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Michel Alcoforado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pedagogia de Paulo Freire fala em ir além. Há tempo pra isso no mundo hoje?

Paulo Freire - Ilustração: Camila Pizzolotto
Paulo Freire Imagem: Ilustração: Camila Pizzolotto
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Michel Alcoforado

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca, uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Colunista do TAB

23/09/2021 04h01

Em 2021 celebra-se Paulo Freire pelo centenário. A glória recente do educador não veio da coleção de prêmios recebidos em vida, do fato de ser o autor brasileiro mais citado nas universidades estrangeiras, nem da invenção de um método capaz de alfabetizar milhões de brasileiros em poucos dias e, muito menos, do título de patrono da educação brasileira. O reconhecimento vem da timeline das redes sociais e de centenas de banners e frases motivacionais compartilhados incessantemente nos grupos de WhatsApp.

Junto de Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Pedro Bial, Arnaldo Jabor e Vinicius de Moraes, Paulo Freire chegou ao Olimpo do tiozão do zap. Suas "sacadas" já são repetidas para todo lado, junto das figurinhas do momento.

É uma injustiça analisar o pensamento de qualquer intelectual por frases soltas ou tomar a potência do trabalho de alguém por um punhado de aspas. Longe de mim. No entanto, acredito que a recente capacidade viral dos escritos de Paulo Freire revela mais sobre os nossos tempos do que sobre o autor.

Tomo como premissa a ideia de que se um fragmento de uma obra reverbera mais no hoje do que no ano da publicação é porque a mensagem é ainda mais eficaz no presente do que fora no passado. Desse modo, podemos olhar para os virais como chaves para o entendimento do mundo.

Uma das frases mais citadas no centenário do educador vem do "Pedagogia da Autonomia", um livro de 1997. Ao tratar dos eternos puxadinhos que a humanidade precisa fazer de si mesma para continuar avançando, Freire veio com a pensata viral: "gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele. Esta é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado".

O conceito de homem inacabado reforça a ideia que a transformação dos humanos em gente cobra um esforço contínuo de aprimoramento, autocultivo e invenção de identidades. É porque somos inacabados que a educação, a escola e o ensino têm papel fundamental na conscientização das próprias limitações e na construção de novas versões de nós mesmos.

Na visão de Freire, a falta imposta pela natureza humana é um convite ao movimento e à transformação. A sensação de inacabado, precário, em eterna construção, é força motora para a plasticidade da humanidade e porta de entrada para a liberdade de ser quem desejamos ser. A potência do pensamento do educador se revela pela oportunidade que nos dá de imaginar que, através da educação, podemos ser múltiplos, diversos e únicos do nosso jeito, até o final da vida.

O retorno de Freire em forma de zap ou banner de Facebook revela a força das ideias do autor, mas, de igual modo, um deslocamento no sentido do pensamento de Freire. Apesar de as aspas repetirem um trecho da obra de 1997, como os homens são outros, as pensatas foram reinterpretadas e os sentidos, adaptados aos nossos tempos. Cada vez mais, a liberdade da incompletude humana é vista como falha, como imperfeição e como comando a ação para que ajamos de maneira rápida e eficaz, de forma acabar com a condição de inacabado.

Um pesquisa feita pelo Grupo Consumoteca, ainda antes da pandemia, dá pistas da virada. Um levantamento feito com mais de 2.000 pessoas, em todo o Brasil, demonstra que 58% dos brasileiros se sentem insatisfeitos com a vida que levam. Boa parte desse sofrimento deve-se à incapacidade de saber lidar com a eterna incompletude: 8 em cada 10 não conseguem tirar do papel algum projeto; 57% dizem sentir medo de saber que precisarão se reinventar, por completo, nos próximos anos; 30% acreditam que precisam estar no topo da performance a maior parte do tempo.

O problema é que, além do medo do inevitável, as soluções estão longe da pedagogia freiriana. A maioria dos brasileiros (75%) acredita que autoconhecimento é a chave para o desenvolvimento pessoal, e contam com a ajuda de pílulas de conteúdo sobre aprimoramento nas redes sociais, acompanham os perfis de influenciadores, costumam ir a eventos e seminários sobre o tema e consomem, com frequência, livros de autoajuda.

O descompasso entre o inacabado dos homens e um mundo que deseja respostas rápidas e que estejamos sempre prontos para a próxima onda de novidades gera a intensa sensação de mal-estar que assola os nossos tempos. O crescimento dos casos de burnout, depressão e estafa mental, que já preocupam a OMS (Organização Mundial da Saúde), são fruto da nossa inabilidade de aceitar que o tempo da transformação humana é o de uma vida inteira.

Paulo Freire, nos livros ou no zap, é o melhor remédio para entender a gente e a vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL