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Michel Alcoforado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A 'pátria de chuteiras' não liga mais para o seu próprio futebol

Neymar esbraveja durante a final da Copa América entre Brasil e Argentina, no Maracanã - Thiago Ribeiro/Thiago Ribeiro/AGIF
Neymar esbraveja durante a final da Copa América entre Brasil e Argentina, no Maracanã Imagem: Thiago Ribeiro/Thiago Ribeiro/AGIF
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Michel Alcoforado

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca, uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Colunista do TAB

13/07/2021 04h01

Se vocês acham que a vaca foi pro brejo quando o Brasil perdeu para Alemanha naquele fatídico 7 x 1, já aviso, estão enganados. Esperem para ver o que nos aguarda daqui pra frente, depois da derrota envergonhada para a Argentina na final do Copa América da Covid, por apenas um gol.

Partidas de futebol são aquilo que os antropólogos chamam de fatos sociais totais. Funcionam como um microcosmo de um grupo social, revelam códigos, dilemas e contradições e oferecem a todos a oportunidade de analisar, em menor escala, o nervo central de uma sociedade. Se, diante do tenebroso jogo ficou provado que o Brazil não conhece o Brasil (como diz a música), dessa vez o problema é ainda mais sério: ninguém (nem a gente mesmo) faz ideia do que somos. Estamos perdidos!

Aprendemos com Benedict Anderson, antropólogo e pesquisador da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, que as nações são invenções sociais. Há pelo menos 200 anos, os governantes se preocupam em construir um senso de unidade para além dos limites impostos pela burocracia estatal. Não se faz um povo só com passaporte, exército, limites territoriais, autarquias e prédios oficiais. É preciso mais. O sentimento de fazer parte de um lugar se constrói pelo alinhamento das peculiares maneiras de fazer e de pensar, símbolos e histórias repetidas exaustivamente, de modo que, em pouco tempo, os cidadãos sejam capazes de reconhecê-los como tipicamente seus.

Aos poucos, mesmo que não conheçamos todos os habitantes do nosso país de origem, nos reconhecemos enquanto parte de uma mesma comunidade porque lembramos e esquecemos das mesmas histórias, cultuamos os mesmos símbolos e nos conectamos com os símbolos nacionais de igual modo. O senso de pertencimento a uma nação nos é inculcado ao longo do processo de socialização e, rapidamente, se transforma em uma segunda pele — parte de nós mesmos.

Inscritos em nossa alma como tatuagens, eles nos fazem acreditar que gostamos de samba e vibramos com o futebol porque somos brasileiros. Nos arrepiamos quando ouvimos o hino nacional sem qualquer esforço, nos sentimos instantaneamente conectados com outros compatriotas fora do Brasil rapidamente por conta dessa capacidade de os símbolos nacionais funcionarem, com eficácia, independentemente da nossa vontade.

Mesmo sem gostar de futebol, inúmeras vezes, em minhas andanças pelo mundo, fui obrigado a emitir opiniões sobre a performance da seleção, fazer dribles e mostrar habilidades futebolísticas que não domino, demonstrar intimidade sobre a história de vida de Pelé, Ronaldo e Neymar para provar (para os outros e para mim mesmo) que era brasileiro. Afinal, pelo menos desde os anos de 1950, pelo sucesso dos jogadores e dos esforços dos governantes em se apropriar do esporte como símbolo da identidade nacional, nós, brasileiros, nos agarramos à performance em campo para definir quem somos.

Ainda me lembro de uma viagem que fiz a Berlim, logo depois do fatídico jogo de 2014. No guichê da imigração, naquele momento tenso no qual a autoridade pode decidir sobre o seu destino, vi um sisudo oficial alemão abandonar o protocolo de perguntas básicas aos viajantes para debochar do resultado da partida. Assim que viu meu passaporte, começou a bradar para toda a fila que estava diante de um brasileiro, que sentia muito sobre o que aconteceu porque sabia quanto a Copa do Mundo e futebol eram temas decisivos à dinâmica nacional. Sem pestanejar, demonstrou sua solidariedade, porque tinha ciência de que uma derrota da seleção alemã não teria o mesmo peso — dado que, para nós, futebol era algo que não terminava com o fim da partida. Ele não sabia que estava errado.

Os símbolos, para funcionarem, precisam se atualizar de acordo com as transformações do mundo. Caso isso não aconteça, rapidamente perdem a importância e deixam de servir como marcadores de identidade.

Por aqui, há muito tempo futebol nacional já não tem a importância que tinha. A culpa é dos cartolas da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e dos governantes que usaram o símbolo da nação de acordo com as necessidades de ocasião.

Desde o final dos anos de 1970, há um intenso processo de profissionalização no setor, o que fez do esporte algo mais próximo da ética protestante dos capitalistas de outrora do que da ideia de que vencemos partidas por força de vontade, malemolência, imprevisibilidade e jeitinho. A exportação massiva de talentos ainda muito jovens para times do exterior, a construção de estádios cada vez mais assépticos e parecidos com as arenas de música pop, a profissionalização da gestão dos times em busca da melhor performance, o uso do esporte para favorecer governos impopulares foi, pouco a pouco, minando a potência do futebol da seleção enquanto símbolo da nação.

Uma pesquisa recente do Grupo Consumoteca mostrou que 54% dos brasileiros acreditam que o futebol brasileiro está em decadência e não representa mais o Brasil. 42% dos mais apaixonados pelo esporte estão mais interessados nos campeonatos europeus e 37% dos conterrâneos mostram completa indiferença quando a bola rola no gramado.

Até aqui, nenhuma novidade. Há tempos, nós, brasileiros, sabemos que futebol e nossa relação com o país já não têm a mesma força de antes. Não à toa, ninguém sofreu tanto assim pela derrota vexatória na Copa do Mundo de 2014 — tirando o fato de ter sido vexatória, mesmo. O problema é que agora o mundo também se dá conta disso.

Enquanto a televisão da ilhota em que estou transmitia o gol da Argentina no último domingo, o garçom do hotel chegou perto da minha mesa e me ofereceu mais uma dose de bebida.

Mesmo sabendo de meu país de origem, não se atreveu a comentar o jogo. Não me perguntou sobre Neymar, Pelé ou Ronaldinho, nem teceu nenhum comentário sobre a péssima performance do time. Para ele, naquele momento, o Brasil era o país com recorde no número de mortes pela covid-19 na América Latina e marcado pelos desmandos do governo Bolsonaro.

Brasil está loco, man!, afirmou com convicção.

Eles estão nos deixando loucos, man, respondi sem titubear.

Se é verdade que os loucos são aqueles que não têm clareza sobre a própria identidade, é verdade que perdemos a razão e já não nos reconhecemos no espelho.
Saudades dos tempos em que Pelé e Ronaldo tinham força de dizer quem éramos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL