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Como o governo de direita reagiu à pandemia da Covid-19 no Uruguai

Prédio do Cabildo Histórico no bairro Ciudad Vieja, em Montevidéu - Wiki Commons
Prédio do Cabildo Histórico no bairro Ciudad Vieja, em Montevidéu Imagem: Wiki Commons

Patrícia García

Colaboração para o TAB, de Montevidéu (Uruguai)

01/06/2020 04h00

Com um país fortemente dividido após as eleições de novembro de 2019 — consideradas as mais disputadas da história uruguaia — o novo governo, uma coalizão de direita, assumiu o poder em 1º de março de 2020, pouco menos de duas semanas antes dos primeiros casos de Covid-19 serem confirmados no país.

A nova administração, conduzida pelo presidente Luís Lacalle Pou (Partido Nacional), é composta por sua sigla e outros quatro partidos de diferentes espectros da direita e da extrema-direita: Partido de la Gente, Cabildo Abierto, Partido Independiente e Partido Colorado.

A coalizão tem demonstrado mais facilidade em dialogar com a oposição e com a esquerda do que com seus próprios membros. Em meio a disputas ideológicas internas, com apoio de 50,2% da população e uma série de denúncias contra seus componentes e associados — como o recente caso de Ariel Pfeffer, denunciado por exploração sexual de menores — talvez a Covid-19 seja um dos poucos assuntos que conseguem gerar uma opinião unânime dentro da política atual.

Tendo como base o plano de contingência criado pelo governo anterior de Tabaré Vázquez (Frente Amplio), em fevereiro, a coalizão optou por ações rápidas e efetivas para frear a escalada de contágios pelo vírus. Com 22 mortos e 803 casos positivos nestes quase 3 meses de pandemia em território uruguaio, a população vê a curva de contágios diminuir e se prepara para iniciar seu retorno a uma vida quase normal.

Intervenção rápida e consciência coletiva

"Em momento algum houve quem questionasse se o vírus era perigoso ou se poderia nos afetar muito", explica Diego Lara, médico residente do Hospital das Clínicas de Montevidéu, relembrando também seu choque com a fala do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de que a Covid-19 seria "apenas uma gripezinha". Com seus focos de contágio em Montevidéu (capital e maior cidade do país) e Salto (estado cuja principal atividade econômica é a turística), o governo observou a necessidade de aplicação de medidas rápidas para minimizar a propagação do vírus a outros departamentos. Eis as principais ações:

  • Em fevereiro, assim que o número de infectados começou a crescer pelo mundo, o Ministério de Saúde Pública do Uruguai elaborou e divulgou seu plano nacional de contingência para profissionais de saúde e de monitoramento de portos, fronteiras e aeroportos. Ao surgirem os primeiros casos no país, semanas depois, não houve resistência da população em aceitar a imediata suspensão das atividades em lugares fechados, como teatros, museus e shoppings, além do cancelamento de festivais artísticos com alta aglomeração de pessoas, como o Montevideo Rock.
  • A suspensão de aulas nas redes públicas e privadas de todo o país também foi prontamente informada. Através dos recursos do Plan Ceibal, criado em 2007 no governo Vázquez (FA) -- que, entre outras coisas, distribuiu laptops para todos os alunos uruguaios --, as aulas online puderam ser conduzidas sem maiores dificuldades. "Graças a este plano e ao esforço de nossos professores, conseguimos atenuar um pouco o impacto da crise em nossos estudantes", comentou o Ministro de Educação e Cultura, Pablo da Silveira (PN), em entrevista à Rádio Uruguay.
  • O governo propôs o chamado "isolamento voluntário" para comércios e empresas. "Tanto a suspensão das atividades coletivas quanto outras ações, como o controle de feiras de bairro, o fechamento de hotéis e comércios, especialmente os gastronômicos, foram medidas que partiram da ponderação da própria população, e impediram que o vírus se propagasse aqui como se propagou em outros lugares", explicou ao TAB o médico Juan Pablo Césio, ex-diretor do Hospital Regional de Salto e atual diretor de Higiene e Saúde do estado. A realização de testes gratuitos (PCR-RT, com o kit desenvolvido pela Universidad de La República) nos hospitais para todos com suspeita de Covid-19 e o forte sistema de saúde pública uruguaio -- considerado um dos melhores na América Latina -- foram determinantes para conter o avanço da doença.
  • Comércios essenciais instituíram a obrigatoriedade do uso de máscaras e limitaram o acesso a 4 clientes por vez dentro das lojas (no caso de farmácias) ou apenas uma pessoa por grupo (no caso dos supermercados, que suspenderam compras familiares). Também foram abertos horários especiais aos idosos (8h às 11h) e todos os supermercados de grandes redes adotaram os serviços de delivery e encomendas, em que o cliente faz todo o processo pela internet e retira seu pedido na loja.
  • Após o primeiro anúncio de contaminação no país, surgiram também as primeiras ações solidárias por parte da população, de sindicatos e comitês de base. Da organização de cestas básicas -- que também incluem produtos de higiene, brinquedos e livros para as crianças --, às "ollas solidárias" (panelas solidárias), onde voluntários preparam refeições balanceadas para serem distribuídas aos mais necessitados. Cada bairro e instituição, de maneira orgânica, buscou a melhor forma de ajudar seus moradores. "Aqui, agimos desta forma porque é nossa tradição ajudar ao próximo em momentos de crise. Somos apenas 3,5 milhões de habitantes, temos que nos cuidar. Essa é simplesmente nossa maneira de ser, de pensar no coletivo", conta ao TAB a filósofa uruguaia Ximena Ocampos.
  • O Uruguai foi um dos países escolhidos pelo Google e pela Apple para testar o aplicativo de monitoramento e rastreio de contágio de Covid-19. Em caso de resultado positivo para o vírus, o usuário deve inserir este dado em seu perfil. Todos os dias, é gerada uma chave única, que se conecta via Bluetooth a outros celulares com o mesmo aplicativo. Assim, é possível acompanhar se o paciente está cumprindo a quarentena, além de verificar se pessoas do entorno podem ter sido expostas ao vírus.

O novo governo tomou decisões corretas e oportunas, e recebeu da antiga administração um sistema de saúde sólido e capaz de enfrentar uma epidemia deste tipo
Álvaro Villar (FA), neurocirurgião e candidato à prefeitura de Montevidéu

Contendo a morte de pessoas e de empresas

"Não falamos de números, falamos de pessoas. (...) Pedimos às pessoas que não saiam de casa se não for necessário. Sabemos que muitos gostariam de viajar nos próximos dias. Não façam viagens ao interior do país, há muitos lugares onde o vírus não chegou. Vamos fazer isso à maneira uruguaia, com solidariedade, e pensando no bem comum", pedia o presidente Lacalle Pou, em sua coletiva de imprensa em 2 de abril — antes do início da chamada Semana de Turismo (Semana Santa, no Brasil). Enquanto o presidente brasileiro Jair Bolsonaro se questionava se deveria "salvar CPFs ou CNPJs", o governo uruguaio optou por uma ação pública que pudesse amenizar os impactos econômicos derivados da pandemia. Com a criação do "Fondo Coronavírus" (Fundo Coronavírus), aprovado de forma unânime pela câmara uruguaia, o Estado ofereceu o pagamento de seguro-desemprego aos empresários e comerciantes que vissem a necessidade de enviar seus funcionários, excepcionalmente, a esta modalidade durante a crise sanitária. A princípio, a ação terá efeito até junho, podendo ser estendida caso haja necessidade.

Letreiro de Montevidéu na Rambla de Pocitos - Wiki Commons - Wiki Commons
Letreiro de Montevidéu na Rambla de Pocitos
Imagem: Wiki Commons

Dentro das muitas propostas do fundo, está também o aluguel de alguns hotéis que decidiram fechar suas portas durante a crise (pelo valor de US$ 15 mil mensais) para abrigar pessoas em situação de rua — medida que gerou polêmica não pelo seu conteúdo, mas por um de seus beneficiários ser o marido da ex-senadora Verônica Alonso (PN), companheira de partido de Lacalle Pou.

A ideia central do fundo solidário é a captação de recursos para que ele funcione em larga escala. Além da reserva nacional para emergências e doações de empresas e indústrias, a iniciativa se sustenta através de contribuições obrigatórias de todos os funcionários públicos com salários acima de 80 mil pesos uruguaios (cerca de R$ 10.500). O direcionamento de porcentagens específicas e graduais (5% - 10% - 20%) ajuda a diluir entre muitos uma conta que visa beneficiar toda a população. O sistema de porcentagem gradual só não é válido para os políticos e seus assessores, já que todos contribuem, obrigatoriamente, com 20% de seus salários — a taxa mais alta proposta pela medida.

Proteção de fronteiras e respeito à ciência

Embora o fechamento das fronteiras tenha acontecido no final de março, o Uruguai ainda apresenta algumas dificuldades de controle em cidades como Rivera, que faz divisa com o Brasil — e é hoje um dos principais focos de contágio no interior. O Ministro de Relações Exteriores, Ernesto Talvi (PC), vê com grande preocupação a postura "descompromissada" de Jair Bolsonaro, como disse em entrevista ao Canal 4. "Tentaremos reforçar as medidas nas fronteiras, endurecê-las um pouco mais, tentando não afetar a vida binacional desta área", informou.

Além da criação de outros dois postos migratórios sanitários, o estado de Rivera e sua capital homônima também receberão mais ambulâncias e materiais hospitalares.

No país, não há espaço para discussões que já estão encerradas em outras partes do mundo — como o uso da cloroquina no tratamento da Covid-19 ou a "imunidade de rebanho", debatida como medida de contenção no Brasil. Tais opções não chegaram a ser realmente consideradas como medidas de enfrentamento da doença por falta de consenso científico. "Alguns dos países que tentaram aplicar essa 'imunização de rebanho' não têm obtido resultados efetivos no controle do vírus. Pelo contrário, muitos deles tiveram que voltar atrás e endurecer ainda mais as medidas de isolamento", concluiu Césio.