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Trombadas

As Monalisas de Carlos

Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Christian Carvalho Cruz

Christian Carvalho Cruz nasceu no Jaçanã, em São Paulo. É jornalista, trabalhou nas revistas Placar, Quatro Rodas, Época Negócios, no portal Pelé.Net, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, entre outros. É autor do livro ?Entretanto foi Assim que Aconteceu? (ed. Arquipélago Editorial), criador do projeto Trombadas e militante da revista eletrônica "Grama - O Futebol Utópico".

Colunista do TAB

16/12/2021 04h01

Tá bom. Sim, tudo bem, vamos começar com esse clichê, modo de dizer. Clichê que fala, né? Se uma imagem vale mais do que mil palavras. Pra ser sincero eu nunca quis perder tempo pensando nisso. Acho que levo mais jeito com as coisas práticas. Não sou de filosofar, tentar descobrir o sentido no que a gente não vê. Mas tudo bem, podemos fazer as contas, porque de conta eu sou bom. Eu achava que ia ser matemático, economista, engenheiro. Mas nem tive escolha: aos 14 anos meu pai me mandou sair do nosso sítio no interior e vir morar e trabalhar com um compadre fotógrafo aqui em São Paulo. Foi assim que virei fotógrafo. Mas vamos fazer as contas. Você que escreve, me diz: quanto tá valendo um texto hoje? Ixi! E você vive de quê? Rapaz! Eu achando que a fotografia pagava mal.

Bom, eu cobro R$ 50 por um retrato três por quatro. O cliente leva oito fotos: quatro sorrindo, quatro sério. Se eu estiver com tempo, imprimo também uma cópia um pouco maior e dou de brinde. Aí tem a foto pra currículo de comissários de voo, que é R$ 130, porque exige bem mais. Ah tá, agora entendi. Foi isso que chamou sua atenção no meu cartão? Exato, sou especializado nesse tipo de fotografia. É que o pessoal que se candidata a um emprego em companhia aérea, vagas de comissário e comissária, precisa mandar retratos na última fase do processo seletivo. São essas fotos que eu faço. Foquei nesse segmento. Por isso mandei escrever no cartão de visita pra facilitar: "especializado em fotos para currículo de comissários de voo".

Começou um tempão atrás, quando minha irmã estava estudando pra ser comissária e eu fiz os retratos dela pro processo de seleção. O pessoal da escola gostou e assim entrei no ramo. Tem uns 15 anos que só faço isso. Não, não. Minha irmã nem chegou a ser aeromoça. Hoje ela mora na Austrália com o marido, eles trabalham com faxina lá, não querem saber de voltar. Mas eu fiquei na aviação, vamos dizer. Ainda aparece gente querendo três por quatro pra documento e eu atendo. Nem sei como me acham, porque o estúdio é fechado, eu fico trancado o dia todo. É mais morador do bairro, aqui é Planalto Paulista, muito sossegado, um indica pro outro e às vezes a campainha toca. O que não faço mais é foto de casamento, formatura, batizado, nem criança em escola, graças a deus, porque a coisa mais difícil que tem é fotografar criança.

TAB Trombadas - Carlos Mizumoto - Christian Carvalho Cruz/UOL - Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Eu trabalho pra várias companhias aéreas, escolas de formação de comissário e principalmente com a Emirates, que é enorme e muito, muito exigente. Outro dia o rapaz de uma empresa que cuida do processo seletivo da Emirates me contou que, dos mil comissários que eles aprovaram, uns 900 fui eu que fotografei. Bastante coisa, né? Fico orgulhoso, porque, como eu disse, a Emirates é muito exigente. Olham tudo, cada detalhe das fotografias. E, se não estiver bom, mandam refazer quantas vezes forem necessárias. Certa ocasião eu fiz os retratos de uma candidata que tinha, como posso dizer?, tinha um seio um pouquinho mais avantajado que o outro. Aí eu corrigi no PhotoShop, deixei os seios simétricos. Mas, nesse processo, um pedaço da blusa aqui embaixo ficou deslocado, uma coisa mínima, imperceptível. O pessoal da Emirates notou e mandou consertar. Quer dizer: os seios passaram, a blusa não. Eles reparam em tudo.

Em outra ocasião, a candidata era uma moça nissei. O retrato dela ia e voltava, ia e voltava. Eles diziam "Carlos, não ficou bom, os olhos tão muito fechados quando ela sorri". Eu pensava: caramba, como é que eu vou abrir os olhos de uma nissei?! Até que entendi o que eles queriam. Pedi pra candidata refazer a maquiagem. "Tira o delineador e usa só sombra." Batata! Quando olhei pelo visor da câmera, o resultado era surpreendente. Os olhos dela tinham crescido. Refizemos mais uma vez a foto e aí aprovaram. Ah, sim, eu entendo de maquiagem, de cabelo, de roupa, de escoliose. Porque na fotografia o que vale é a simetria. Não sei se você sabe, mas nós não somos simétricos. Ninguém tem os olhos do mesmo tamanho, as orelhas na mesma altura, o sorriso bem equilibrado. Todo mundo é meio torto. Então, nos retratos eu faço uma harmonização. Tipo o Ivo Pitanguy, só em vez de bisturi eu uso a câmera e o computador.

Vem aqui dar uma olhadinha, faz favor. Essa pessoa aqui, por exemplo. Ela estava usando esse casaquinho de couro um tanto apertado pro porte dela. Ela tem o pescoço meio grosso também, e o casaco marcava muito. Outra coisa: ao sorrir os lábios dela puxavam mais pro lado direito. Tá vendo? Ó, essa é a foto original. Viu? Como ela não quis se pentear, eu recortei e adicionei um pouco de cabelo, pra dar mais volume na cabeça e o conjunto todo ficar mais agradável. Essa a foto original, aqui o resultado final. Original, final. Original, final. Percebeu? A harmonização é bem sutil, não pode mudar a pessoa, tem só que melhorar ela. De modo que só ela saiba onde foi harmonizado. Ela e eu, no caso. Ah, são quase 50 anos nesse serviço, né, já tenho o olho treinado. De conversar com você eu já sei onde teria que usar o PhotoShop. Aí você levaria a foto pra casa, mostraria pra sua esposa e ela pensaria assim: "Sim, é ele, só tá mais bem arrumado". Esse é o segredo. A diferença entre fotografar e tirar foto.

TAB Trombadas - Carlos Mizumoto - Christian Carvalho Cruz/UOL - Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Mas não inventei nada disso não. O conceito básico da fotografia é a regra dos terços, já ouviu falar? Serve pra qualquer foto. Eu uso até nos três por quatro. É mais parametrização, mais matemática do que arte. Basicamente, você divide a imagem em três na horizontal e três na vertical. Traça linhas imaginárias. Num retrato, os olhos devem ficar sobre a primeira linha e alinhados com o horizonte, assim como os ombros. Nos pontos em que as linhas imaginárias se cruzam, as horizontais com verticais, a gente tem os chamados pontos de ouro. São os pontos focais mais relevantes, onde o espectador presta mais atenção. É complexo, mas fica automático quando a gente pega prática.

Tem estudos que sugerem que a gente adquire essa maneira de enxergar antes mesmo da concepção, sabia? Tá no DNA. Outras pesquisas mostram que até o Da Vinci aplicava a regra dos terços nas telas dele. Faz todo o sentido. Da minha parte, desde que li sobre isso eu imagino que meus clientes são a Monalisa. Sentou ali no banquinho pra fazer retrato, eu olho pelo visor da câmera e só enxergo Monalisa. Vou clicando, tchum, tchum, tchum, pra mim tudo é Monalisa. A cena precisa ser harmoniosa, equilibrada, agradável de se olhar. O mais difícil é conseguir um sorriso espontâneo e leve como o da Monalisa. Esse negócio de "olha o passarinho" ou "diga giz" não funciona. Fica tudo ruim. Por isso eu desenvolvi meu método. Pros rapazes que eu fotografo eu peço pra eles falarem "cachaça". Sei lá, é uma palavra engraçada, aí eles sorriem. Pras moças, eu digo "pensa naquilo". E antes de eu completar, dizer "isso, naquilo, voar, conhecer o mundo, trabalhar de comissária", elas já estão sorrindo.

Curso? Não fiz não. Uma vez assisti a uma palestra com o J. R. Duran e ele passou umas dicas boas. Tipo ir disparando o flash, disparando, disparando, uns 300 disparos sem fotografia, só o flash, pra criar o clima, quebrar o gelo e aí encontrar a melhor pose, a melhor cena. Não, não, imagina, foto de gente pelada eu nunca fiz. Aliás, tive um problema sério com isso uma vez. Foi um susto danado. Baita dor de cabeça.

O que aconteceu foi que tempos atrás, quando o estúdio era aberto pra rua ainda, eu tinha um empregado chamado Gaúcho. Boa pinta, bonitão, meio malandro. As meninas saíam do colégio ali na rua de cima, passavam e ficavam paquerando ele. Um belo dia eu tô aqui sozinho e entra um senhor furioso, gritando, dizendo que ia na polícia. Ele jogou um envelope sobre o balcão, eu peguei pra ver. Eram fotos de umas garotas de biquíni feitas aqui no estúdio. Eu olhava, olhava, e aquele homem gritando, a filha dele estava nas fotos, eu olhava e não entendia nada. "Caramba, não tô lembrado de ter feito essas fotos." Até que caiu a ficha. Filho da mãe! O Gaúcho tinha feito as fotos. Até esclarecer tudo eu passei um aperto que nem gosto de lembrar. Tá louco! Tive medo mesmo de ser preso. Meu pai não era mais vivo, mas era nele que eu pensava. Família de japonês, né? Eu sou o primogênito. E primogênito não pode dar desgosto pro pai.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Nós somos de Palmeira do Oeste, pros lados de São José do Rio Preto. Pai nascido no Japão, mãe no Brasil mas filha de japoneses, e seis filhos: eu, o mais velho, e cinco irmãs. Como eu te falei, quando eu fiz 14 anos vim pra São Paulo trabalhar com um compadre que tinha um estúdio de fotografia aqui. Meu pai nunca me perguntou se eu queria vir, eu também nunca achei que podia escolher. Só lembro que um dia nós dois entramos num ônibus na rodoviária, viemos pra capital, ele me deixou com o compadre, que morava na Cidade Dutra, pra frente de Interlagos, e foi embora. Era tudo novo e assustador pra mim, começando pelo frio, que eu não conhecia.

Nossa criação foi muito rígida, aquela coisa de "não se mexe no que é dos outros", e, nesse conceito de vida, eu passava meus dias morrendo de vontade de comer um ovo frito. Lá na casa do compadre, quando abriam a geladeira, eu via que tinha, mas não pedia de jeito nenhum. Eu achava que devia comer o que ele e a comadre punham na mesa. Tinha aquela sensação de que eles já estavam fazendo muito por mim, por me abrigar e me dar um emprego, então eu não pedia nada. Essa situação resume a minha juventude, né? Foi o tempo em que eu sofri por não comer um ovo.

Todo dia eu chorava escondido, com vontade de ir embora. Mas e o medo de me perder na cidade grande, dar mais trabalho pro compadre e envergonhar meu pai? Bem que eu queria largar tudo e voltar pro sítio, mas não sabia nem por onde começar. E você junta aí a impossibilidade de fracassar que pesa sobre todo primogênito de família japonesa, né?, aí já viu. Não pode. Então eu engoli o choro e fiquei. Passei uns dez anos sem notícia nenhuma dos meus pais e das minhas irmãs, porque não tinha telefone e a gente não era de escrever carta. Quando fiz 24 anos, as coisas no sítio ficaram ruins e aí eles venderam lá e vieram refazer a vida em São Paulo. Eu já tinha me tornado fotógrafo sem me dar conta. E tô nisso até hoje.

Fotos que eu ainda quero fazer? Tem duas. Uma pra massagear o ego, assim que fala? Isso, um clichê também. Eu gostaria de fazer um retrato que atravessasse a história. Como aquele do Churchill feito por um fotógrafo chamado Yousuf Karsh. O poder daquela foto, já percebeu? Você pensa no Winston Churchill, ou lê o nome dele num livro, num jornal, numa revista, e a imagem que te vem à cabeça é aquele retrato, nenhum outro. Então eu queria fazer uma foto como aquela, que definisse a pessoa pra sempre. Só não sei ainda quem seria a Monalisa.

A segunda foto dá pra ver da janela do andar de cima, sobe aqui. Olha. Esse terreno aí é meu. Estou construindo seis quitinetes. É o meu saldo da pandemia. Com o estúdio fechado, sem ter o que fazer, comecei a procurar coisas na internet e descobri o movimento quitineteiro. É um universo gigante, com canais no YouTube, grupos no Telegram, muita, muita gente. E dá dinheiro, viu. Meu plano é alugar as minhas quitinetes pros comissários de voo, já que estamos perto do aeroporto.

Fiz todas as contas: em um ano eu pago o investimento que realizei com dinheiro emprestado da minha mãe e depois é só lucro. Vai ser a minha aposentadoria. Aí a fotografia fica como hobby. Pra começar eu vou dobrar a tabela de preços. Então vou fazer só o que eu quero, o que tiver vontade, porque vontade mesmo eu tenho é de ir pescar, e cobrar como o Pitanguy de verdade. Olha, vai por mim: alugar quitinete é o futuro. Você não quer dar uma olhada nesse movimento? Eu estudei muito o tema, te passo todas as manhas. Garanto que vai valer mais do que mil palavras.

Carlos Mizumoto, 61 anos

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Pessoal, o Trombadas vai dar uma paradinha de fim de ano pra tomar fôlego. Obrigado por vocês, no meio de tanta correria, terem parado pra ler, "ouvir" e comentar as histórias do projeto. A companhia tem sido incrível até aqui. Obrigado também aos novos amigos e amigas que pararam pra conversar com um desconhecido, ouvir suas perguntas e contar um pouco de suas vidas. Ouvi-las é a maior riqueza. Bom fim de ano e que o próximo seja mais gentil com a gente. A gente se tromba em janeiro.

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Histórias célebres de gente anônima: este é o espírito do projeto Trombadas. Nasceu sem destino, intenções, interesses ou desejos, nada além de conhecer e ouvir as pessoas que encontro nas ruas. Então eu saio, vou lá, paro — é fundamental parar — e ouço. Depois conto. No fim, é um mergulho. E um reencontro.