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José Gomes Temporão: 'Brasil perdeu a oportunidade de enfrentar a pandemia'

Ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão - Divulgação / STF
Ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão Imagem: Divulgação / STF

Letícia Naísa

Do TAB

05/06/2020 04h00

O ano era 2010. O mundo bateu na trave para enfrentar uma pandemia de influenza. No ano anterior, a OMS (Organização Mundial da Saúde) havia declarado estado de pandemia de H1N1, a gripe suína. A crise durou cerca de um ano e meio; 18 mil pessoas morreram no mundo todo. Rapidamente, foram descobertos medicamentos e uma vacina que pôde imunizar a população. O susto fez com que muitos países desenvolvessem planos de enfrentamento de uma nova pandemia de influenza, a partir de então. O Brasil foi um desses países. Na época, o Ministério da Saúde preparou o "Plano Brasileiro de Preparação para Enfrentamento de uma Pandemia de Influenza".

O protocolo desenha as responsabilidades de cada setor do governo, além de estratégias de notificação e isolamento de casos e aplicação de tratamento e prevenção. Nos países-membros da OMS, planos parecidos foram desenvolvidos na mesma época, mas nenhum foi atualizado ao longo de dez anos. Em um relatório divulgado em setembro de 2019, a organização afirmava que o mundo não estava preparado para enfrentar uma pandemia. "Não só a OMS estava preocupada com uma pandemia, baseando-se em observação, mas fez alertas várias vezes, há dez, cinco anos", afirma Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor geral da organização. Desde 2015, Bill Gates também tentou avisar.

A aposta — tanto da OMS quanto de diversos especialistas na área da saúde — girava em torno da influenza por causa de seu histórico perene. "A gente sabe que é um fenômeno recorrente. Em média, três vezes em cada século, vemos uma pandemia de influenza", afirma ao TAB José Cerbino, médico infectologista pesquisador da Fiocruz e da faculdade de saúde pública de Harvard, nos Estados Unidos. O que aconteceu depois do H1N1 é que os planos no mundo todo não foram atualizados. "E deveriam, porque as estruturas mudam, os contextos mudam, e se os simulados tivessem sido atualizados, com certeza a resposta hoje teria sido facilitada."

A pandemia que enfrentamos hoje é de um tipo de vírus completamente diferente, mas, segundo especialistas, a forma de transmissão do novo coronavírus é parecida com a do influenza e, por isso, o controle da pandemia seria similar. Desde 2010, no Brasil, muita coisa mudou em relação à estrutura do governo e à gestão do país, mas, para o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, médico sanitarista, o plano antigo ainda deveria ser válido. "Não é específico, tinha uma mobilização em torno da pandemia recente de influenza, mas seria totalmente aplicável para qualquer vírus. Até a saída do [ex-ministro da Saúde] Mandetta, estávamos preparados", afirmou ao TAB.

O ponto de virada para que o Brasil apresentasse piores resultados do que o esperado, na opinião dos especialistas ouvidos pelo TAB, foi na postura da gestão. "Tem sempre uma fração da resposta que é em função do momento. O Brasil é muito grande e é um país cheio de dificuldades. Aí vem o papel do governo de entender as características do país e suas desigualdades, de adaptar as recomendações à sua realidade", diz Márcia Castro, pesquisadora brasileira e professora da faculdade de saúde pública de Harvard. Procurada pela reportagem, a atual gestão do Ministério da Saúde não respondeu às tentativas de contato para comentar as estratégias de planejamento.

Em seu histórico, o Brasil tem uma série de exemplos positivos na área da saúde pública, como os programas de atendimento a pessoas com HIV e o gerenciamento da crise do H1N1. "Mas aí a gente tem um momento estranho no país, em que a ciência é negada, verbas vêm sendo reduzidas na educação — o que inclui pesquisa. A mensagem que vem dos diferentes níveis de liderança é totalmente desencontrada, a presidência negou a importância do vírus: as lideranças locais tomam as rédeas para tentar dar respostas, mas estão totalmente desconectadas do governo federal", diz Castro.

30.ago.2016 - Laboratório da UFRJ onde, dentro outras vacinas, estuda-se uma contra o vírus da zika - Zo Guimarães/Folhapress - Zo Guimarães/Folhapress
30.ago.2016 - Laboratório da UFRJ onde, dentro outras vacinas, estuda-se uma contra o vírus da zika
Imagem: Zo Guimarães/Folhapress

Para Temporão, o país perdeu a oportunidade de enfrentar a pandemia de maneira diferenciada. "Nós tivemos tempo, pudemos observar o que o mundo passou, temos um sistema universal de saúde, com todas as dificuldades, mas organizado em nível nacional. Temos saúde pública de qualidade, pesquisadores de alto nível, mas faltou uma questão básica: liderança, coesão e crença na ciência", afirma. "O Brasil está enfrentando a pandemia sem participação do governo federal, ou melhor, apesar do governo federal", opina.

A falta de diálogo entre as esferas de poder dificultou a resposta à pandemia no Brasil e em outros países onde a situação ficou mais crítica. Mesmo que houvesse um plano eficaz na manga, o tempo de resposta conta muito. "Se você tem tudo preparado, você vai responder mais rápido. Mesmo que você não tenha instrumentos funcionando, a coordenação é fundamental para que a resposta seja colocada da forma mais rápida possível. A falta de coordenação é muito ruim para uma resposta desse tipo", afirma Cerbino.

UTI do hospital Emílio Ribas, em São Paulo, atendendo exclusivamente pacientes com Covid-19  - Edu Cavalcanti/UOL - Edu Cavalcanti/UOL
UTI do hospital Emílio Ribas, em São Paulo, atendendo exclusivamente pacientes com Covid-19
Imagem: Edu Cavalcanti/UOL

Há duas formas de prevenir o que poderia ter acontecido no país, segundo Gonzalo Vecina Neto, sanitarista e professor de saúde pública da USP (Universidade de São Paulo): vigilância e preparo industrial. "Nós temos conhecimento sobre vários microoganismos, bactérias, vírus, fungos, mas não temos um bom sistema articulado de monitoramento, e transferimos nossa capacidade produtiva para fora do país. Por isso, agora, faltam equipamentos para enfrentar a pandemia", diz. "[Ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique] Mandetta disse que um país rico vai desenvolver a vacina e nós vamos usar, o que é um equívoco. O Brasil tem um consumo imenso de qualquer coisa e somos potencialmente produtores de qualquer coisa, tem uma política equivocada aí." Para Vecina, houve retrocesso nos últimos anos em termos de políticas públicas de saúde no Brasil, como a desestruturação da Estratégia de Saúde da Família do SUS. "Estamos colhendo os frutos e vai piorar", lamenta.

Apesar de continuar com números crescentes de novos casos e mortes pela Covid-19, o país se prepara para uma reabertura. "A gente espera que o mundo veja a importância da preparação. Essa epidemia vai passar, e é importante que não aconteça o que aconteceu na época do H1N1, que não seja esquecido esse momento — e que as lições que ficarem dessa pandemia sejam colocadas em prática, porque sempre somos surpreendidos de novo", alerta Cerbino.