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Se Mauricio de Sousa não merece cadeira na ABL, quem merece?

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Nesta quinta-feira (23), o jornalista e diretor de TV e teatro James Akel, 69, foi destaque na coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, por uma declaração deveras forte: "Mauricio de Sousa não tem o que acrescentar à Academia Brasileira de Letras, eu tenho". Akel, Mauricio e o filólogo Ricardo Cavaliere concorrem à cadeira de número oito da ABL, aberta com a morte de Cleonice Berardinelli, 106, em fevereiro.
Apesar da dificuldade de entender qual é a relevância de uma instituição desse tipo (e da discussão sobre imortais da ABL) em um país que atende mal às necessidades de alimentação e saneamento básico de seu povo, é na educação, na difusão de cultura e conservação de patrimônio cultural que reside a virada desse cenário. Estamos falando do mesmo país em que museus e todo o seu acervo viram pó da noite pro dia. Eis a importância da existência da Academia e da escolha de seus membros.
Antes de entrar no mérito da questão, é preciso lembrar qual seria o papel da ABL — na teoria e na prática — para o cenário cultural brasileiro. Fundada em 1897 com o objetivo de estimular o estudo da literatura e da língua portuguesa no Brasil, ela também tem, hoje, a missão de promover a cultura brasileira pelo mundo. Trocando em miúdos, deveria estar onde o povo está.
A ABL parece estar, finalmente, remando neste sentido com a nomeação de Fernanda Montenegro e Gilberto Gil para duas de suas cadeiras. Assim como a dupla foi reconhecida por usar as artes cênicas e a música para comunicar o que é o Brasil para quem realmente precisa — o brasileiro médio —, Mauricio de Sousa ainda faz a proeza de cativar leitores na idade mais importante da vida por meio de suas HQs.
É na infância que se investe em um cidadão para que ele se torne consciente, autônomo, curioso e digno, de modo geral. Assim como aconteceu comigo (que jamais seria uma trabalhadora das letras sem a obra de Mauricio de Sousa para acender essa centelha), um sem-número de brasileiros de gerações diversas tiveram seus primeiros contatos com a língua e a cultura por meio da Turma da Mônica.
Mauricio dignificou tantas vidas ao longo de sua trajetória que falas como a de James Akel parecem fruto de alucinação coletiva. Se a ABL deseja ser relevante — e não uma associação de intelectuais autoconclamados conversando entre si —, é preciso reconhecer que a cultura produzida por gente como Mauricio pode mudar destinos.
Contrariando o arquétipo do idoso que não lida bem com as voltas que o mundo dá, a produção de Mauricio de Sousa continua atual — tanto que, aos 87 anos, segue revisando sua obra. Recentemente, ele declarou ter se arrependido de fazer sua maior protagonista, Mônica, ser uma criança que bate nos colegas.
A genialidade de Mauricio ainda mora em outros detalhes nada pequenos: quando o debate público ainda passava longe de assuntos como diversidade e inclusão, ele já tinha personagens com deficiência (Humberto, Luca, Dorinha, Tati e André), negros (Jeremias, Milena e Pelezinho), e até o indígena Papa-Capim.
Até hoje, a gente pena para emplacar a discussão mais urgente do mundo — a crise ambiental —, mas Chico Bento fala dos cuidados com a natureza desde 1960. Enquanto os desdobramentos da pandemia de covid-19 mostram que a defesa da ciência não é unanimidade nem no meio médico, Mauricio já rabiscava o personagem Franjinha e seus experimentos científicos em 1959.
A morte e a loucura tampouco foram tabus para esse genuíno intelectual. A turma do Penadinho e do Louco traziam essas pautas com todo o tato que o universo infantil demanda. Tudo isso feito com o humor, a leveza, a imaginação e a simplicidade que só pessoas realmente brilhantes conseguem dosar.
E o Horácio? Simplesmente um Tiranossauro rex que mantém diálogos filosóficos muito sofisticados com homens da pré-história. Nem crianças ou adultos mais dados à metafísica ficam sem entretenimento no que depender deste herói da cultura nacional.
O universo criado por Mauricio de Souza é tão vasto que dá vontade de implorar: feche esta aba e vá ler o que importa. Toda HQ do Mauricio tem alguma coisa bonita (às vezes, transcendental) para ensinar a qualquer pessoa sensível de qualquer idade.
A arte que não é democrática assim pode até ser arte, mas se torna menor, menos universal, mais fugaz. Talvez até tacanha.
Sabe-se lá se Mauricio de Sousa vai se sentar com os imortais da ABL, mas ele já é imortal aqui fora. No fim das contas, é deste tipo de imortalidade que o mundo precisa.
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