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Paulo Sampaio

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Festa de 80 anos do 'avô dos boy de programa' reúne 70 em sauna gay

Darby Daniel, 80 anos: o show não terminou - Fernando Moraes/UOL
Darby Daniel, 80 anos: o show não terminou
Imagem: Fernando Moraes/UOL
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do TAB

22/05/2021 04h01

Em um dos movimentados domingos da "Jovem Guarda" na TV Record, em 1966, Darbi Daniel deu pela falta da meia de náilon que usava para fazer uma touca no cabelo crespo do cantor Roberto Carlos. "A gente precisava dar uma amassada para baixar o volume", explica. "Usei a meia da Wanderléa, foi o jeito."

Nenhuma sensação de pertencimento pode ser comparada ao desfrute de chamar Roberto Carlos de "Roberto" e ainda dispor de autonomia para alisar o cabelo do rei com a meia calça de Wanderléa."Ninguém entrava no camarim do Roberto. Só o Erasmo, a Wanderléa e eu", conta Darbi, que comemorou 80 anos no dia 12 de maio na Espaço Lagoa, sauna gay frequentada por garotos de programa em São Paulo. "Ele é o 'avô' dos boy", definiu um dos rapazes disponíveis ("Cobro R$ 200. Faço ativo, passivo e passo maquininha...").

No camarim de Roberto Carlos, Darbi Daniel estava cabeleireiro. Mas a função exercida por ele era o de menos, desde que tivesse oportunidade de travar contato com celebridades.

Wanderléa: "Eu me lembro bem do episódio da meia. Na época, a gente não dispunha da tecnologia de alisamento que existe hoje, e o Darbi resolvia o cabelo de todo mundo. Ele é uma figura querida. Ao longo dos anos, a gente viveu muita história engraçada. Uma vez, ele me chamou para ir ao show do Michael Jackson no Morumbi, mas não me disse que não tinha convite. Quando a gente chegou lá, no meio daquele tumulto da entrada, ele gritava: 'Dá licença, dá licença, é a Wanderléa com a diretoria da CBS! [gravadora]', e assim a gente foi passando, de catraca em catraca, até chegar muito perto do palco. Assistimos ao show no gargarejo. Minhas filhas, que eram pequenas e foram junto, amaram. Até hoje, elas abrem um sorrisão quando eu falo do Darbi."

Com Wanderlea e a filha dela, Jade - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Com Wanderlea e a filha dela, Jade
Imagem: Arquivo Pessoal

Garçom na pornochanchada

Em mais de 60 anos infiltrado em bastidores de teatro, cinema e TV, Darbi Daniel fez "de um tudo". Lançou atores transformistas no programa de Silvio Santos; arregimentou garotos de programa para "muita gente do meio artístico"; participou como figurante em filmes como "24 Horas de Sexo Ardente", de Zé do Caixão...

"O Darbi prestou grande serviço à cinematografia brasileira", afirma o rei da pornochanchada, David Cardoso, 78. "Pouca gente o conhecia, porque o trabalho dele era informal. De vez em quando indicava um ator, uma atriz, levava uma roupa para compor o figurino. E atuava também. Fez papel de garçom em 'Amadas e Violentadas', um dos meus filmes de maior sucesso. Ficou em cartaz no Cine Marabá por 8 semanas, o dobro do tempo de 'O Poderoso Chefão'."

São de Darbi Daniel também iniciativas como a produção do primeiro show de strip-tease de rapazes sarados, com direito à ereção no final, e o pioneiro Miss Bumbum, que atraiu uma multidão de gente para boate Banana Power, frequentada pela elite paulistana. As moças se apresentavam encapuzadas, de forma que o rosto correspondente ao "bumbum" ficava por conta da imaginação da audiência. Em ambos os casos, Darbi diz que poderia ter sido preso.

Salvo pelo coronel, na ditadura

Durante o regime militar, a censura classificava espetáculos daquele tipo como subversivos. Acontece que a relação de Darbi Daniel com a nudez não era "política". Em sua alienação de "bicha fechativa", cujo objetivo precípuo era "arrasar!", ele não media esforços para levar suas ideias a cabo.

"Chamei o coronel Erasmo Dias para participar do júri do concurso [Miss Bumbum]. Ele sempre me ajudava com a censura", lembra. Erasmo Dias foi secretário da Segurança Pública de São Paulo entre 1971 e 1979, e é lembrado como um dos nomes mais atuantes no período da repressão. Em outubro de 1975, após a morte do jornalista Vladimir Herzog no DOI-Codi de São Paulo, o coronel afirmou que "guerra é guerra": "Vamos almoçar essa gente antes que ela nos jante".

O nome de Erasmo Dias também foi evocado quando a polícia tentou impedir o avanço do Ford Galaxie com capota recortada que transportava Darbi vestido de Bela Adormecida, dentro de um caixão de vidro, na festa "Uma Noite na Broadway". Produzida sempre em agosto pela boate Medieval, que funcionou nas décadas de 1970 e 1980 na rua Augusta, a festa parava o trânsito. "Os guardas não queriam nos deixar passar, eu levantei do caixão e gritei o nome do coronel. Disse que era sobrinho dele, e eles imediatamente abriram caminho."

No ano seguinte, quem parou o trânsito foi o elefante que transportava a atriz Wilza Carla, famosa pela obesidade. "Todo mundo ia ao Medieval: do Chiquinho Scarpa ao [presidente Fernando] Collor."

Darby Daniel: faz-tudo da noite, criador do Miss Bumbum, comemorou os 80 anos em uma sauna gay de São Paulo - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Darby Daniel, aos 80 anos - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Estreia de Claudia Raia

Nascido em Campinas, filho de uma costureira e um policial, Darbi Daniel tinha uma irmã mais velha e cursou até a antiga 4ª série do ensino fundamental. Era menor de idade quando foi assistir pela primeira vez ao concurso de Miss Brasil no Maracanã. "Sempre tive loucura por concursos. Um amigo coroinha que transava com o monsenhor da catedral conseguiu duas batinas, a gente embarcou vestido de padre. Ninguém pediu nossos documentos."

Anos mais tarde, já colaborador de Silvio Santos, Darbi sugeriu a apresentação de uma bailarina de 7 anos, "filha da proprietária da maior academia de balé de Campinas, dona Odete Motta Raia". A ideia era colocar a menina dando aula para um grupo de senhoras da terceira idade. "Fui o primeiro a levar Claudia Raia para a TV", orgulha-se. "Ela não conta isso, diz que foi o Jô Soares. Tudo bem, eu respeito. Grande atriz!"

Procurada, a assessoria de Claudia Raia não se manifestou.

Em outro momento, atendendo ao pedido do diretor da gravadora Copacabana, Darbi foi atrás de um transformista sósia de Roberta Miranda, para acompanhá-la no lançamento de um LP, também no SBT. "Darbi é uma grande figura. Que saudade daquela época", diz Roberta, lembrando o ano de 1987. "O número com a minha sósia foi um sucesso." Roberta cantou a música "Vá com Deus!"

Angela Maria - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Angela Maria
Imagem: Arquivo Pessoal

Troféu Charlie Chaplin

A dada altura, para atrair atores "nível Globo" para os shows que produzia, Darbi Daniel instituiu o troféu Charlie Chaplin. Era entregue semanalmente na boate gay Nostromondo (1971-2014), tida como a mais antiga de São Paulo. Clássico trash, o lugar era pequeno, abafado e estava sempre abarrotado de gente. Em sua curadoria amalucada, Darbi misturava entre os laureados desde a cantora Perla até a atriz Glória Menezes, de Lady Zu a Eva Wilma. Todos iam.

Um dia, ele chamou para se apresentar antes do show de garotos pelados a dupla de palhaços Fuzarca e Torresmo. Os dois chegaram atrasados, e entraram direto em cena. "No meio da apresentação dos palhaços, surge no palco aquele bando de meninos nus, de pau duro. Imagina isso! Morri de vergonha. Empurrei todo mundo de volta para o camarim, enquanto os palhaços sorriam amarelo."

O assunto do "dote dos boy" reaparece a todo instante, como uma obsessão. Entre os famosos, ele afirma que os "maiores" que já viu foram o de Paulo César Grande (em filme) e Herson Capri (na peça "Lição de Aanatomia", encenada em 1975 e 1976). "Uma loucura", diz.

Nostromondo: convite para entrevista com Ney Matogrosso feita por transformista sósia de Hebe Camargo - Reprodução - Reprodução
Nostromondo: convite para entrevista com Ney Matogrosso feita por transformista sósia de Hebe Camargo
Imagem: Reprodução

Show, bingo e bolo de chocolate

Darbi Daniel comemorou seus 80 anos como lhe convinha. Teve show da drag Stephanie de Bourbon, que dublou "I'll Always Love You" cantada por Whitney Houston, bingo, bolo de chocolate e parabéns. Alguém pergunta se vai ter salgadinho. O animador, Carlota, responde: "Veio para comer ou para dar?"

Inaugurada em 1992, a Lagoa sobreviveu à pandemia da Aids e, ao que tudo indica, enfrenta à de covid-19 com a cara (sem máscara) e a coragem. De acordo com informações obtidas no caixa, cerca de 70 pessoas passaram por ali naquele dia. Na hora do bingo, 40 homens se apinhavam no bar de cerca de 60 m² do primeiro andar.

Imunizado contra o coronavírus, Darbi Daniel compareceu ao posto de saúde para tomar a vacina vestido de gueixa.

Com Stephanie de Bourbon, na hora do parabéns - Paulo Sampaio/UOL - Paulo Sampaio/UOL
Com Stephanie de Bourbon, na hora do parabéns
Imagem: Paulo Sampaio/UOL

Simony de Papai Noel

No sortido portfolio de Darbi Daniel, destacam-se as festas de Natal promovidas na Fragata, sauna concorrente da Lagoa, da qual ele também era frequentador contumaz. "Eu vestia os famosos de Papai Noel, para as pessoas adivinharem quem era. No primeiro ano foi a Simony. Depois, a Maria Alcina, que ficou louca com os 'boy', e no terceiro a Edith Veiga, que cantava maravilhosamente. O Emilio Santiago e o Cauby faziam show de graça, só pela amizade..."

Apesar do acesso a "astros do showbiz", Darbi Daniel diz que não ficou rico. "Tive oportunidade de ir com o [cantor norte-americano] Billy Paul para os Estados Unidos, mas fiquei com medo. Ele tinha um filho gay, me pediu para mostrar a cidade para o menino, e aí quis me levar para trabalhar na casa deles."

De gueixa, tomando a vacina contra a covid-19 - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
De gueixa, tomando a vacina contra a covid-19
Imagem: Arquivo Pessoal

Nu com a mão no bolso

Depois do show de Stephanie de Bourbon, Darbi aponta para um senhor enrolado em uma toalha e diz que, em 1987, aquele tinha sido o vencedor de um concurso que elegeu "a bunda mais bonita da noite". "Na época, a abertura da novela das 7 da Globo ["Brega & Chique"] mostrava o (modelo) Vinicius Manne nu [ao som da música 'Pelado', do grupo Ultraje a Rigor]. Só se falava naquilo. Aproveitei o gancho para promover o concurso."

O professor de matemática e feirante Eduardo Prata, 57, ganhador do troféu, lembra que participou do concurso no lugar de um candidato que não apareceu. "A gente só mostrava a bunda. O resto do corpo ficava coberto por uma cortina."

O repertório de histórias de Darbi é inesgotável. Ele conta que era "muito amigo do Cauby [Peixoto]" e certa vez acompanhou o cantor a Porto Alegre, em um show para animar o concurso interclubes "Rainha das Piscinas". "Enquanto o Cauby cantava, arranjei mais de dez garotos, tudo gente de família, e levei para o quarto do hotel. Quando ele chegou, tava todo mundo já quase pelado."

Diz que não pagou nada pelo serviço. "Naquela época não tinha isso. Os meninos iam porque achavam divertido."

Nos anos 1990, cercado de "boys": "Conheci muitos, por causa dos shows" - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Nos anos 1990, cercado de "boys": "Conheci muitos, por causa dos shows"
Imagem: Arquivo Pessoal

Bico fino com purpurina

Voz rouca, dicção hesitante, memória involuntária, Darbi Daniel reclama do barulho na sauna e diz que prefere dar entrevista no dia seguinte. Mora em um apartamento atulhado de recuerdos — fantasias, fotos, dedicatórias e até flyers dos shows de strip-tease dos 'boy', que anunciam eventos como "Prazeres em Bagdá"; "Banho de Champanhe" e "Feira Espanhola".

Diante daquele cenário, ele acha melhor marcar na casa de um amigo no Edifício Copan, na região central de São Paulo. Leva para a sessão de fotos vários paletós antigos, bordados com paetês, e sapatos de bico fino guarnecidos com purpurina colorida.

Fim de ano: banho de champanhe na sauna - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Fim de ano: banho de champanhe na sauna
Imagem: Arquivo Pessoal

Como os relatos se multiplicam em cascata, marco nova conversa com ele, e desta vez Darbi Daniel me recebe no amplo saguão de uma agência do banco Bradesco, em Santa Cecília. Amigo de todos os gerentes, ele os saúda animadamente. Sem que ninguém pergunte nada, aponta para o repórter e anuncia. "Ele é jornalista do UOL! Eu estou dando uma entrevista!"

Roberto que se cuide.