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Paulo Sampaio

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Ex-modelo Vicky Schneider lembra o assassinato da filha pelo próprio pai

Com Natasha, em casa - Reprodução/Revista Manchete
Com Natasha, em casa Imagem: Reprodução/Revista Manchete
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do TAB

01/05/2021 04h01

A noite de 9 de dezembro de 1982, uma quinta-feira, foi a mais longa da vida da ex-modelo carioca Vicky Schneider. Por um tempo que pareceu uma eternidade, ela permaneceu sentada no meio-fio da rua Domingos Ferreira, em Copacabana, em estado catatônico. O pressentimento de que algo muito ruim havia acontecido tirou dela a coragem para subir e assistir ao arrombamento da porta do apartamento 201.

Em razão do forte odor de putrefação, o síndico havia tocado a campainha insistentemente, mas ninguém respondia. Uma vizinha chamou Vicky, e ela acionou a polícia. O delegado de plantão informou que só seria possível forçar a entrada na presença de alguém da família da proprietária do imóvel. Dona Marilda, 78, hospedava por aqueles dias o sobrinho César, 31, e a filha dele, Natasha, 3, fruto de um conturbado relacionamento com Vicky — então com 26 anos. Desesperada, a modelo rodou o bairro atrás de algum dos irmãos de César, até que encontrou um deles, Franco, em uma casa noturna no Posto 6.

A entrada se deu pela porta de serviço. À medida que Franco e os policiais se aproximavam do primeiro quarto, o mau cheiro se intensificava, até que se materializou nas figuras irreconhecíveis de Cesar e Natasha. Com rostos desfigurados, pai e filha jaziam lado a lado. No chão, próximo ao cadáver dele, estavam dois revólveres, um bloco de anotações e o livro "Como Vencer o Esgotamento, o Medo e a Tristeza (Depressão)", de Raphael Lenné. Cinco balas haviam sido deflagradas de uma das armas. No outro quarto, com um aspecto igualmente assustador, estava o corpo de dona Marilda.

Depois de matar a tia, Cesar deitou a cabeça da filha em uma almofada e disparou em sua nuca. Em seguida, deu cabo da própria vida. O crime logo tomou a proporção de um escândalo. Nos dias seguintes, a "tragédia da modelo Vicky Schneider" estampava todos os jornais do país. Cesar Bruni era um dos seis filhos do empresário Livio Bruni, dono de uma rede de cinemas que levava seu nome. Vicky integrava o primeiro time de modelos da época, junto com Monique Evans, Silvia Pfeiffer, Isis de Oliveira e Veluma. "A Vicky tinha uma personalidade diferente, um estilo muito próprio, e era adorável", lembra Veluma.

Colapso nervoso

Ao ouvir o relato de Franco Bruni sobre o que ocorreu no apartamento 201, a modelo sofreu um colapso nervoso . "O Franco me levou até o [Hospital Municipal] Miguel Couto [na Gávea], me deixou lá e foi embora", lembra Vicky, hoje com 66 anos.

Dopada pelo efeito de tranquilizantes, ela foi transferida pela família para o Sanatório Botafogo, uma clínica psiquiátrica. Passou dez dias internada, depois seguiu para Recife, onde sua irmã mais velha, Elizabeth, morava . "Ela me afastou do Rio e de tudo o que pudesse trazer recordações de minha filha", diz.

Vicky conta que sua irmã Elizabeth a preservou de tudo o que saiu na imprensa sobre o crime - Reprodução/Revista Manchete - Reprodução/Revista Manchete
Vicky conta que sua irmã Elizabeth a preservou de tudo o que saiu na imprensa sobre o crime
Imagem: Reprodução/Revista Manchete

Em uma conversa pontuada por pausas dolorosas, Vicky relembra o drama que marcou sua vida. No relato, agrega histórias de duas famílias disfuncionais — a sua e a de Cesar Bruni — e mostra que, apesar de bem-nascida e reconhecidamente bela, o destino não foi generoso com ela. Até chegar ao momento mais monstruoso da narrativa, ela cita o relacionamento abusivo do pai com a mãe; fala de seu envolvimento com drogas; e de como se sentia aprisionada na ligação com César Bruni. "Ele era muito, muito inteligente, obsessivo e controlador. Me tornei refém da situação, achava que nunca conseguiria me livrar daquilo", lembra. Entre idas e vindas, o relacionamento se estendeu por oito anos, três deles sob o mesmo teto.

A ex-modelo Vicky Schneider, em foto de 2013 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Nietzsche e Schopenhauer

Na ocasião da morte de Natasha, os dois haviam decidido se separar, e então Bruni problematizou a guarda da filha. Ele não abria mão de ficar com ela e, ao mesmo tempo, não se conformava em perder a mulher. Em determinado momento, chegou a sequestrar a menina. Depoimentos publicados pela imprensa o definiam ora como "muito louco e nervoso", ora como um homem "calado, que não falava com ninguém". Em anotações feitas em 21 folhas do bloco encontrado no local do crime, ele se refere ao pai e a Vicky com muito ódio ("Saibam que vocês eram meus reais inimigos"). Define a ex-mulher como "CÍNICA/FRIA/CALCULISTA (em letras maiúsculas)" e escreve: "Daqui por diante serás um nome maldito e jamais se levantarás. Foi a última vez que você fugiu. Você sempre foi duas faces. Uma eu amei e paguei o preço pela outra."

Nos textos, revela que tomou "dois ácidos (lisérgicos) e vários Valiums (tranquilizantes)" antes de disparar contra a tia e a filha. Numa tentativa de "intelectualizar" a brutalidade do duplo assassinato, ele cita [os filósofos alemães Friedrich] Nietzsche e [Arthur] Schopenhauer; trata o crime como uma fatalidade prevista pelas cartas do tarô e mostra uma personalidade egoica: "Será que vai aparecer no 'Fantástico'? Tudo é tão ridículo. Riam."

Até hoje, Vicky chora ao lembrar que não pôde ir ao enterro da filha. "Ela tinha 3 anos! Três!", repete, como se ainda tentasse entender o que aconteceu. No dia em que falou à coluna, no Mirante do Leblon, zona sul do Rio, sua voz saía estrangulada, aparentemente sem alcance para expressar a dor. Com os olhos fixos no mar, Vicky Schneider passou a contar tudo desde o início.

Na casa do Vidigal, onde mora até hoje - Paulo Sampaio/UOL - Paulo Sampaio/UOL
Na casa do Vidigal, onde mora até hoje
Imagem: Paulo Sampaio/UOL

Pai brasileiro, mãe inglesa

Filho do governador baiano (1938-1942) Landulfo Alves de Almeida, e de uma brasileira de origem alemã chamada Elsa Schneider, o pai de Vicky, Carlos Schneider ("ele não gostava do Alves de Almeida") completou sua formação em engenharia industrial no Tennessee (EUA). Lá, se casou com Pauline Briggs, inglesa divorciada de um ex-combatente norte-americano da Segunda Guerra Mundial. Pauline e o militar tiveram uma filha, Anita, que embarcou com a mãe para o Brasil. "Meu pai, minha mãe e minha irmã vieram de navio. Trouxeram a mudança e um Cadillac azul", diz Vicky. Com Carlos, Pauline teve três filhos; Elizabeth, Victoria e Robert. Apaixonado pela língua inglesa, o engenheiro inaugurou na serra fluminense um internato bilíngue chamado British School of Teresópolis. Muito exclusiva, a escola foi fechada menos de 10 anos depois, em 1967, quando Schneider descobriu que o professor que ele trouxe da Inglaterra para dirigi-la abusava dos alunos.

Durante um dos períodos de férias, Anita foi encontrada morta no banheiro de uma casa que a família alugou na cidade, vítima de um escapamento acidental de gás. Tinha 16 anos. Não bastasse a perda da filha, Pauline ainda sofria com violência doméstica. Enredada em um relacionamento abusivo com Carlos Schneider, a inglesa teve de lidar durante anos com agressões morais e físicas, perpetradas à vista dos filhos. Vicky acredita que o que viveu com César Bruni foi uma "repetição daquele modelo". "Era o que eu conhecia. Cresci assistindo àquela violência. Ficava todo mundo com medo, agarrado com a minha mãe no sofá, enquanto meu pai via TV. Eu, para não deixá-lo sozinho, ia lá fazer companhia a ele", diz.

No relacionamento com Cesar Bruni, além das agressões domésticas, Vicky era desrespeitada publicamente. Certa vez, antes de um desfile da grife carioca Company — uma das mais consumidas pelos adolescentes da época —, ele arrumou um jeito de entrar na cabine de projeção e exibir fotos que tinha feito de Vicky nua. Hoje, ela diz que jamais passaria pela sua cabeça processá-lo. "Eu tinha muito medo."

Pauline, hoje com 95 - Reprodução/Arquivo Pessoal - Reprodução/Arquivo Pessoal
Pauline, hoje com 95
Imagem: Reprodução/Arquivo Pessoal

O amigo Kleber

No regresso de Teresópolis, os irmãos Schneider voltaram a morar em um casarão adquirido por Carlos quando os filhos eram pequenos. Ficava em um terreno de 14 mil m² na região do Vidigal, próximo à Avenida Niemeyer. Eles eram vizinhos do Morro do Vidigal, uma comunidade de 12 mil habitantes onde Vicky e o irmão, Bob, na época adolescentes, conheceram um traficante de nome Kleber. Apaixonado por ela, ele a atraiu com a oferta graciosa de cocaína. "Kleber estirava carreiras imensas, a gente passou a ir na casa dele todo dia." Pouco depois, Vicky embarcava para fazer high school em Michigan, onde Elizabeth já estudava. Na mesma ocasião, Carlos sucumbiu a um tumor maligno no pescoço. "A famiíla desmoronou", lembra ela.

Por conta disso, a temporada de estudos de Vicky nos EUA foi interrompida em menos de seis meses. Ela lembra que seu sonho era ser "aeromoça da Braniff" (cia. aérea norte-americana, extinta em 1982), até que o joalheiro Antônio Bernardo e a estilista Sônia Belotti, da grife Groovy, a convidaram para desfilar. "Eu era tímida, não me achava bonita, nunca tinha pensado em ser modelo", lembra ela, que aos 16 anos já media 1,82 m. "Eu a conheci por intermédio do Daniel Azulay", lembra Bernardo, referindo-se ao apresentador de um programa infanto-educativo de TV, que Vicky estava namorando. Bernardo e Galotti viram nela um rosto incomum, promissor. Estavam certos. A carreira dela se estendeu por 17 anos, até os 33. Desfilou na passarela, posou para capas de revista e editoriais de moda.

Fim dos anos 1970: capa da revista Pop, que publicava matérias de comportamento - Reprodução/Revista Pop - Reprodução/Revista Pop
Fim dos anos 1970: capa da revista Pop, que publicava matérias de comportamento
Imagem: Reprodução/Revista Pop

Machismo ameaçado

No meio do caminho, apareceu Cesar Bruni. Os dois já se conheciam de vista quando ele parou o carro em frente a uma lanchonete em que Vicky se reunia com amigos, no Leblon, e a chamou para dar uma volta. Ela tinha por volta de 20 anos. "Ele não era lindo, mas me encantou pela inteligência muito acima da média. Morava com os pais em uma casa grande, no Alto Leblon, e me levou para lá. No dia seguinte, eu disse a uma amiga: 'Tenho a impressão de que vou ficar muito tempo com esse cara'." Ela não podia imaginar em que condições. Linda, famosa, assediada, Vicky representava uma ameaça permanente à honradez do namorado machista. Com o tempo, ele passou a persegui-la, desqualificá-la e agredi-la. "A princípio, eu não o traía. Mas, quanto mais ele me destratava, mais eu queria sair de perto. Só ficava com ele por medo. Aos poucos, passei a enxergar outros homens."

Em ensaio do fotógrafo Antônio Guerreiro - Antônio Guerreiro - Antônio Guerreiro
Em ensaio do fotógrafo Antônio Guerreiro
Imagem: Antônio Guerreiro

Quando Natasha foi assassinada pelo pai, Vicky estava saindo com um cinegrafista chamado Aldo Caneca, que morreu em um acidente de moto. Na volta de Recife, ela namorou rapidamente um usineiro pernambucano. "Ele era lindo, um doce de pessoa, mas eu não tinha estabilidade emocional para manter um relacionamento." Ela só voltou a se envolver emocionalmente alguns anos depois, aos 35. O amor surgiu na figura de um maranhense de 25 anos, "alto, moreno, de cabelos compridos e olhos verdes". "Ele passava, as pessoas diziam: 'Olha lá Jesus.'"

Enquanto esteve casada com ele, Vicky administrou o bar Zeppelin, instalado em uma das casas construídas no terreno da propriedade do Vidigal, onde ela mora até hoje. O maranhense era o relações-públicas do bar. Nesse período, outra tragédia familiar bagunçou de novo a vida da ex-modelo. Depois de uma temporada de desintoxicação na Clínica Silvestre, em Botafogo, Bob Schneider não resistiu à síndrome de abstinência da cocaína e se enforcou. "Sofri demais. A gente era muito, muito ligado."

Por sua vez, "Jesus" trocou Vicky pelo movimento Hare Krishna. A temporada de imersão religiosa foi relativamente curta, uma vez que o monge recém-convertido acabou se casando com uma integrante da comunidade. "Um dia, ele foi até o alojamento feminino e se enroscou com uma japa. Resultado: têm dois filhos e moram em Miguel Pereira [cidade serrana fluminense]." Vicky conta que levou seis anos para se recuperar da separação, e ainda hoje vive à base de antidepressivos.

Afirma que está "invicta" há mais de dez anos. Com uma honestidade pungente, ela diz que sente "falta de alguém". "Mas como eu passei por tanta loucura, gostaria que fosse uma pessoa gentil, leal, inteligente, bem-humorada." Digamos que a vida deve essa a ela.