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Trombadas

A tempestade infinita de Marta

Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Christian Carvalho Cruz

Christian Carvalho Cruz nasceu no Jaçanã, em São Paulo. É jornalista, trabalhou nas revistas Placar, Quatro Rodas, Época Negócios, no portal Pelé.Net, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, entre outros. É autor do livro ?Entretanto foi Assim que Aconteceu? (ed. Arquipélago Editorial), criador do projeto Trombadas e militante da revista eletrônica "Grama - O Futebol Utópico".

Colunista do TAB

10/02/2022 04h01

Hein? O que foi, meu filho? Desculpa, tô distraída. O que você falou? Ah é, pensativa. Sim. Tô pensando em como eu tenho o dedo podre. Tô boa, não. Tem horas que tô. Agora não tô. E quando me sinto assim eu tomo umas latinhas pra aguentar. É que tá fazendo dois anos que perdi meu filho e meu namorado. Intervalo de três meses de um pro outro. Cê vê que coisa? Aí parto disso e já penso na minha vida toda. Tanta porrada, tanto sofrimento, que eu acho que só posso ter nascido com o dedo podre, não é possível. Tudo em que eu encosto dá merda. Por que será? Hein? Cruel? É, acho que você tem razão. Tenho culpa de nada, não. Só que fico tentando entender por que comigo. Deus olhou lá de cima e no meio de tantas formiguinhas apontou pra mim? "Essa aqui. Essa aqui vai pagar o pato." Poxa. Vou te falar, viu.

Bom, meu filho foi uma das primeiras vítimas da covid, eu acho. No 20 de janeiro de 2020 começou a passar mal. Falta de ar, febre, tosse. Internou no 21. Isolou. O médico veio dizer que não podia receber visita. Entubou no 23. Pulmão tomado, rim parou, e ele não aguentou, pronto. Tudo muito rápido. Morreu no 27. Ainda não se falava de covid, ninguém disse nada, a gente achou que era pneumonia. Uma tristeza, viu. Tão novo, 43 anos, forte, inteligente, falava línguas, viajou o mundo fazendo cursos. Trabalhava na Petrobras. Era o meu mais velho, tenho mais três meninas. Aí na sequência a outra bomba: o Dorival, meu namorado. Rolou da escada na casa dele, bateu a cabeça e fraturou o crânio. Fazia quatro dias que estava lá, sozinho, quando encontraram ele, coitado. Não sei, pode ser, ele gostava de uma latinha também.

Muita coisa, cê acha? Tem bem mais. Minha filha diz que se eu cantasse podia ser a Elza Soares, de tanto que a vida me bateu. Em 1996 eu tive câncer de mama e só consegui operar e fazer o tratamento três anos depois, tamanha a fila no SUS. Toda noite, quando eu deitava pra dormir, o seio esquerdo pareciam dois: um ele mesmo, o outro o caroço. Escapei por pouco. Aí tem uma das filhas, a mais doidinha, que tá sumida desde o Natal. Não é a primeira vez. Ela tem problema com droga, infelizmente. Mas, olha, ela teve tudo o que os irmãos tiveram. Não criei diferente. Só que pegou esse caminho aí e já viu: é complicado. Preciso até ligar pra uma amiga dela que parece que sabe onde ela está. Vamos ver.

Eu nasci no sul Bahia. Itapetinga. A minha avó era a dona do bataclã lá. E minha mãe, funcionária, por assim dizer. Cê entendeu, né?, não preciso ficar explicando. Meu pai conheceu ela nesse lugar. Era casado, funcionário público. Aí se apaixonou, tirou ela de lá e levou pra área mais nobre da cidade. Foi um escândalo. Gostava de uma farra, viu? Teve que fugir pra São Paulo por causa de dívida de jogo, senão morria. Cheguei pequetica e sempre vivi por aqui, Vila Maria, Vila Guilherme, zona norte.

TAB Trombadas - Marta Maria Nunes Bellas - Christian Carvalho Cruz/UOL - Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

É duro, meu filho. Mas se você quer ouvir eu vou falando. Me casei aos 20 anos, fiquei dez anos casada, a maior parte desse tempo cuidando dele, que tinha esquizofrenia. Era um homem carente, triste. Mas farrista também. Trabalhava na Vasp, de noite. No dia em que ele chegou manchado de batom e eu falei "se você pode farrear, eu também posso", me arrumei e fui pro barzinho, ele se jogou da janela do sobrado. Não morreu, só quebrou os dentes. Ah, eu rio, né?, fazer o quê? Mas aí o casamento acabou. Fiquei uns três anos sozinha, quer dizer, um casinho aqui, outro ali, até que conheci o demônio, com quem passei 22 anos. Sabe aquele ditado de abraçar o capeta? Aconteceu comigo. Arghhh, deu até arrepio, ói só. Credo! Deixa eu te dizer uma coisa: tudo o que a gente conhece no bar, na padaria, no botequim, não presta. Homem a gente tem que conhecer na igreja, porque, tirando latinha e tira-gosto, se tá no bar boa coisa não é.

Esse demônio também gostava da latinha. Mas não era por isso que me batia. Era porque era ruim mesmo. Tem gente que é ruim. Nasce ruim e não tem conserto. No começo foi um mar de rosas. Jantar em restaurante, viagem, festas, noitadas em motéis. Me tratava assim, ó. Ele dirigia um Puma, era bonitão, boa conversa e era dono de uma oficina mecânica. Ganhava muito e gastava muito. Era uma vida deslumbrante. Me deixei envolver. Só que as mães pressentem, sabe como é. A minha, quando eu disse que ia juntar com ele, disse: "Então deixa as crianças aqui que eu cuido. Vai só você". Eu fui. Eu queria refazer a vida, ter alguém com quem dividir o dia, alguém pra me abraçar, cuidar de mim. Minha mãe sacou que não era bem isso que eu ia ter, mas eu não. Como a gente ia morar tudo perto, eu deixei as crianças com ela. E foi melhor mesmo, porque o pouco que eles viram e souberam do inferno foi demais pra qualquer cabeça.

A primeira vez que ele me pegou eu tinha voltado do açougue. Fui buscar a mistura pro almoço e não estava em casa quando o pai dele chegou. O véio reclamou que teve que ficar esperando na calçada e ele veio pra cima de mim. Caí na besteira de responder que o pai era dele, ele tinha a chave, que viesse abrir a porta se estava com tanta pressa. Pra quê? Me bateu com o pai ali do lado, sem dar um pio. A nossa filha devia estar com uns 5 anos. E foi por ela que fiquei tanto tempo. Não só por ela, por tudo, né? Eu apontava jogo de bicho e ele tinha mandado eu parar de trabalhar, então não tinha dinheiro nenhum. Várias vezes fugi pra casa dos outros, mas não conseguia sustentar a minha filha, não conseguia me virar sozinha e acabava voltando. É muito difícil sair dessa teia de aranha, meu filho, você não tem ideia. A gente lá enrolada naquilo e a caranguejeira vindo, vindo. Medo de morrer, medo de fugir e perder a guarda dos filhos por abandono, medo de acabar vivendo na rua. Então a gente volta e tenta achar alguma esperança de que não vai acontecer mais, que aquela foi a última vez, que ele tava nervoso, ou tinha bebido, que as coisas vão melhorar.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Nunca melhora, só piora. A gente vira refém. Uma época ele comprou um caminhão, pegava frete pra descarregar no Porto de Paranaguá e me obrigava a ir com ele. Ele dirigia feito um louco naquela serra e eu com a menina no colo. Sentia pavor, suava frio. Ele fazia de propósito. Eu dizia que não queria ir, mas ele me obrigava. Era uma prisioneira dentro daquele caminhão e na vida ao lado dele. Mas sabe o que dava mais desespero? Não ter um irmão mais velho pra me proteger. Ou um filho moço que pudesse segurar ele. Porque nem a polícia segurava. Eu denunciei várias vezes. A polícia vinha e ele se atracava com os guardas também. Nada, nada, nada. Nunca acontecia nada. A gente ia pra delegacia, lá diziam pra gente voltar pra casa e tentar se entender. Teve uma vez que ele veio pra me bater saindo da delegacia, nem esperou chegar em casa. A minha sorte foi que passou um motoqueiro, viu ele puxando meu cabelo, desceu da moto e enfrentou ele. Depois me acompanhou até a delegacia de volta.

Eu falei pra você que é uma questão de ruindade. Homem ruim, desequilibrado, diabólico. Acha que mulher tem que ser empregada. Marta, põe o almoço. Marta, pega uma toalha que vou tomar banho. Marta, vem pra cama. Você acha que eu queria ir depois de ser agredida? Mas ai se eu não fosse. Outra vez, eu nem lembro o motivo, foram tantos, qualquer coisa era motivo, ele me pegou no posto de gasolina ali da esquina. Eu tinha ido buscar meu neto na escola e ele me deu um soco na frente de todo mundo. Quando cheguei em casa, a minha filha doidinha falou "Pode deixar, mãe, que ele vai ter o dele e vai ser hoje". Ela tem lá as amizades dela, né?, chamou um grandalhão na boca e foram atrás do demônio. Encontraram ele comendo um churrasquinho, todo folgadão, na frente do bar. Mas o grandalhão deu tanto nele. Tanto. Ele caiu com a cabeça na sarjeta e levou murro, pontapé, ficou todo estourado. A polícia veio, perguntou se ele queria dar queixa, ele disse que não. Aí sabe como acabou o dia? O grandalhão se pirulitou e ele, todo ensanguentado, e minha filha sentaram na calçada pra tomar uma latinha e fumar um cigarro. Foi isso.

Vinte e dois anos disso. Melhorou quando finalmente eu consegui sair de casa. Minha filha com ele completou 18 anos e eu tomei coragem. Fui pra casa da minha mãe e meu filho, esse que faleceu, botou a Lei Maria da Penha no cangote do capeta. Ele foi preso e tudo. Ficou só três meses em Franco da Rocha. E mesmo assim não desistia. Quando saiu da cana continuou vindo atrás de mim, me ameaçando, mandando eu voltar pra casa. Foi na minha mãe e quebrou janela, quebrou portão. Mas aí meu filho já era moço e deu uns catufes nele também.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

O inferno só parou de arder quando ele teve um AVC. Um dia o telefone fixo tocou e, como não tem bina, eu atendi. Era ele. Tava com a fala enrolada, pedindo ajuda. Liguei pra minha outra filha e fomos lá na casa dele. Olha, meu filho, te confesso que senti pena de ver ele no chão, se contorcendo. Chamei o Samu e avisei a mãe dele. Não quis mais saber. Você acredita que a véia achou que eu fosse cuidar dele? Eu falei "Não, senhora. Já carreguei demais esse pacote. E até hoje sinto dores que nem sei se um dia vão sarar. Pesado demais. O pacote não é mais meu, a senhora que se vire". Ah, falei mesmo. Chega. Ele continuou vindo atrás de mim, sete-peles desgraçado. Mas aí ele tava de muleta, todo torto, não podia me alcançar. Eu só pensava no castigo dele: tá vendo?, em vez de levar embora, deus marca os trastes pra não perder de vista e deixa eles aí, pagando. Tô nem aí.

Agora tô procurando ajeitar a vida de novo. Moro com a minha outra filha, às vezes vou pra casa da minha neta no interior, mas queria um canto meu. Me aposentei, sinto falta de fazer alguma coisa. Não sei. Eu gosto de conversar, ouvir as histórias dos outros, quem sabe eu arrumo um serviço assim igual o seu, né? Pela minha filha e minha neta eu ficaria de babá dos netos e dos bisnetos. Eu, hein? Sai de mim. Até parece. Eu quero passear, sair, namorar. Eu saio muito sozinha. Barzinho, né? As amigas às vezes aparecem, mas prefiro sozinha, pra não ter testemunha. Ah, eu quero dar risada. Eu acho que a vida me deve muitas risadas, sabe? Tenho um crédito impagável, de tanto que eu já chorei. Mas não sei não.

Às vezes eu acho que queria ser igual essa minha filha: só conheceu um homem, casou com ele e tá com a vida calma. Quando a gente vive demais fica com muita coisa pra se arrepender e pra sentir saudade. Não é bom, não. Eu fico pensando assim: "Que raio mais falta cair na minha cabeça?". Porque, vou te falar, não foi uma garoazinha dessas que molham até os ossos da gente. Eu passei foi a vida inteira no meio de uma tempestade infinita, isso sim. O que te contei não é nem a metade. Mas tudo bem, vamos indo, ensopada mesmo. Pelo menos saí do inferno. Agora tô no céu. Se bem que meu céu vai ser sempre cinzento, mas é céu. Será que essa chuva nunca vai passar, hein? Troço chato. Mas agora chega, que já falei muito. Sua vez, conta de você. Desembucha. Vai, meu filho, tira essa máscara e toma uma latinha comigo.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Marta Maria Nunes Bellas, 67 anos

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Histórias célebres de gente anônima: este é o espírito do projeto Trombadas. Nasceu sem destino, intenções, interesses ou desejos, nada além de conhecer e ouvir as pessoas que encontro nas ruas. Então eu saio, vou lá, paro -- é fundamental parar -- e escuto. Depois conto. No fim, é um mergulho. E um reencontro.