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Trombadas

A volta da vitória de Diana

Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Christian Carvalho Cruz

Christian Carvalho Cruz nasceu no Jaçanã, em São Paulo. É jornalista, trabalhou nas revistas Placar, Quatro Rodas, Época Negócios, no portal Pelé.Net, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, entre outros. É autor do livro ?Entretanto foi Assim que Aconteceu? (ed. Arquipélago Editorial), criador do projeto Trombadas e militante da revista eletrônica "Grama - O Futebol Utópico".

Colunista do TAB

05/05/2022 04h01

Menino! Jura?! Então eu vou querer começar pelo começo. Você vai gravar ou tomar nota? Tá bom. Meu nome é Diana Pequeno. Diana no dia a dia, Pequeno no palco, que eu tô na noite e faço show desde os meus quinze anos de idade. Tenho dois CDs e um DVD. Já dormi na rua, passei fome, puxei cadeia, vivo com HIV, sou analfabeta, costureira, não bebo, fui puta, cafetina, fui no programa do Bolinha, já fui católica, da macumba, hoje sou do senhor Jesus, já fui rica, já fui miserável, até menino eu já fui. Agora sou travesti idosa aposentada. Diana Pequeno, a sobrevivente, ao seu dispor. Se você quiser eu te conto tudinho em detalhes. Quer?

Feliz eu sou sim. Mas não do tanto que eu fui em Milano. Ai, quanto mi manchi, Milano. Isso quer dizer "Ai, que saudade, Milão". Em que ano? Vamos pular as datas, porque eu não guardo nenhuma, me atrapalho inteira com isso. Sou tão ruim nos quandos. Mas boa nos comos. Vou te contar, ouve. Na minha primeira semana em Milano eu trabalhei no mudo. Não falava a língua deles, só fazia gestos. Apontava pra bunda assim, fazia com boca assim, com a mão assim, mostrava os cinco dedos pra dizer que custava 50 e punto e basta. Uma coisa boa do meu trabalho é que as pessoas se entendem rapidinho e em poucos dias eu já estava me comunicando melhor. Ciao, amore. Ti piace la brasiliana? Vieni, vieni. Andiamo li fare l'amore. Solo cinquanta.

Deixa eu te mostrar uma foto. Eu c'as amigas naquele castelo bonito que tem em Milano. Sforza. Vê como eu era ajeitada? Cabelão, peitão, coxão. Fazia um sucesso danado. Eu amava passear no Sforza domingo de tarde, se não estivesse frio, né?, porque o frio em Milano é uma desgraça. Foi até por isso que contraí o HIV. Uma noite eu estava na esquina me tremendo toda, passando mal mesmo, e uma bicha me ofereceu a seringa dela:

— Toma, Diana. Um baquezinho e você vai passar a noite toda no calor.

TAB Trombadas - Diana Pequeno - Christian Carvalho Cruz/UOL - Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Fiquei quente e doidona. Depois de um tempo caí doente. Febre, vomitava, febre, vomitava, tomava remédio, chá, febre, vomitava, febre, vomitava. Nunca sarava. Procurei um médico. Quando voltei no consultório com os exames, ele me olhou com aquela cara de "xi, já era" e falou C'è la hai la malattia. "Você tem a doença". Vê como são as coisas? Tantos anos fazendo programa e peguei o vírus por causa do frio. É que eu só trabalhava de camisinha. E olha que ofereciam bastante dinheiro pra gente ir sem.

-- Mille lire da fare sensa guanto, os clientes falavam.
-- Non, amore. Metti il guanto o vado via. Quer dizer "Não, amor. Põe a porra da camisinha senão eu vou embora".

Mas vacilei de compartilhar a seringa da bicha, né? Aí eu que não ia morrer longe da minha terra. Voltei pro Brasil e faz 32 anos que todo santo dia tomo meu remedinho. Busco no posto de saúde da prefeitura, tudo de graça, uma maravilha. No começo eram 20 comprimidos, agora são só dois. Tô bem, sim. Nos últimos exames a minha carga viral tava zerada.

Milano nunca saiu do meu coração. Fui sete vezes na Europa trabalhar. Em duas voltei deportada, de Lisboa e de Frankfurt. E, ai, menino, pra me financiar eu tinha vendido dois dos meus três apartamentos na praça Júlio Mesquita, aqui nesse Centrão de São Paulo. Quebrei a cara. Pelo menos fiquei com esse onde eu moro. Claro. Tudo com o trabalho na prostituição. Até uma casinha pra minha mãe eu dei, se você quer saber. Ela nem pôde aproveitar muito, tadinha, porque gostava de ralar o bucho no forró e arrumou um enrosco que deu dez facadas nela. Ai, não vamos falar disso, não, tá?, que eu não quero chorar hoje. Bom, onde eu estava? Ah é. Fui deportada duas vezes, mas nas cinco que entrei foi um arraso. Comecei por Portugal. Lisboa, bom. Trem. Porto, bom também. Trem. Madri, muito bom! Trem. Paris, ótimo, maravilhoso! Trabalhei dois anos no Bois de Boulogne, você conhece? Uma floresta lindíssima. Mas Milano é Milano.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Fui cafetina em Milano. Um cliente se apaixonou por mim e me alugou um apartamento na Piazza del Duomo. Era enorme, quatro quartos. Eu ficava em um com as minhas coisinhas e os outros três alugava pras bichas brasileiras. Quatro bichas por quarto. Cada uma me pagava 150 por semana. E eu era uma boa cafetina, viu. Não deixava as meninas saírem ou chegarem peladas. De jeito nenhum. Prédio de família. "Se vocês querem ficar nuas no trabalho, tudo bem. Mas pra entrar e sair de casa têm que estar compostinhas, lindinhas, vestidinhas, de calça comprida, de preferência, senão podem picar a mula daqui." Eu botava ordem e elas me obedeciam, porque não eram bestas de perder aquele luxo. Muitas ficaram pela Europa e me agradecem até hoje. Tão casadas, ricas, têm carro, casa com piscina, tudo. Vivem melhor do que eu e você.

Virge! Agora você quer ir láááááá pra trás, hein? A minha lembrança mais marcante de infância? Acho que é a minha mãe escondendo uma tesoura debaixo do travesseiro pra se proteger do meu pai. Ele era alcoólatra e agredia ela. Por isso eu não bebo. Morei dois anos em Paris e nunca tomei champanhe, você acredita? Jamais mon chéri! Acho tão elegante. Dizem que é uma delícia, mas morro de medo de chegar perto.

Minha família? De Santo André, no ABC. Eu tive três irmãos e uma irmã. Um dia a minha mãe fugiu das surras e criou nós cinco se pendurando do lado de fora dos prédios pra lavar vidraça. Nunca mais vi meu pai. Aí ela se juntou com outro, que me batia com fio de orelhão. Ele dizia que era porque eu não gostava de estudar, nem de trabalhar e ainda por cima era viado. Mas como eu podia gostar de ir na escola se lá davam em mim também? Soco, cuspe, pedrada. Eu me escondia e ficava caçando as pontinhas de baseado que os alunos mais velhos escondiam. Fumei maconha dos oito anos até outro dia, quando fui presa. Mas já chego lá. Escola não é um lugar legal pra criança viada, não. Um sofrimento muito grande. É por isso que tá cheio bicha analfabeta que nem eu. É, letra eu só conheço as do meu nome. Depois eu te dou um autógrafo pra você ver. Mas os números aprendi todos, porque mexi com muito dinheiro vivo. Lira italiana, marco alemão, franco, escudo, pesetas, euro, dólar. Pago a feira, o mercado, faço troco, tudo certinho. Nas contas ninguém me passa a perna.

Muitas idas e vindas, né? Mas estou sendo um livro aberto. Depois você escreve do seu jeito. Quando eu fiz 13 anos juntei uma trouxinha de roupa, anoiteci em minha cama, mas não amanheci. Não aguentava mais apanhar. Trenzão, destino Estação da Luz, que era onde diziam que se ganhava dinheiro. Passei semanas dormindo na rua e comendo do lixo. Até que uma senhora ficou com dó e me arranjou emprego de camareira num hotelzinho onde as putas davam entrada e saída. Eu limpava, lavava, encerava e a mulher me dava um trocadinho. Ela dizia que o pagamento maior era o teto e a comida. Essa senhora me ajudou muito, mas acho que fui meio escrava dela. De manhã, ela vinha rebolando naquele penhoar esvoaçante, saltinho, tóc, tóc, tóc, sentava pra tomar café, toda fina, e contava os maços de dinheiro. Eu, sem um tostão, olhava aquilo e quer saber? Vou cair na putaria. Ela me levou pra Avenida Cruzeiro do Sul, em Santana, e foi assim que eu comecei. Tinha 14 pra 15 anos.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Duvido que alguém entre na prostituição por gosto. Necessidade. Pura necessidade. Vida fácil, sim. Me sobe o sangue quando falam isso. Era suuuuper fácil quando a polícia passava, enchia a barca de traveca e levava pra Serra da Cantareira, tudo escuro, no meio do mato, um medo terrível, sem um galozinho ou uma vaquinha por testemunha. Eles faziam os cachorros avançarem na gente, botavam a espingarda na nossa cabeça e obrigavam a gente a ficar pelada e fazer safadeza umas com as outras. Depois de rirem bastante, iam embora levando a nossa roupa. Uma vez juntamos as nove bichas e apedrejamos a barca. Era só tijolo que voava. Puf! Puf! Puf! Mas e o medo depois de eles voltarem na avenida pra matar a gente? Sumia muita bicha naquela época. Vida bem facinha, né? E essa violência é sempre, só muda o endereço. Esses dias tive que trocar de igreja, porque eu tava lá quietinha, orando, e o moço veio me dizer:

-- Se você quiser continuar vindo aqui vai ter que vestir roupa de homem.
-- Mas por quê?! Eu não sou homem.

Aí mudei de igreja. É de crente também, mas ainda não me encheram o saco. Todo domingo eu vou. É bom ouvir as palavras do senhor Jesus, me sinto leve. Tem a Volta da Vitória, é uma beleza. A gente põe o dedinho assim pra cima e fica rodando e cantando, rodando e cantando, e muita gente se cura com esse negócio. O pastor pergunta: "Quem tava com dor? Passou?" O povo responde: "Siiiiiiim!". É muito milagrosa a Volta da Vitória.

Ah, é, a prisão. Vamos falar da prisão. Um dia eu fui socorrer minha amiga Pâmela, que estava tendo um treco. Como o Samu custava a chegar, desci na rua e vinha vindo uma viatura da polícia. Parei eles. Dois subiram e o que ficou pediu minha identidade. Eu dei, ele foi pro carro e, quando voltou já foi me algemando. Fiquei apavorada:

— Que que é isso, menino?! O que eu fiz de errado?! É crime querer ajudar uma bicha amiga que tá morrendo?

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Aí ele explicou que eu tinha uma condenação antiga por vender maconha. A pena era de prestação de serviços comunitários, mas, como eu nunca apareci no fórum, o juiz mandou trancar a minha cadeia. Até eu explicar que não recebi a intimação e, se recebesse, nunca ia conseguir ler, bom, antes disso eu já estava no cadeião de Pinheiros. Você já foi preso? É assim: chega, tira roupa, toca piano, fotografia, uniforme, xadrez. Um dia eu tô lá tranquila e o carcereiro grita: José Roberto Alves! Bonde! Quer dizer transferência. Me levaram pra Presidente Prudente. De novo chega, tira a roupa, toca piano, fotografia, uniforme. Mas era semiaberto, colônia penal. Me deram uma enxada e eu fui carpir a roça de mandioca. Trabalho tão pesado que olha aqui, pra você eu mostro: estourou meu silicone. Vou operar pra tirar. Não, não vou pôr mais. Já estou sem o outro faz anos, porque uma maricona me deu um murro, explodiu e eu tirei. E agora tô aposentada, consegui me aposentar por causa do HIV, então não preciso mais de silicone. Mesmo se trabalhasse, viu. Parece que os clientes agora não curtem mais peitinhos. Preferem brincar com outra coisa, pelo que me contam as minhas amigas da Praça da República. Ai, além do mais, quer saber?, na minha idade eu nem transo mais. Ninguém quer traveca velha, menino. Só transam comigo se eu pagar. E eu não sobrevivi a tudo isso pra ter que pagar pelo trabalho que eu passei a vida cobrando.

Bom, aí fiquei quase dois anos presa, saí por bom comportamento no comecinho da pandemia e, tirando o trabalho na enxada, até que teve coisas boas lá, sabia? Uma foi que parei com a maconha, porque era muito difícil de conseguir. A outra é que eu costurava pros presos e eles me pagavam em chocolate, xampu, prestobarba. Menino! Prestobarba era um tesouro! Deus me livre ficar com a barba desse tamanho. Já bastava o cabelo mais branco que algodão, porque não deixavam entrar tintura. Aí, quando souberam que eu cantava e me pediram um show, eu falei: "Tá bom. Mas quero uma peruca, um salto e um modelo". Me trouxeram tudo e eu fiz meu showzinho básico pra eles. Um pot-pourri, você fala francês?, sabe o que é pot-pourri?, isso mesmo, fiz um pot-pourri com "O Amor e o Poder", da Rosana, "Abandonada por Você", da Fafá de Belém, essas duas se eu não canto nos meus shows a plateia me espanca, mais "Além da Cama", da Alcione, e finalizando com "Por que brigamos?", da Diana, que foi casada com o Odair José. Não conhece essa? Ai, menino, em que mundo você vive? Vou cantar o refrão pra você, presta atenção:

Ó, meu amado, por que brigamos?
Não posso mais viver assim sempre chorando
A minha paz estou perdendo
A nossa vida deve ser de alegria
Pois eu lhe amo tanto

Lembrou? Eu adoro essa, nossa senhora! Não tem quem não goste. Quando eu deixei a cadeia, até os guardas vieram me dar tchau:

— Puxa, que pena, vamos perder a nossa cantora.

Não, não. Os sertanejos eu não canto, porque faço mais a linha de vozes femininas. Joana, Simone, Roberta Miranda. Os meninos tão aí na parede porque eu gosto deles. Amo! Daniel, Zé di Camargo. Olha o Leonardo, que coisa mais linda. Ele deu uma embagulhada depois que envelheceu, né?, mas quem não dá? Mesmo assim eu adoro ele. Peraí que vou te dar uma foto minha. Leva de recordação. Vou autografar, D, i, di, a, na, tá certo assim?, e pôr a data. Que dia é hoje mesmo?

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Diana Pequeno, 62 anos

*Diana Pequeno é homônima da cantora e compositora baiana, nascida em 1958 e que fez sucesso nos anos 1970/1980 interpretando canções de Bob Dylan, Pablo Milanés, Gonzaguinha e Joni Mitchell, entre outros. Ela não conhece a cantora famosa.

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Histórias célebres de gente anônima: este é o espírito do projeto Trombadas. Nasceu sem destino, intenções, interesses ou desejos, nada além de conhecer e ouvir as pessoas que encontro nas ruas. Então eu saio, vou lá, paro — é fundamental parar —- e escuto. Depois conto. No fim, é um mergulho. E um reencontro.