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Bernardo Machado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Está difícil ser jovem LGBTQI+ na pandemia

Desenho de casal LGBT - Getty Images
Desenho de casal LGBT Imagem: Getty Images
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Bernardo Machado

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Colunista do UOL

17/05/2021 04h00

Os relatos de angústia da juventude LGBTQI+ se esparramam pelas redes e alcançam profissionais da educação que, com aflição, tentam acolher as demandas. No dia Internacional contra a Homofobia e a Transfobia, lembrado no 17 de maio, vale perguntar: quais os dilemas enfrentados por este grupo de jovens durante a pandemia?

Desde o ano passado, uma série de pesquisas se propôs a investigar o comportamento de adolescentes perante os entraves sanitários. Em junho de 2020, por exemplo, uma pesquisa do Datafolha, encomendada pela Fundação Lemann, pelo Itaú Social e pelo Imaginable Futures relatou, dentre outras coisas, como estudantes e famílias lidavam com a pandemia e o distanciamento social.

Foram realizadas 1.028 entrevistas por telefone com pais e responsáveis por estudantes com idade entre 6 e 18 anos. O resultado, divulgado no relatório Educação não presencial na perspectiva dos estudantes e suas famílias, destacou que para 64% dos pais ou responsáveis, estudantes estavam ansiosos/as, 45% apresentavam sinais de irritação, 37% demonstrava tristeza e 23% tinham medo do retorno à escola. Nas residências com três ou mais jovens as taxas eram ainda maiores, 72% estavam ansiosos/as, 63% com irritação, 50% tristes e 34% com medo de voltar à escola

Já a Fiocruz, na pesquisa ConVid Adolescentes, identificou a percepção de jovens sobre a própria saúde. Entre junho e setembro de 2020, o trabalho entrevistou 9,470 adolescentes entre 12 e 17 anos e atentou para as diferenças em termos de gênero e idade do grupo. Nos resultados, 30% de adolescentes relataram uma piora da saúde durante a pandemia: 33,8% das meninas notaram a deterioração de sua saúde, enquanto 25,8% dos meninos perceberam o mesmo. Dentre adolescentes entre 16 e 17 anos, a taxa atingiu 37% e entre aqueles entre 12 e 15 anos, a porcentagem foi de 26,4%.

Embora tais pesquisas sejam fundamentais e estejam em processo de atualização dos dados, elas não fazem menção à população LGBTQI+ adolescente. Por sinal, esta costuma ser uma característica das pesquisas realizadas sobre muitos assuntos: habitualmente, não se coloca como critério de análise fatores relacionados à orientação sexual ou a identidade de gênero em questionários a respeito de educação, mas também trabalho, segurança e afins.

Por isso, no dia 17 de maio, vale perguntar: quem se preocupa com a juventude LGTBQI+? Desconsiderado nos levantamentos, esse conjunto de pessoas parece inexistir. Quiçá se houvessem dados sobre essa população, poderíamos avaliar como esse grupo está enfrentando as dinâmicas pandêmicas. E há motivos para crer que suas experiências são singulares quando comparadas à juventude não-LGBTQI+.

A casa

A casa geralmente é tida como um espaço íntimo, isolado dos outros, habitado por uma família nuclear composta por um pai, uma mãe e seus filhos, todos vivendo sob a autoridade de famílias paternas, conforme destacam os pesquisadores Benoît de L'Estoile e Federico Neiburg.

Contudo, o lar, muito mais do que um refúgio — um lugar de conforto e um espaço de privacidade — é um espaço poroso no qual as pessoas experimentam mundos diversos de acordo com seu gênero, sua orientação sexual, sua idade, sua classe e raça, como salientam Camila Rosatti, Heloisa Pontes e Vincent Jacques. Pode ser tanto um abrigo do mundo exterior quanto um lugar de perigo e desigualdade, sobretudo para mulheres, crianças e jovens LGBTQI+. Afinal, a violência doméstica acomete essa população e ceifa seus direitos.

Dessa forma, além dos conflitos costumeiros entre pais e jovens, a juventude LGBTQI+ enfrenta abusos físicos e psicológicos específicos, pois há quem lhes negue sua existência. Na intimidade do espaço doméstico, é comum ouvirmos expressões como "sou o chefe da casa", "sou o rei da minha casa", o que reforça a percepção de que as leis morais estabelecidas naquele ambiente são arbitrariamente instituídas por quem detém a propriedade e que, portanto, não precisariam necessariamente seguir as normas de direitos do Estado.

Não quero insinuar que toda parentalidade necessariamente compromete a experiência de suas crias, tampouco dizer que pais não devem se preocupar com filhos e filhas. Por sinal, o coletivo Mães Pela Diversidade age justamente com o intuito de receber mães e pais que tem filhos e filhas LGBTQI+ de modo a sensibilizar e acolher suas angústias e promover condições para garantir os direitos dessas pessoas. Mães, pais e responsáveis que defendem o direito de seus filhos serem LGBTIQ+ não o fazem unicamente por suas crianças e seus adolescentes, mas também para assegurar o próprio direito de serem pais e mães de uma pessoa não heterossexual, conforme pontua o filósofo trans Paul Preciado.

A internet

Diante de portas trancadas, do distanciamento social e do incremento de mortes, resta, dentre poucas alternativas disponíveis, a internet. Mas o meio guarda um risco. No caso de jovens LGBTQI+, um teste de aparência, um flerte ousado ou uma experiência de contravenção de gênero ficam registrados no backup — ou até numa imagem em print. Os testes presenciais, quando muito, geram constrangimento, não documento.

Os recentes relatos de jovens que pululam nas redes e alcançam docentes sugerem o temor do cyberbullying, a perseguição de colegas e a exposição para os familiares. Aliás, a presença da família numa casa de um cômodo ou na partilha dos mesmos dispositivos de acesso à internet também compromete suas próprias experiências.

Além disso, a pesquisa O direito das crianças à privacidade, desenvolvida pelo Internetlab e pelo Instituto Alana, destaca os riscos que crianças, mas também adolescentes, experimentam na internet. As plataformas e aplicativos são projetados para encorajar o uso constante e a superexposição dessa parcela da população. Assim, empresas garantem que mais dados possam ser coletados e armazenados. Por sinal, a maioria dessas tecnologias digitais não foi projetada para crianças com menos de 13 anos, isso porque os modelos de negócios monetizam dados pessoais para fins comerciais e de modulação comportamental e técnicas de persuasão.

O relatório aponta que crianças e jovens são fortemente impactados por essas estratégias, pois moldam suas ideias e decisões sobre tecnologia, política, consumo, crenças e relações interpessoais. O que essas plataformas farão com os dados privados e sigilosos dessa juventude que está experimentando sua sexualidade e sua identidade em um momento formativo?

Novas pesquisas

Sem pesquisas direcionadas para a juventude LGBTQI+ e sem a atenção para as dores e sabores desse grupo, ficamos com impressões e conjecturas. Quais as nuances dos sentimentos e experiências desse grupo num momento pandêmico? Além da tristeza, da irritação e da ansiedade, como estão experimentando a vida? Como está se dando a violência?

A adolescência corresponde ao período na trajetória de vida de sujeitos em que é autorizada socialmente a experimentação de estilos de vida — as roupas, as maquiagens, o teste dos afetos. Como atravessar essa fase com a constante vigilância ou a ameaça da vigilância de pais e de empresas de tecnologia? Por isso, é pertinente alertar: se não falarmos da juventude LGBTQI+ e de suas singularidades, corremos o risco de negar seus direitos à liberdade e à vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL