PUBLICIDADE
Topo

Luiza Sahd

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Em um mundo tão injusto e exigente, não adianta nem mesmo ser uma Shakira

Da piadinha "Shakira posa com Gerard Piqué", a gente pode até rir um pouco, por outro lado - Reprodução/ Youtube
Da piadinha 'Shakira posa com Gerard Piqué', a gente pode até rir um pouco, por outro lado Imagem: Reprodução/ Youtube
Conteúdo exclusivo para assinantes
Luiza Sahd

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Colunista do TAB

09/06/2022 04h01

Já aconteceu aqui em casa: a pessoa por quem você está apaixonada termina contigo e fica com outra. Você adoraria dizer que foi trocada por um feio ou uma feia, mas infelizmente não é o caso. Você olha para o novo par do seu ex e se vitimiza: "é claro que fui trocada, sou horrorosa perto dela". Ouvi um discurso parecido durante a semana e precisei avisar que, sinceramente, às vezes não adianta nem mesmo ser a Shakira.

Quem está acompanhando o rumor de que a cantora colombiana teria sido "trocada" por uma mulher com menos da metade de sua idade sentiu na pele, pelo menos, umas duas emoções. Talvez um certo alento por saber que essas coisas também podem acontecer com a Shakira; talvez o pavor de constatar que, se tá ruim para a Shakira escapar de ser preterida, imagina pra gente que não consegue nem decorar a letra de "Waka Waka".

Mas o que faz de uma pessoa uma Shakira? Assim como a lasanha, a cantora é gostosa em várias camadas.

Primeiro que a gente olha para a Shakira, que tem 45 anos, e se questiona como faz para ter aparência mais jovial a cada ano que passa. Superado o choque estético, vem o impacto da voz e do rebolado. É muita coisa, mas avançando na investigação dessa personalidade, você fica sabendo que Shakira fala, fluentemente, espanhol, inglês, português, italiano e árabe. Então você calcula que não tem jeito: ela só pode ser antipática.

Eu sugiro que todo brasileiro tire na sua semana algum momentinho para rever participações da cantora no programa da Hebe Camargo ou do Gugu Liberato. Conheço muita gente sem carisma que nem é acessível como ela.

Sobre possíveis defeitos de Shakira, há quem alegue que ela se enrolou com impostos na Espanha (e há quem chame esse ocorrido de reparação histórica pela exploração da Península sobre a Colômbia). Particularmente, eu só torço pela paz da Shakira: deve ser complicadíssimo dar conta de ser linda, sensual, jovial, inteligente, bem-sucedida e carismática enquanto o mundo segue em franco colapso.

Você pode até achar que nem tem mais de onde tirar perfeição, só que Shakira ainda toca violão, guitarra, bateria, percussão e gaita. Ela também foi amiga de gente como Gabriel García Márquez e arranja tempo para se dividir entre os dois filhos e o lançamento de hits como "Girl Like Me".

Quanto mais a gente enumera qualidades de Shakira, um pouco mais intrigante fica a questão: para que ser tudo isso?

Quando penso que, agora mesmo, pelos motivos errados (suposta traição e anúncio de divórcio), há gente do mundo inteiro falando dessa mulher — que claramente vive em função de se aperfeiçoar a cada dia —, tenho dúvida sincera se vale a pena tanto esforço, estudo e gasto de desodorante pra ser boa em tantas coisas.

Olhando em volta, fica claro: não importa o quanto eu, você ou a Shakira melhore como pessoa; o mundo vai sempre deixar claro que nunca é o bastante — seja porque alguém (eventualmente, alguém medíocre) te preteriu, seja porque alguma meta não foi alcançada ou simplesmente porque a gente não nasceu sendo a Shakira.

Empenhar tanta energia para ser bom em tudo na vida pode ter dois desfechos possíveis: você finalmente vira a Shakira — o que é raro, mas não garante prevenção contra aborrecimento amoroso — ou você vira uma pessoa exausta de tentar agradar o mundo (e também não te isenta de decepções diversas).

Independentemente da escolha, estamos sempre sendo julgados e cobrados para virar muito mais do que já somos. O resultado costuma ser burnout, frustração e vazio.

Seja como for, gosto de pensar que Shakira está sempre aprendendo algo novo apenas pelo prazer de ser alguém melhor pra si mesma, pra se divertir e para cuidar melhor de quem ama. Até porque, no mundo como está, não adianta nem mesmo ser a Shakira.