Matheus Pichonelli

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Opinião

Tatá na CPI das Pirâmides é como convocar Roberto Carlos à CPI da JBS

Vendia-se um pouco de tudo no velho bar e mercearia de Bueno de Andrada, distrito da antiga estação de trem entre Araraquara e Matão, no interior de São Paulo. Cadernos, tênis, panelas, bebidas. E coxinhas, que brilhavam numa estufa nada "instagramável".

Quem passasse pela portinhola deixaria do lado de fora qualquer conceito de bom gosto. Certamente associaria o dourado da iguaria ao excesso de óleo de soja.

Não tinha nada na paisagem que não retratasse o mais absoluto abandono. Beber até a morte parecia o destino certo entre o cemitério abandonado do distrito e a estação de trem desativada.

Até que o escritor Ignácio de Loyola Brandão, filho ilustre da região, passou pela vila que visitava uma vez por mês, quando criança, e experimentou uma epifania. Proust não fez tanto pela fama de suas madeleines quanto fez Loyola pelas coxinhas douradas de Bueno de Andrada.

Como uma lembrança da infância, ele salivava ao descrever, em sua coluna no Estadão, em março de 2001, o salgado de massa de batata saborosa, crocante, com recheio generoso de frango desfiado e bem temperado.

A crônica de Loyola, afixada em uma parede, cobriu o desconhecido botequim de credibilidade e o transformou em ponto turístico. (Vocês acham que a Casa do Porco tem muita fila no fim de semana? É porque nunca passou por Bueno aos domingos).

Mais de 20 anos se passaram desde aquela crônica, a melhor propaganda que um estabelecimento poderia receber (de graça, inclusive).

Os formadores de opinião estavam nos jornais e tinham autoridade para transformar uma localidade esquecida em point gastronômico.

Hoje o que não falta é influencer disposto a emprestar credibilidade em postagens pagas e direcionadas a seus milhões de seguidores. Bueno de Andrada, uma vila nada instagramável que Loyola comparava à Toscana, talvez não fosse o que é hoje em tempos de publi no TitTok ou no Instagram.

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E olha que não faltam estabelecimentos desconhecidos e de fachada duvidosa que apostam no prestígio de famosos para alavancar os negócios. É uma dupla aposta de riscos, para quem empresta a fama e para quem contrata os serviços: da porta para dentro, o boteco pode ter uma iguaria única e dourada; mas pode também ser uma cilada daquelas.

Na quarta-feira (23), a CPI das Pirâmides Financeiras aprovou a quebra de sigilo bancário dos atores Cauã Raymond e Tatá Werneck e também do apresentador Marcelo Tas.

Eles são investigados por trabalhar em propagandas da Atlas Quantum, acusada de aplicar golpes de mais de R$ 7 bilhões e lesar cerca de 200 mil investidores. O dono da empresa também terá as contas vasculhadas.

A maioria dos clientes lesados certamente nunca tinha ouvido falar na empresa quando decidiu cair no conto dos famosos, que na propaganda faziam testemunhos sobre o milagre da multiplicação de moedas digitais.

"Eu fiquei interessada por ter o domínio sobre algo que eu luto tanto e sempre lutei tanto para conseguir", dizia Tatá na propaganda.

Autor do pedido de convocação do trio, o deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP) utilizou a mesma ferramenta de engajamento da empresa investigada.

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Sem o mesmo apelo da CPI dos Atos Golpistas, a novela de maior sucesso atualmente em cartaz no Congresso, a comissão das criptomoedas praticamente marcou a arroba de figuras conhecidas para engajar e chamar a atenção. Nessa até Ronaldinho Gaúcho chegou a ser convocado.

Se a moda pega, não vai ter famoso que escape da associação entre seus nomes e o serviço prestado a empresas de nomes queimados. Seria como chamar Tony Ramos e Roberto Carlos, garotos-propaganda da Friboi, para depor na CPI da JBS.

Ali a única informação relevante era saber se o Rei voltou a comer carne vermelha depois de levar uma bolada pela propaganda.

Ambos quebraram contratos com a empresa em meio às investigações policiais. O ator alegou incômodo. Mas nenhum deles deixou de ser chamado para trabalhar por isso. Pois uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Costinha, se vivo fosse, provavelmente não escaparia das lentes da CPI da Loterj, mesmo que sua atuação tenha ficado mais conhecida pela versão proibidona do que pela oficial.

A paródia do humorista é, inclusive, didática para explicar o envolvimento real do garoto-propaganda com a empresa interessada em seu prestígio. Ou alguém acredita que a Xuxa realmente usava xampu barato ou que o Pelé tomava fortificantes?

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Assim como outros produtos e serviços de gosto duvidoso, foi justamente o empurrão de famosos que garantiu um verniz de bom investimento às criptomoedas. Muitos geravam propaganda simplesmente pelo fato de apostarem em algo que ninguém estava disposto a apostar. O mesmo se pode dizer dos sombrios sites de apostas estrelados, em suas propagandas, pelos principais jogadores da atualidade. Se toda a seleção aposta, por que não apostaríamos?

A quantidade de pseudopersonalidades com selo verificado fazendo testemunhos nas páginas de serviços e produtos claramente enganosos mostra que essa engrenagem é complexa e envolve muitos comparsas. Se alguém puxar o fio, vai longe.

Não é o caso de Tatá, Cauã e Tas, claro. Muitos famosos, inclusive, se tornaram vítimas de esquemas para o qual serviram como escada.

Sasha Meneghel era entusiasta e vitrine de negócios do tipo até perder dinheiro na aposta. Virou, sem querer, a maior garota-propaganda dos investimentos em poupança.

Após a má repercussão, Tatá até tentou na Justiça impedir o uso de sua imagem pela Atlas Quantum, mas não conseguiu.

As investigações, em todo caso, deixam menos alertas jurídicos do que lições sobre gestão de carreiras a artistas que topam ceder o prestígio a baiucas digitais de toda espécie.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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