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Quarentenar não é opção: desigualdades sociais atrasam fim da pandemia

Por falta de acesso a serviços de saúde, comunidade paga os próprios serviços médicos em Paraisópolis - André Lucas/UOL
Por falta de acesso a serviços de saúde, comunidade paga os próprios serviços médicos em Paraisópolis Imagem: André Lucas/UOL

Marília Marasciulo

Da Agência Eder Content, colaboração para o TAB

11/06/2020 04h00

A pandemia é para todos, mas a quarentena, não. Trabalhar remotamente é privilégio de quem tem acesso à internet -- e o distanciamento social é garantido apenas para a pequena parcela da população que vive em casas espaçosas. A edição especial "Querer e poder" do TAB retratou como as diferenças de oportunidades impactam a sociedade durante a pandemia.

Respondendo a 5 perguntas nossas, o cientista político canadense Robert Muggah, um dos fundadores do Instituto Igarapé -- com atuação em programas das Nações Unidas, Banco Interamericano de Desenvolvimento e Banco Mundial para solucionar desafios globais --, explicou como os efeitos da quarentena determinam as agendas econômica e social do Brasil e do mundo.

TAB: A pandemia do novo coronavírus revelou líderes políticos que negam a ciência, inclusive no Brasil. Por que a quarentena é uma decisão não só científica, mas também política?

Robert Muggah: Todos os governos deveriam estar adotando uma abordagem baseada em evidências para prevenir, conter e erradicar a Covid-19. A grande prioridade é salvar vidas. Isso requer balancear cuidadosamente os imperativos da saúde da população com os requisitos políticos e econômicos de uma sociedade funcional. Uma liderança informada, comunicação clara e coordenação robusta do nível nacional para estadual e municipal são cruciais para o gerenciamento de uma pandemia. A verdade é que muitas vidas serão perdidas como resultado dessa falha de liderança.

Os custos sociais e econômicos da Covid-19 certamente vão afetar os padrões de vida de todos os brasileiros, especialmente os pobres, marginalizados e sem teto.

TAB: Mesmo antes da pandemia, a desigualdade era um dos problemas mais urgentes na agenda econômica global. Como os últimos acontecimentos impactam essa questão?

RM: A Covid-19 é um trágico lembrete das muitas desigualdades que estratificam nossos países e cidades. Embora todos sejam afetados por ela, os pobres serão os mais atingidos pela doença. Esse também é o caso nos países mais ricos na América do Norte e Europa Ocidental. Nenhuma parte do mundo será mais afetada do que a África, América Latina e Sudeste Asiático. O que a pandemia está fazendo é expor os níveis extremos de desigualdade, não só de renda, mas de raça, gênero e oportunidades. Portanto, a redução da desigualdade tem que estar no centro da resposta a essa pandemia, e às próximas.

O cientista político canadense Robert Muggah - Divulgação - Divulgação
O cientista político canadense Robert Muggah
Imagem: Divulgação

TAB: Dada a extensão dessa crise, a pandemia poderá aprofundar ainda mais as desigualdades?

RM: Existe um risco real de que a Covid-19 reforce as desigualdades existentes. Já temos 2,7 bilhões de pessoas — ou 80% da força de trabalho mundial — em quarentena. Temos visto como uma minoria de pessoas ricas e educadas conseguem trabalhar remotamente durante a crise, enquanto pessoas mais pobres e menos conectadas digitalmente, que dependem de salário para viver, estão perdendo seus trabalhos. A Covid-19 também pode ampliar o abismo entre ricos e pobres. Enquanto a Amazon fatura 11 mil dólares por segundo — e seu fundador, Jeff Bezos, lucrou 24 bilhões de dólares desde janeiro de 2020 com o aumento das vendas online —, uma grande classe de trabalhadores está vendo seus empregos desaparecerem à medida que o comércio migra para o online e se torna cada vez mais automatizado. Neste sentido, a Covid-19 talvez esteja acelerando tendências que já estavam ocorrendo.

TAB: Como esse cenário pode ser evitado?

RM: Existem muitas maneiras de reduzir a desigualdade que não só produziriam efeitos econômicos positivos, mas também benefícios de saúde, educação e segurança. Nós sabemos o que funciona: cobertura educacional universal — especialmente na infância e ensino médio — reduz os abismos de renda entre trabalhadores especializados e não especializados. Transferências de renda também ajudam, mas são insuficientes. Melhorar a arrecadação de impostos vai ser crucial para garantir que governos tenham os recursos necessários para investir em saúde, educação e bem-estar. Nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), as políticas de imposto e gasto, historicamente, ajudaram a reduzir a desigualdade em mais de 25%; a pobreza caiu mais de 50%.

A conclusão é que o preço da falta de ação se acumula ao longo do tempo, em forma não só de desigualdade, mas de frustração crescente e agitação social. Os ricos precisam ceder um pouco de seu poder e privilégios e aceitar que precisam pagar mais impostos.

TAB: Que outras rupturas a pandemia tem provocado ou pode provocar na sociedade?

RM: Há sinais de que a Covid-19 revitalizou o papel central do Estado, inclusive como um provedor de serviços. Pela Europa, o debate sobre renda básica universal é a principal corrente. Programas de subsídios passivos também começaram — muitos dos quais considerados heréticos há poucos meses —, para amortecer a queda dos cidadãos. Dependendo de quanto a crise durar e quão profunda for a depressão econômica, haverá uma reformulação fundamental do papel básico e das funções do Estado. Devido a todos os prejuízos criados pela desigualdade crescente, fechar os abismos entre os que "têm" e os que "não têm" deveria ser uma das maiores prioridades para os tomadores de decisão globais.