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Michel Alcoforado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que às vezes nossos neurônios simplesmente desistem de nós

Dopamina ajuda no prazer e na sensação de recompensa e satisfação (estímulos muito valorizados pelos jovens de hoje) - Getty Images
Dopamina ajuda no prazer e na sensação de recompensa e satisfação (estímulos muito valorizados pelos jovens de hoje) Imagem: Getty Images
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Michel Alcoforado

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca, uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Colunista do UOL

29/07/2022 04h01

— É o quê? Não acredito.

Fiquei pasmo quando Primo Paganini, psiquiatra formado pela Universidade de São Paulo com temporadas de conhecimento em Harvard, Columbia e Yale, me disse, como se falasse das flores, que vez ou outra, os neurônios se matam quando as coisas no cérebro vão mal.

O suicídio coletivo tem nome. Chama-se apoptose. Diante dos excessos, os neurônios olham uns aos outros e decidem que do jeito que as coisas andam no cérebro não vai dar para continuar. Eles entram em um ciclo de atrofia, metamorfose e têm a morte como único horizonte almejado. De uma hora para outra, como se perdessem a razão de viver, se matam. E o pior, a culpa é mais da cultura do que na biologia.

Chegamos ao assunto por conta da publicação do recente livro da pesquisadora e psiquiatra da Universidade de Stanford, Anna Lembke. Em "Nação Dopamina", a autora mostra que a incessante busca por felicidade e realização aliada a uma completa incapacidade de lidar com o tédio e frustração tem levado a humanidade a se jogar de cabeça numa série de práticas e comportamentos viciantes.

Em condições normais, dopamina é um neurotransmissor importante ao funcionamento do corpo. Assim como serotonina, endorfina, acetilcolina, a molécula é responsável pela comunicação neural, pelas sinapses. Elas funcionam como meio e como mensagem. Ao mesmo tempo que possibilitam a comunicação entre as células, carregam junto de si um conjunto de comandos essenciais ao funcionamento ao sistema nervoso. No caso da dopamina, seu papel é de ajudar no controle motor, no prazer, na atenção e na sensação de recompensa e satisfação — estímulos valorizados pelos jovens de hoje.

Lembke mostra que o consumo excessivo de comida, bebida e das mais diversas anfetaminas, assim como a fixação por compras de bugigangas baratas nos sites chineses, o desespero por likes e pela repetição de passinhos alucinados do TikTok são caminhos fáceis para acelerar o trabalho dos neurônios dopaminérgicos e, por consequência, os níveis do neurotransmissor no sangue.

A busca por uma superprodução/consumo de dopamina tem mais a ver com cultura do que com a natureza. É mais um reflexo do impacto da dinâmica social sobre o funcionamento dos corpos.

O aumento do individualismo, a disseminação de vínculos sociais cada vez mais frágeis, a imposição de que temos de ser senhores do nosso próprio destino, empreendedores de nós mesmos dentro de um mundo que nos parece perigoso, frágil, arriscado e sem futuro gera uma tensão cultural difícil de se resolver só com água, comida sem glúten e horas de meditação como propagam por aí os gurus. É preciso mais.

Afinal, como corresponder ao mandamento de fazer, fazer, fazer se a crença é de tudo já foi feito? Como realizar um grande projeto, a altura desse indivíduo que se crê um gigante, se o mundo muda com a mesma velocidade dos ventos? Como podemos nos sentir realizados, satisfeitos, plenos, quando na realidade nos vemos falhos, com síndrome de impostor e sempre distantes do ideal esperado para uma boa performance?

Para suportar a barra que é viver em um contexto cultural marcado por tantos dilemas, busca-se por saídas. A mais fácil tem sido apostar pesado no aumento da produção de dopamina no sangue para conseguirmos ter a sensação de que conquistamos algo nem que seja por segundos. Satisfação, prazer, recompensa e plenitude — sensações impossíveis de serem alcançadas pela realização dos sonhos e projetos de vida — agora são alcançadas pelo melhor gerenciamento da cultura sobre o funcionamento dos corpos. Inventa-se uma sociedade dopaminérgica.

Ninguém duvida de que alívio momentâneo é real, mas as consequências futuras para a gambiarra são perversas. Anna Lembke pontua que as taxas excessivas do neurotransmissor no sangue aumentam nossa resistência à molécula e, o que era pra ajudar, acaba por gerar mais problemas. Cada vez, precisamos de estímulos ainda maiores para ter a sensação de prazer e recompensa entregue pela produção de dopamina ao ponto que, ao invés da sensação de bem-estar, terminamos infelizes, depressivos e ansiosos. As perdas são irreparáveis tanto para os indivíduos quanto para a sociedade.

Segundo Paganini, as altas quantidades de dopamina no sangue estimulam o suicídio coletivo dos neurônios dopaminérgicos. É a tal da apoptose. No entanto, para além do papel importante na produção da molécula do prazer e da recompensa, esses neurônios se localizam no córtex pré-frontal — região "mais evoluída do cérebro" — zona responsável pelas relações sociais, propiciadora da vida em sociedade, da empatia, do auto controle e dos vínculos com os outros.

Com a morte desses neurônios, surge um descompasso. As células nervosas do chamado cérebro primitivo, organizado para o salva-se quem puder, impulsividade, agressividade, ação rápida e direta ganham preponderância sobre as outras. E, pouco a pouco, vamos nos tornando seres mais fechados, voltados para a satisfação das próprias necessidades e pouco abertos a diferença.

Os reflexos estão por toda parte. Um cotidiano içado com a ferve de uma gente com a cabeça vazia ou com os miolos moles impulsionado pelas doses altas de dopamina é violento, sofrido, improdutivo, impulsivo e apático.

— É o quê? Não acredito —, eu disse a Paganini.

Pois é. A realidade se impõe para além das nossas crenças.