOL
O Parque Arqueológico e Ambiental São João Marcos: antes da pandemia, o espaço recebia cerca de 10 mil visitantes ao ano
Imagem: Mariana Costa/UOL

Mariana Costa

Colaboração para o TAB, do Rio

04/02/2021 04h01

Em meio à natureza exuberante e curvas sinuosas do caminho que liga o litoral de Mangaratiba ao município de Rio Claro (RJ), um episódio traumático aos poucos se revela: a destruição da cidade de São João Marcos, demolida para a construção de uma represa nos anos 1940.

Um grande pórtico na altura do quilômetro 20 da RJ-149, a primeira estrada de rodagem do Brasil, informa que estamos no Parque Arqueológico e Ambiental São João Marcos, situado em uma reserva natural formada por 930 mil m² de mata atlântica e um enorme espelho d'água.

As ruínas de um forno e a fundação em pedras de cantaria de uma padaria são os primeiros vestígios daquela que foi uma das cidades mais prósperas do século 19. Alguns metros à frente, onde no passado viajantes lavavam os pés antes de entrar na cidade, a ponte Padre Peres segue como o principal acesso ao local — hoje um grande museu a céu aberto formado pelo conjunto de ruínas, um centro de memória, um bistrô e um anfiteatro.

A maioria dos turistas não conhece bem a história. Quem conhece vive na região, mas chega com várias dúvidas, afirma o guia Wagner Zaccharias, 49, que conduz os visitantes pelo espaço, reaberto parcialmente para visitação em dezembro de 2020. "Ali era a casa dos Costa Doca, onde também funcionava um armazém", aponta Wagner, indicando os restos bem preservados de um grande tanque de lavar roupas feito de pedra. "Isso é um indicativo de que era uma família rica."

O parque é mantido pela concessionária Light e busca reconectar os fios de uma história que o tempo não apagou: a cidade viveu uma trajetória dramática até sucumbir para dar lugar a um reservatório e uma usina que abasteceria de energia elétrica e água a capital e então Distrito Federal. Os moradores foram obrigados a deixar suas casas e tudo foi demolido para que não retornassem.

Mas as águas do progresso não chegaram ao nível esperado e o núcleo urbano não ficou completamente submerso. O local ficou abandonado por quase 70 anos e as ruínas foram engolidas pela mata.

A Igreja Matriz de São João Marcos, pouco antes de sua demolição: ela precisou ser dinamitada - Lisa Loureiro/Acervo pessoal - Lisa Loureiro/Acervo pessoal
A Igreja Matriz de São João Marcos, pouco antes de sua demolição
Imagem: Lisa Loureiro/Acervo pessoal

Não fosse a presença perene das pedras — e o trabalho dos arqueólogos —, seria difícil acreditar que havia ali uma cidade bastante desenvolvida para a época, com cerca de 140 edificações.

Mais à frente, em meio a um caminho ladeado por mulungus, revela-se o traçado de ruas bem planejadas e uma praça central, as ruínas da Igreja Matriz, a Casa do Capitão-Mor, um punhado de fundações de casas e sobrados e os cavalos, atualmente os únicos moradores do local.

As águas da represa aparecem na linha do horizonte.

Passado de glória

São João Marcos foi fundada em 1739 e tornou-se berço da aristocracia rural fluminense. A localização privilegiada, em meio a uma confluência de rios, próxima à capital e com acesso ao litoral, levaria a cidade a viver anos de glória. Com o fim da escravidão e o declínio do ciclo do café, a cidade começou a perder importância.

Entre 1905 e 1907, a concessionária Light, na época uma empresa canadense, arrendou e inundou um distrito rural de São João Marcos para a construção de uma usina. O pedregoso Rio das Lajes viraria um grande lago artificial. Vilarejos e distritos foram submersos e um surto de malária se alastrou pela região, trazendo morte e doença.

Trinta anos depois, um novo sacrifício foi imposto: era preciso elevar o nível de água da represa, inundando o município. Em 1939, na tentativa de proteger o conjunto arquitetônico, o antigo SPHAN, atual Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), fez o tombamento de São João Marcos. Mas em 1940, Getúlio Vargas, com uma canetada, cancelou o tombamento, abrindo caminho para que a Light aumentasse a capacidade da represa.

Bosque de mulungus no Parque Arqueológico e Ambiental São João Marcos, em Rio Claro (RJ) - Divulgação - Divulgação
Bosque de mulungus no Parque Arqueológico e Ambiental São João Marcos, em Rio Claro (RJ)
Imagem: Divulgação

São João Marcos tinha uma dezena de ruas, duas praças, duas igrejas, um teatro, dois clubes, paço municipal, cadeia, hospital, caixa d'água e a casa do capitão-mor, que mais tarde se tornaria escola. Tudo foi demolido para que ninguém voltasse. Dois anos depois, a cidade já não existia mais. É o primeiro e único caso do Brasil de uma cidade tombada e destombada no ano seguinte.

"Entre 1940 e 1941 já havia várias casas demolidas. Meu avô ficou até o final, então mamãe assistiu toda a decadência", relembra Jane Pena da Rocha, 57, filha de Dona Cidinha, que deixou São Marcos quando ainda era adolescente.

As famílias tiveram dificuldades para se manter, pois as indenizações eram baixas. "Uma vez por ano, ela pegava a gente e ia fazer piquenique: estendia a toalha onde era a casa da minha avó e falava 'hoje vamos almoçar na casa da vovó'", lembra Jane, que cuida do acervo de fotografias, livros, jornais da época e de um pedaço de azulejo da igreja matriz guardados pela mãe.

Prestes a completar dez anos, o parque recebia, em média, 10 mil pessoas ao ano. As atividades culturais foram suspensas por causa da pandemia e passaram a acontecer de forma virtual, e as visitas foram restritas a pequenos grupos, aos sábados.

Um centro de memória expõe uma maquete histórica, além de fotos antigas e objetos encontrados no local. Um painel composto por 30 azulejos retrata os tempos áureos de São João Marcos. A obra foi cedida pelo arquiteto João Marcos Pereira, batizado em homenagem ao santo padroeiro. Feita sob encomenda por seu pai, Arlindo Pereira, a obra ocupava local de destaque na casa da família, que mudou-se para São Caetano do Sul (SP) após o fim da cidade.

"Esse painel ficava na parede da sala, com dois holofotes. Ver a cidade chegando ao fim foi algo que machucou muito meu pai", conta João, que precisou inventar uma ferramenta para retirar os azulejos da parede. Treze pessoas participaram voluntariamente da missão de retirar e transportar o painel de 43kg até o parque.

As ruínas foram reconstruídas graças a uma técnica que reintegra peças e materiais originais dos escombros. É possível ver pedaços inteiros das torres da igreja, que precisou ser dinamitada. Diz a lenda que o único homem que concordou em fazer o serviço perdeu tudo e morreu pobre e corcunda. A imagem de São João Marcos está em uma capela em Mangaratiba (RJ), mas pouco se sabe sobre o destino das demais peças da igreja, na época considerada uma das mais ricas do estado.

São João Marcos

Herança e debate

A destruição da cidade pode ter sido causada por um erro de cálculo, há controvérsias sobre sua necessidade. Mas a versão é contestada pelos administradores do parque. "No período de cheia, o nível da represa sobe e a água se aproxima até a casa do capitão-mor", garante o guia Wagner.

"É um episódio estranho, considerando os interesses da época. E sabemos que no Brasil tudo é possível", resume Elias Sterce, secretário paroquial de Lídice, que pertencia ao extinto município e hoje faz parte de Rio Claro (RJ). A versão mais consolidada se relaciona a um incidente diplomático após um acidente no Canadá envolvendo Amaral Peixoto, na época interventor do Rio de Janeiro, e sua esposa, Alzira Vargas, filha de Getúlio Vargas.

"Eles se envolveram em um acidente grave de automóvel e lá a pena era bem dura. Aproveitando-se da situação, a companhia de antes, que não era a Light de hoje, resolveu abafar o caso em troca da ampliação da usina. Depois veio essa história de Lídice", explica Lisabeth Loureiro, que vive na região há trinta anos. Em 1943, houve uma campanha para que diversas cidades pelo mundo mudassem de nome em homenagem à cidade checa dizimada pelo exército nazista. O distrito de São Antônio de Capivari foi rebatizado de Lídice, um ano após a destruição de São João Marcos.

"Lídice foi escolhida porque Getúlio Vargas havia arrasado São João Marcos. Foi uma espécie de mea culpa", afirma Lisa, que está escrevendo um livro sobre Lídice e administra uma página no Facebook em que conecta parentes de moradores do extinto município.

Lisabeth Loureiro tem uma biblioteca repleta de clássicos e livros sobre São João Marcos - Mariana Costa/UOL - Mariana Costa/UOL
Lisabeth Loureiro tem uma biblioteca repleta de clássicos e livros sobre São João Marcos, em Rio Claro (RJ)
Imagem: Mariana Costa/UOL

Represa da morte

Enquanto a memória de São João Marcos renasceu com a criação do parque, o distrito de São Sebastião do Arrozal não teve a mesma sorte. Quase uma centena de fazendas — e também os rastros da exploração do trabalho de pessoas escravizadas — jaz a 40 metros de profundidade. Um dos poucos relatos a respeito é de Luiz Ascendino Dantas intitulado "O Holocausto Brasileiro". As consequências de uma desapropriação que deixou moradores e animais ilhados, e trouxe morte e doença, rendeu ao local, à época, o título de "represa da morte".

O reservatório integra um complexo de usinas hidrelétricas que até hoje abastece alguns bairros da cidade do Rio. Suas águas deságuam na bacia do Rio Guandu, de onde vem a água da capital e boa parte da região metropolitana do Rio de Janeiro.

"Sobre Arrozal tem pouca coisa. Há uns anos, caminhando pelo meio do mato, encontramos o cemitério. Estava eu, uma historiadora e um grupo do turismo. Cruzamos as informações dos mapas antigos e dos moradores da região. Ficamos muito emocionados, pois isso é tudo que restou de lá", diz Jane.