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Trombadas

As ausências de Josiane

Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
Christian Carvalho Cruz

Christian Carvalho Cruz nasceu no Jaçanã, em São Paulo. É jornalista, trabalhou nas revistas Placar, Quatro Rodas, Época Negócios, no portal Pelé.Net, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, entre outros. É autor do livro ?Entretanto foi Assim que Aconteceu? (ed. Arquipélago Editorial), criador do projeto Trombadas e militante da revista eletrônica "Grama - O Futebol Utópico".

Colunista do TAB

06/05/2021 04h01

Eu achava que não podia perder a esperança porque sou de Esperantina. É longe, moço. Longe. Piauí. Quando vou, desço do avião em Teresina e são mais três horas de ônibus. Não sei por que diacho deram esse nome pra cidade. Mas penso Esperantina, penso esperança. Esperança de quê? Bom, quando eu era pequena minha esperança era ser aeromoça, mas passou. Caminhoneira também não deu. Hoje tenho esperança de conseguir pagar as dívidas e de não ser pra minha filha uma mãe igual a minha foi pra mim. Estranho falar mãe. Eu chamo ela de ela, só.

Ela largou nós tudo criança. Eu tinha sete anos, minha irmã tinha 4 e meu irmão, onze. Nosso pai ficou mal. Se virou com a gente sozinho por um tanto de tempo antes de casar de novo. Mas afetou mais esse irmão mais velho. Até hoje ele chora, diz que quer morrer. Ficou depressivo, coitado. Acho que tem raiva dela. Eu? Tenho não. Como é que sente raiva de quem não conhece direito? É uma pessoa estranha pra mim. Nunca tive intimidade. De vez em nunca ela me chama no zap. "Oi, bom dia". Eu respondo "Bom dia". E a conversa morre nisso. Ela agora mora em Fortaleza. Casou com um fiscal da Receita aposentado.

O seu café é curto ou normal?

Aconteceu que ela traiu meu pai com um amigo dele e ele quis matar ela. Amigo que almoçava em nossa mesa. Eu tava na escola, no primeiro ano, e vieram me chamar: Josiane, corre que teu pai quer cortar tua mãe. Quando cheguei ainda vi ele com o facão na mão. E ela já tinha ido. Como se cresce depois de uma coisa dessa? Ôxe! Carregando, tem outro jeito? Eu e meus irmãos perguntamos por ela uns dias, o pai dizia que ela tava na rua, e assim a gente foi esquecendo.

Trombadas - Josiane Melo dos Santos, 32 - Christian Carvalho Cruz/UOL - Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Eu soube um pouco mais da história em 2018 só, quando voltei lá de férias. Ela resolveu aparecer também, porque minha tia, irmã dela, insistiu. Era a primeira vez que ela via os filhos em mais de 20 anos. Me deu um abraço assim, de pessoa conhecida, sabe? Fria, fria. Achei que ia chorar mas não derramou uma lágrima, a lazarenta. Fiquei em choque: como é que a pessoa passa toda uma vida sem ver os filhos e não tem uma reação de emoção? Entregou uns presentinhos e foi embora de novo. O meu eu nem quis, deixei lá com a madrinha. Era uma blusa que não tinha nada a ver comigo. Moço, já viu mãe que não conhece o gosto da filha? Minha madrasta disse que ela apareceu foi pra mostrar o carrão só. Sei o modelo não, mas era grande o bicho. Fiquei até pensando em como ela faz pra dirigir aquilo, porque a mulher é baixinha assim desse meu tamanho.

Eu e minha irmã resolvemos pensar que ela tem problema de cabeça. Que a razão dela ficou avariada depois que nosso pai tentou matar ela. É nosso jeito pra não guardar ressentimento. Nesse dia que ela apareceu, a conversa que eu esperava ter não teve. O que eu queria falar? Eu queria fazer perguntas só:

Por que você sumiu?

Por que nunca telefonou?

É verdade que você não gostava de mim porque eu era a mais moreninha dos três?

Meu pai é negro. Ela é branca. Sim, moço, faz sentido ela não gostar da minha cor. As tias e as vizinhas contam que ela casou não foi por vontade. Que tinha 13 anos e meu pai carregou ela. Levou da escola pra casa e não devolveu mais. Aquelas coisas do tempo antigo. Meu pai era 10 anos mais velho de que ela. Meu avô ainda foi buscar, mas o pai não entregou. Se acontece isso em Esperantina ainda? Ô se acontece. Minha irmã mesmo casou com 12 e teve o primeiro filho com 13. Mas pra ela deu certo, ainda tá casada com o mesmo homem.

Trombadas - Josiane Melo dos Santos, 32 - Christian Carvalho Cruz/UOL - Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Se assuste não, moço. Esperantina é assim. Tome seu café senão esfria.

Só que aí eu penso: se eu voltar pra lá vou ter que trancar minha filha nu'a jaula. Não vai sair de perto de mim. Por isso às vezes acho melhor a gente ficar por aqui, pra ela poder estudar e ter a vida dela. Já construímos nossa casa, temos um carrinho... Mas estou parcelando um terreno em Esperantina. Vamos ver.

Mas, olha, moço, quem é abandonado pela mãe nunca mais se afasta da dor em definitivo. Não tem um dia em que eu não penso nisso. Na gravidez foi pior. Passei os noves meses aperreada: e se eu for uma mãe desse jeito igual a minha, desapegada? E se eu também sentir vontade de sumir? Vai saber se essas coisas tão no sangue da gente. Ou se vêm com o sobrenome. Porque eu carrego o sobrenome dela. Sou Josiane Melo dos Santos. O Santos é do pai e o Melo é dela. Quando eu tive minha bebê, me mandaram embora do hospital, eu entrei no carro, e pensei: E agora, o que eu faço com uma criança em casa? Mas foi só olhar pro rostinho dela no meu colo que me peito encheu de sentimento.

Tá fazendo nove anos que tô pra cá pra esses lado de São Paulo, Osasco, Cotia, Barueri. Eu tinha 23 quando cheguei e agora tenho 32. Três dias de viagem de ônibus. Meu pai me deu R$ 50, que acabaram no almoço da primeira parada, em Teresina. Depois, o ônibus encostava e eu nem descia. Os passageiros perguntavam "vai jantar, não"? "Vou não, tô sem fome". Mas eles percebiam e me traziam salgadinho, bolacha e refrigerante. Quando desci na rodoviária de São Paulo minha irmã correu pra me segurar, que eu ia cair de tão fraca. Agora só vou e volto pro Piauí de avião, Deus me livre.

Bom, somando e subtraindo tudo, não sou otimista nem pessimista. Acho que minha vida é isso mesmo. Recentemente deixei passar uma oportunidade melhor de trabalho. Era só de segunda a sexta e sábado, se tivesse, era com hora extra de 100%. Mas recusei, não quis deixar meu patrão na mão. Sempre me ajudou tanto. Meu celular foi até ele que me deu. Ele tá tentando levantar o café depois desses abre e fecha da quarentena. E se eu aprendi alguma coisa nessa vida foi não abandonar os outros quando precisam da gente.

Como é que tá seu café, moço? Quer mais um?

Trombadas - Josiane Melo dos Santos, 32 - Christian Carvalho Cruz/UOL - Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Josiane Melo dos Santos, 32 anos

Histórias célebres de gente anônima: este é o espírito do projeto Trombadas. Nasceu sem destino, intenções, interesses ou desejos, nada além de conhecer e ouvir as pessoas que encontro nas ruas. Então eu saio, vou lá, paro — é fundamental parar — e ouço. Depois conto. No fim, é um mergulho. E um reencontro.