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Bernardo Machado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Você também está com fadiga? Exaustão é o sobrenome do brasileiro em 2021

Palito de fósforo apagado - Freepik
Palito de fósforo apagado Imagem: Freepik
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Bernardo Machado

Bernardo Fonseca Machado é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Desde 2018, trabalha como professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás. Também foi Visiting Student Research Collaborator na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (2015-2016) e, em 2016, co-escreveu o livro Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola pelo selo Reviravolta da Companhia das Letras. Desenvolve pesquisas acadêmicas como membro dos grupos Etnohistória e do NUMAS (Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença), ambos da USP.

Colunista do TAB UOL

15/11/2021 04h00

Não sei você, mas nas últimas semanas, o cansaço tornou-se hegemônico nas minhas conversas rotineiras. Quase em toda reunião, nas interações sociais, e até mesmo no caixa do mercado as reclamações de exaustão profunda afloram. Numa mistura de complacência e irritação, pares de olhos vermelhos encontram outros pares de olhos afundados e, desse match, afloram — com rara animação — reclamações sobre o excesso de trabalho, a economia em frangalhos, as horas mal dormidas e as notícias caóticas do país.

Infodemia

Há menos de um mês, a marca nefasta de 600 mil mortes pedia uma dor profunda e encontrava uma insensibilidade anestesiada. O relatório da CPI da Covid esfregava suas mais de mil páginas em nossas caras. As offshores de Paulo Guedes expunham como o ministro acumulava renda enquanto garantia uma economia nacional desfalcada. E a queda de todos os serviços do Facebook interrompia a comunicação e, ao invés de apaziguar os ânimos, nos metia em dúvidas a respeito dos dados e dos monopólios.

Passadas poucas semanas, esses capítulos já estão ultrapassados. Agora é da candidatura de Moro, filiação de Bolsonaro ao PL, PEC dos precatórios, balanço da COP26 e o Facebook nos apresenta em outra Meta que promete mudar a imagem de plataforma de mídia social para se transformar numa empresa que constrói espaços de trabalho e comunidades sociais virtuais.

Tela

Por falar em redes sociais, uma matéria recente no The Guardian alerta que, nos Estados Unidos, o americano médio possui 47 mensagens de texto não lidas e 1.602 e-mails não abertos. Fiquei preocupado: mais de 17 mil e-mails não lidos aguardam minha atenção. Ainda assim, continua o texto, o tempo médio de tela do telefone é de 4,2 horas por dia — o maior registrado ali. Isto é, apesar das pessoas passarem mais tempo vidradas nos telefones, carecem de força vital para concluir uma conversa: a visão de múltiplas notificações não lidas pode desencadear sentimentos de ansiedade.

Burnout

Uma pessoa recebe notificações constantes, se engaja em dezenas de conversas simultâneas e prolonga assuntos — com mensagens esparsas — ao longo de dias. Quem tem fôlego para responder todas as trocas, interagir em todas as redes e ainda trabalhar (ou procurar emprego em contexto de desemprego alto e precarização das atividades)? Trabalho, a informação e a comunicação pessoal perseguem nossos dedos e disputam os nossos sentidos em todas as fontes possíveis. O estresse acaba redobrado quando atuamos com tamanha intensidade.

'Espero que esteja bem'

Aliás, me chama a atenção como, sem grandes alardes, trocamos o despretensioso "tudo bem?" pelo cuidadoso "espero que esteja bem". O "tudo bem?" guarda um ar de pergunta retórica. Na época de seu uso, ninguém (ou quase ninguém) respondia: "estou mal", "as dívidas só crescem", "quebrei um dente" e por aí segue. De toda forma, essa rápida interação nutria a esperança de que, no geral, tudo estaria dentro de algum eixo.

Melhor foi reconhecer que não estamos nada bem e focarmos não na pergunta, mas nos votos, generosos, de que, diante da hecatombe (sanitária, social, econômica, política e ambiental), possamos aguentar em algum fiapo de sanidade. Afinal, quem está bem? A pergunta tornou-se um potencial gatilho.

Férias

Por falar nisso, um colega outro dia revelou: "agora não posso mais ouvir essa palavra [férias]. Me dá gatilho". Segundo me disse, a expressão é demasiadamente abstrata e ostensivamente utópica. "Férias? O que é isso?". Mesmo quem consegue interromper o fluxo de trabalho não se satisfaz: "muito bom parar, mas o Brasil não dá trégua! Toda semana um escândalo diferente", reservou-me outra pessoa, "eu precisava era de férias do Brasil".

Seria ótimo. Sair do país, passar algumas semanas longe das intrigas políticas, da esfomeada inflação e voltar numa Pindorama sem desigualdades, com plena democracia, os direitos assegurados para todo mundo e a garantia da diferença com equidade. Nesse cenário fictício, o maior dilema no debate público residira em discutir qual a temperatura adequada para as fontes de águas potáveis. Elas estariam disponíveis nas esquinas de todos os municípios e, no Twitter, as pessoas se digladiariam para defender se 18º C ou 20º C estariam mais adequados.

Não me julgue pelo delírio, a exaustão me pegou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL