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Trombadas

O duelo de Livancri

Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Christian Carvalho Cruz

Christian Carvalho Cruz nasceu no Jaçanã, em São Paulo. É jornalista, trabalhou nas revistas Placar, Quatro Rodas, Época Negócios, no portal Pelé.Net, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, entre outros. É autor do livro ?Entretanto foi Assim que Aconteceu? (ed. Arquipélago Editorial), criador do projeto Trombadas e militante da revista eletrônica "Grama - O Futebol Utópico".

Colunista do TAB

04/08/2022 04h01

Peraí, mano. Como assim? Tem dois nome diferente o filme? É "Três Homens em Conflito" ou "O Bom, o Mau e o Feio"? Ahhh, entendi. A musiquinha eu tô ligado. Da hora. Mas não vi o filme. E eu sou quem nesse daí? Taporra! O Mau memo?! Carai. Te falar, viu. Eu tinha esperança de ser o Feio, pelo menos. Fazer o quê, né? O diabo me persegue, não tem jeito. Meu pai era fã de bangue-bangue e me botou esse nome por causa do mano desse filme. Lee Van Cleef. Mas como ele era analfabeto, foi no cartório e mandou essa: "É filho homem. Vai chamar Livancri".

Faz pouco tempo que eu descobri que o certo de escrever é Lee Van Cleef. Um camarada passou com um DVD do filme "Cavalgada Infernal" e veio me mostrar: "Ó você, Livancri". Porra, coisa de inferno de novo, eu nem quis assistir. Mas nesse dia eu me liguei como escreve direito o nome. Antes eu jogava Livancri no Facebook e só aparecia um outro mano além de mim. Ele mora em Goiás e nem sabia porque chamava desse jeito. Fui eu que expliquei pra ele. Gente boa, às vezes a gente troca ideia.

Ih, meu pai é um negócio complicado. Ele era devoto d'"O Livro de São Cipriano", tá ligado? Parada de feitiçaria, magia, Lúcifer. Tinha parte com o capeta. Edgar. Não, não lembro dele. Eu tava com um ano e meio, dois quando ele morreu. Pulou no rio Sorocaba. E era bom nadador, hein? Todo mundo fala isso aí, que era bom nadador. Tanto que no atestado de óbito ficou "causa indeterminada". Não tá parada cardíaca, água no pulmão, afogamento, nada disso. Sei lá, mano. Tudo estranho as parada do meu pai. Quando eu pergunto pra minha mãe, ela desconversa, não quer tocar no assunto. Mas a galera aqui na quebrada me conta dele.

Conta que ele comia vidro, por exemplo. Então. Foda isso aí. O Seu Emídio, do bar, diz que chegou uma hora que passou a servir goró pro meu pai só no copo de plástico, porque os de vidro ele mordia, mastigava e engolia. Que nada. Não era pra ganhar dinheiro, se exibir, não. Ele fazia porque tinha que fazer. Incorporava, comia o vidro, mandava pra dentro, descomia também, e não sofria nenhum arranhão. Outra coisa que ele fazia era pegar um gravetinho, tá ligado?, quebrava assim, ó, póin, e você passava do lado dele procurando e não enxergava. Ele sumia. Ficava invisível. O "Livro de São Cipriano" é terrível, cara. Parada das treva memo.

TAB Trombadas - Livancri Fernandes dos Santos - Christian Carvalho Cruz/UOL - Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

E acontece cada coisa aqui nesse Jardim Boa Vista que, se eu for te falar, você vai ficar apavorado. Teve um dia que eu tava no bar do Seu Emídio com o Dezinho Mecânico. A gente lá tomando umas catuaba e aí o baguio baixou no Dezinho e começou a falar uns acontecimento, que ele nem conheceu. Seu Emídio atrás do balcão, olhando com os zoião desse tamanho. Aí o Dezinho, com uma puta voz rouca, tá ligado?, que parecia que tinha uma câmara de eco na garganta, ele vira pra mim e diz:

— Eu vou te dar tuuuuuudo. Dinheeeeiro. Caaaarro. Mulheeeeeer. O que você quiser. Você sabe o que tem que fazeeeeer. Faz igual teu paaaaaaaai.

E eu:
-- Sai fora, mano, tô preparado pra isso não.

Como quem era? Porra, era o diabo, carai. Céloko. Queria que eu fizesse um pacto com ele igual meu pai fez. Eu não. Eu já tinha conflito demais nessa altura da minha vida. Ah, mano, crescer na favela cê tá ligado. Depois que o véio Edgar morreu, a minha mãe foi trampar de diarista. Quando eu e minha irmã a gente completou uns oito, dez anos, nós dois pequeno, sem ninguém pra cuidar, a gente fazia o quê? Ficava sozinho o dia inteiro na rua. Aí começa a beber, fumar, andar com os cara do crime, do corre, e já era. A gente deu muito desgosto pra nossa mãe. Mas ela é foda. Tinha nós dois e depois de um tempo ainda adotou o Benzina, meu melhor amigo. O moleque tinha fugido de casa porque apanhava do tio dele e eu falei "Vai pra onde agora, Benzina?". "Sei lá, Livacri, vou morar na rua." Que é isso, irmão! Vou falar com a minha mãe. Aí, mãe, dá pro Benzina morar com a gente? "Claro que dá." Claro que não dava, né? O que ela ganhava mal pagava nosso almoço e janta, mas mulher guerreira, tá ligado? Dona Jesuína e não é à toa não. Com o histórico do nosso pai, podia ser Diabina, né? Mas é Jesuína. Tá com 72 anos, já aposentou e ainda trabalha em casa de família. A vida difícil de sempre.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Que é isso, mano. As parte dela é com o outro time. O time da luz. Uma vez, quando eu tinha 15 anos, tava deitado na maca de um hospital, todo ensanguentado, toca meu celular. Oi, mãe, eu falei, tentando disfarçar a voz fraca. "O que te aconteceu, Livancri? Você tá correndo perigo?" Tô bem, mãe. Fica tranquila. Aconteceu nada não. Tô aqui c'a galera e já já eu vou pra casa. Ela pressentiu, tá ligado? Acordou no meio da noite, temeu pelo pior e me ligou. A Dona Jesuína não sabia, mas eu tinha tomado um tiro.

Foi assim: eu tava pichando lá no Jardim Belmonte, vizinho do Boa Vista. O cara parou de carro, sacou uma arma e gritou pra mim:

— Vai, moleque, sai andando!

Eu obedeci, né, mano? Saí andando. Passei, virei de costas, e pum!, o cara atirou. A bala tá aqui até hoje. Sinto o geladinho dela quando faz frio. Ou quando preciso fazer muita força com esse braço. Entrou pelas costas, não furou órgão vital nenhum e parou num lugar que é de alto risco pra remover. Tem dois anos eu voltei no médico, fiz raio-x e ela tá no mesmo lugarzinho: meio dedo pra baixo, pegava o coração; meio dedo pro lado, a coluna. Mas não se mexe, graças a deus. Mano, você acredita que anos depois eu cruzei esse cara que me deu o tiro numa festa? E foi ele que me reconheceu. Chegou, pediu desculpa, "Ô, foi mal aí aquele dia, Livancri", e sacou a arma de novo. Mas dessa vez era pra me mostrar:

— Foi com essa aqui que eu atirei em você.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Eu não tava acreditando naquilo! O mais louco foi que ele ia botando a arma na minha mão! Deu pra sentir o ferro frio dela se aproximando. Aí do nada bateu um vento estranho, tá ligado?, um calafrio da porra, e quando eu tava pra pegar a arma, tava a milímetros dela, o cara puxou de volta. Tirou as balas e me entregou descarregada. Penso nisso aí até hoje. Acho que ele também percebeu que o capiroto tava na área.

Uns meses depois eu lembro que fui ao fórum depor por causa desse tiro e a psicóloga lá me chamou numa salinha:

— Boa tarde, Livancri. Eu queria saber se você tem problemas com seu nome, se se sente humilhado, se sofre bullying na escola. Você pode mudar de nome, se esse for muito difícil de carregar. Tô aqui pra ajudar.

Aí ela me mostrou um quadro branco desses de escrever onde tinha um monte de nome esquisito. Francisvaldo, Vanicléria, Inocêncio Coitadinho, Amoxil, Sossegado da Silva, lembro desses. Mas respondi pra ela:

— Tranquilo, dona. Aqui ninguém bulina não. Agradeço, mas prefiro continuar Livancri memo.

É, véio, eu falo que esse Boa Vista é foda. Meu lugar de perdição e de alegria. Hoje eu só quero ficar longe daqui, mas quando venho ver minha mãe, encontro os camarada, a gente ouve um samba, a gente ri, conversa e eu até esqueço dos meus BOs. Ah, tráfico, né, mano? Eu não posso apagar o que eu fui, mas estou na luta pra não ser mais. Se desse pra passar uma borracha em tudo e começar de novo eu até fazia o pacto, mas não quero esse caminho diabólico, não. Não dá pra ficar andando na escuridão, porque o inimigo te pega no seu erro. No campo dele, a vitória sempre vai ser dele. Não existe essa parada de corpo fechado, tá ligado. Nas trevas quem vence é o capeta. Pra você ver: tem dia que tô aí de boa, só trocando ideia com os moleque, os polícia passa, para a viatura e:

-- Tá de volta, Livancri?
-- Não, senhor. Tô só de passagem.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Só que eu me sinto bem aqui. O Boa Vista tá em mim. E como é que faz pra tirar a nossa quebrada de dentro da gente, mano? Não tem como. Por isso eu resolvi sair fora, ficar afastado, andar mais pela claridade. Recebi uma oportunidade de trabalhar como servente de pedreiro e dei sorte: descobri que tinha o dom pra esse trampo. Hoje eu trabalho numa firma que reforma apartamento novo, tá ligado? A construtora entrega a chave, o proprietário chama o arquiteto e a gente entra com a obra. Quebra tudo, muda parede de lugar, encanamento, faz ilha gourmet de cozinha, banheira de ardósia, só as parada de luxo.

Eu aprendi todas as partes: alvenaria, hidráulica, elétrica, solda, jogo em todas. Mas o que eu mais gosto é da altura. Eu nunca tinha subido tão alto. Nessa semana eu tô trampando no décimo nono andar de um prédio em Moema. Aí teve um dia que precisei buscar uma lata de tinta no terraço, vigésimo sétimo. Mano, que sensação da hora. O dia tava clarinho, pertinho do céu, azul, azul, sem uma nuvenzinha, e eu fiquei lá olhando a cidade. Um monte de prédio subindo, guindaste, andaime, o caraio, e eu pensei Porra, mano, e se eu fizer faculdade? Agora isso não me sai da cabeça. Quero ser engenheiro. Vou tentar, né?

Saca o vídeo que postei nesse dia que subi no vigésimo sétimo. Eu posto bastante coisa do meu trampo, porque sinto mó orgulho. Trabalhar é a melhor coisa do mundo. Sensação de liberdade. A gente tem pra onde ir de manhã e pra onde voltar de noite. O contrário disso? Ah, mano, acho que o contrário disso é viver com medo. E viver com medo é uma merda. O medo tira a liberdade da gente.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

A minha mina é professora de português e tá me ajudando a estudar. A gente mora junto, no Jaguaré, e tô conhecendo uma pá de coisa nova. A gente vai no Parque Ibirapuera, na Pedra Grande de Atibaia ver os mano saltar de asa delta, Caraguatatuba também. Até em restaurante eu já fui. De uns tempos pra cá o mundo ficou maior pra mim, tá ligado? Eu não quero perder isso. Só que pra perder é pá-pum, cê tá ligado. Um tropeço e a gente despenca lá de cima e se arrebenta na calçada. Tum! Porque é assim, mano: a sociedade me deu uma chance, mas fica ali de olho, esperando uma falha minha, um erro. Eles têm certeza que uma hora eu vou errar e eles vão poder dizer "Tá vendo? Não tem recuperação, não".

Pelo meu passado eu perco crédito, tô ligado. Não posso brigar com isso. Mas posso me esforçar pra não dar pretexto. Então eu quero olhar pro meu passado terrível só pelo retrovisor: ele vai ficando pequeno, pequeno, pequenininho, até sumir numa curva da vida aí. E a minha cobrança em cima de mim mesmo nisso aí é pesada. Muito pior que a voz rouca do diabo me chamando. Mas eu não quero provar nada pra ninguém, mano. Eu quero provar pra mim. O bangue-bangue agora é aqui dentro da minha cabeça. Livancri contra Livancri. O duelo é comigo mesmo.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Livancri Fernandes dos Santos, 33 anos

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Histórias célebres de gente anônima: este é o espírito do projeto Trombadas. Nasceu sem destino, intenções, interesses ou desejos, nada além de conhecer e ouvir as pessoas que encontro nas ruas. Então eu saio, vou lá, paro -- é fundamental parar --- e escuto. Depois conto. No fim, é um mergulho. E um reencontro.