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Mundo de sofrimento e autoritarismo: entenda o significado de distopia

Elizabeth Moss como June Osborne em O Conto da Aia (Fonte: Divulgação) - Elizabeth Moss como June Osborne em O Conto da Aia (Fonte: Divulgação)
Elizabeth Moss como June Osborne em O Conto da Aia (Fonte: Divulgação)
Imagem: Elizabeth Moss como June Osborne em O Conto da Aia (Fonte: Divulgação)

Marie Declercq

Do TAB

14/08/2020 04h01

George Orwell, Aldous Huxley, Kurt Vonnegut, Margaret Atwood, Anthony Burguess e Ignácio de Loyola Brandão. O que todos estes escritores têm em comum? Fácil. Todos são autores de obras literárias de ficção que narram um futuro não muito distante de uma sociedade que vive em sofrimento, sob o comando de um regime autoritário, sem perspectiva de um cenário melhor.

Basicamente, os autores escreveram sobre um lugar ruim. E esse lugar ruim é chamado de distopia — termo usado em um discurso político no século 20 e que, desde então, define um gênero literário e também, vez ou outra, alguma situação presente.

Mundos distópicos são uma constante na arte e literatura, especialmente na ficção científica, com destaque para o subgênero cyberpunk, mas também aparece em grandes sucessos do cinema como na franquia "Jogos Vorazes", baseada no livros de Suzanne Collins. A série britânica "Black Mirror" talvez seja o produto cultural mais bem acabado do que a distopia traz para a nossa realidade, com histórias bem próximas à nossa vida cotidiana, dominada por tecnologia e vigilância nas redes.

Mas o que é exatamente uma distopia? Como podemos reconhecê-la? Toda sociedade pode ser considerada potencialmente distópica? Com a ajuda de Alexey Dosworth, doutor em Filosofia e pesquisador associado à Universidade Ca Foscari de Veneza, na Itália, saiba mais sobre o termo e seu uso.

Tudo sobre distopia

O que é distopia?

A distopia, no grego antigo, significa literalmente "lugar ruim". A palavra é usada para descrever um lugar, uma época, uma comunidade ou uma sociedade imaginários onde se vive de forma precária, sofrida, sob um regime autoritário e muito desespero. Na medicina, o termo é usado para definir um órgão anômalo que está fora do lugar no organismo.

Quais são as características de uma distopia?

Uma distopia é composta pela presença do sofrimento humano em sociedades regidas por regimes autoritários — como no fascismo —, onde há falta de liberdade, baixa qualidade de vida, desigualdade, condições ambientais adversas e a desumanização desses elementos. A tecnologia também pode ser inserida nesse contexto distópico por representar uma forma de vigilância e controle social por parte do Estado ou de grandes corporações.

Qual a diferença entre utopia e distopia?

A palavra utopia foi criada pelo filósofo inglês Thomas More no século 16 para definir um ideal de sociedade. Em seu livro "Utopia", escrito em latim, More conta a história de um viajante à ilha de Utopia onde não há crime, violência nem pobreza. Os habitantes da ilha vivem bem, sem luxos excessivos, sem propriedade privada e de forma igualitária. A palavra vem do grego antigo e significa um "não-lugar", isto é, algo que só existe no campo dos ideais, dos sonhos. É um mundo perfeito.

A distopia é o inverso, o antônimo de utopia. Tanto é que um dos sinônimos da palavra é "antiutopia". Em um mundo distópico, há desigualdade, opressão, falta de liberdade, sofrimento e autoritarismo.

Como reconhecer uma distopia?

A distopia não é algo fácil de se reconhecer, porque depende da visão de cada um, de como cada pessoa entende o mundo. "Uma utopia pode, por exemplo, ser mantida a partir da criação de uma distopia", explica o filósofo Alexey Dodsworth. "Se é uma história contada pelo ponto de vista da classe privilegiada, eles podem considerar uma utopia. Agora, do ponto de vista de quem é explorado para sustentar essa classe privilegiada, é uma distopia", diz.

O uso da palavra tem uma carga predominantemente política porque, para caracterizar uma distopia, é preciso reconhecer que há um regime autoritário opressor e que o sofrimento causado não é uma inevitabilidade (como um desastre natural, por exemplo), mas algo que depende da ação humana.

"Em termos de sociedade, caracterizamos a distopia pelo autoritarismo, a opressão, a falta de liberdade, baixa qualidade de vida e quando há sofrimento desnecessário. Muitas vezes esse sofrimento tem um objetivo, que é sustentar as vantagens de um grupo específico", explica. "A escravidão no Brasil, por exemplo, foi uma distopia? Claro, ela pode ser caracterizada como uma. A escravidão foi uma criação humana, não era uma inevitabilidade, como um desastre natural ou uma doença sem cura. Na perspectiva dos povos que foram escravizados, claro que era uma distopia. Mas, na perspectiva dos senhores de engenho, era uma utopia, um bom lugar para se viver", diz Dodsworth.

O que é um mundo distópico?

Um mundo distópico é aquele que possui os elementos que descrevem uma distopia. Normalmente, um mundo distópico é aquele avassalado por mudanças climáticas causadas pelo homem, regimes fascistas, desigualdade social, falta de esperança, vigilância constante e diversos fatores que causam sofrimento a quem vive nesse universo.

"O mundo distópico é um lugar de baixa qualidade de vida, marcado por autoritarismo, opressão e desesperança, pela ausência de perspectiva de mudança. Tem um elemento de resignação, com poucas pessoas se rebelando, porque uma das coisas fundamentais da sociedade distópica é que ela se vende como a única realidade possível. Ela aniquila o sonho. O habitante de um mundo distópico não consegue imaginar um mundo que não seja aquele", explica Dodsworth.

O que é um romance distópico?

Um romance distópico é uma obra cujo universo se passa em uma sociedade distópica — sendo baseada em aspectos da vida real. O exemplo clássico é a obra "1984" de George Orwell, escrita em 1949, que se passa em um futuro não muito distante em que a Grã-Bretanha (chamada no livro de "Pista de Pouso Número 1") é regida por um governo autoritário e tirânico, que supervisiona todos os cidadãos por meio do "Grande Irmão".

"Romances distópicos são aqueles em que as pessoas vivem em uma realidade com muito sofrimento, baixa qualidade de vida, opressão e totalitarismo. Existe um equívoco comum de considerar distópico um mundo só porque existe sofrimento, mas não necessariamente é assim", explica Dodsworth. "Distopia é uma expressão que tem significado muito político. Depende sempre de uma ação humana. Ela necessita de um elemento político que esteja sustentando essa realidade aterradora. O romance distópico é caracterizado por decisões políticas, não inevitabilidades, como desastres naturais ou doenças. O sofrimento é causado por humanos, não pela natureza. Como é, por exemplo, o 'Conto da Aia', de Margareth Atwood, onde a realidade das mulheres que vivem ali não é uma criação natural, mas sim uma criação humana."

Qual a origem do termo distopia?

Apesar de haver registros mais antigos, o uso mais conhecido do termo foi feito pelo filósofo e economista britânico John Stuart Mill em 1868, durante um discurso na Câmara dos Comuns na Inglaterra, referindo-se à política de terras exercida pelo governo irlandês como uma distopia ou uma cacotopia — termo sinônimo para se referir a um lugar ruim, o inverso de utopia.

"O discurso feito por Mill é tido como o primeiro registro da palavra, mas é complicado dizer que é o primeiro registro porque já existia antes uma palavra definindo que é uma distopia", explica Alexey Dodsworth.