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Quem é o 'ícone do egoísmo' homenageado com outdoors em meio à pandemia

A pergunta "Quem é John Galt?", espalhada por outdoors em Porto Alegre e em Vitória - Instituto Liberdade
A pergunta "Quem é John Galt?", espalhada por outdoors em Porto Alegre e em Vitória Imagem: Instituto Liberdade

Daniel Lisboa

Colaboração para o TAB

21/05/2020 04h00

Em meio ao momento mais crítico (até agora) da pandemia de Covid-19, outdoors com a pergunta "Quem é John Galt?" surgiram nas ruas de Porto Alegre (RS) e Vitória (ES). Nenhum traz a resposta.

John Galt não existe de verdade. Ele é personagem de um dos livros mais conhecidos da escritora Ayn Rand, "Atlas Shrugged" (A revolta de Atlas), de 1957, cujo título na primeira tradução brasileira era esse mesmo, "Quem é John Galt?" -- a pergunta abre o livro e é repetida diversas vezes ao longo da obra.

A escritora russa fugiu de seu país para os Estados Unidos poucos anos depois da revolução de 1917. Lá, trabalhou como dramaturga e roteirista -- e iniciou uma extensa obra que alguns consideram filosófica, outros apenas ficcional. O cerne de seu pensamento, porém, pode ser resumido pela seguinte afirmação: "o único objetivo do homem é o seu próprio interesse. Ninguém deve se sacrificar pelos outros, nem pedir que se sacrifiquem por você. O capitalismo de livre mercado é o sistema econômico ideal". John Galt é tido como um herói, para uns; e para outros, um homem que personifica o egoísmo e o individualismo extremos.

Greenspan, Trump e Amoêdo gostam

"A Revolta de Atlas" traz um futuro em que as pessoas que produzem não aguentam mais um Estado que as oprime com regulações e leis cada vez mais severas. Rand fugiu da União Soviética com ódio do coletivismo e um pensamento totalmente antagônico ao marxismo.

No livro, John Galt é um cara um tanto misterioso que atua para convencer, além dos empresários, outras categorias da sociedade a se rebelarem contra o sistema. "A Revolta de Atlas" é um sucesso absoluto até hoje. Os livros de Rand venderam ao menos 30 milhões de cópias pelo mundo e são inspiração de políticos, pensadores e militantes do liberalismo, da direita e da extrema-direita.

A frase "Who is John Galt?" era usada pelo Tea Party norte-americano durante protestos, em meados dos anos 2000.

Um dos mais importantes seguidores da filosofia de Rand é ninguém menos que Alan Greenspan, ex-presidente do Banco Central Americano. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também já mencionou obras da autora em tom bem elogioso. No Brasil, personalidades como João Amoêdo, fundador do Partido Novo, o jurista Ives Gandra Martins e a economista Ana Paula Vescovi (ex-secretária do Tesouro Nacional) já indicaram a leitura de seus livros.

"Virtude do egoísmo"

Como toda obra, o pensamento de Ayn Rand tem nuances e está sujeito a interpretações filosófico-literárias. É possível estudá-lo sem levar ao pé da letra o que diz a escritora e seus personagens. O problema é que vivemos um momento histórico em que reflexão e interpretação não estão exatamente em alta. Rand defende o que chama de "virtude do egoísmo", que pode ser definida pela seguinte afirmação: "o homem existe para que seu maior propósito moral seja o alcance de sua própria felicidade". "A busca da felicidade", aliás, consta da famosa Declaração de Independência norte-americana, de 1776.

O Instituto Liberdade é o responsável pela campanha com doze outdoors em Porto Alegre. A iniciativa foi inspirada em um grupo de Vitória, que prefere permanecer no anonimato, responsável por espalhar ao menos 50 outdoors.

Roberto Rachewsky, presidente do Instituto Liberdade, diz que a campanha apoia "todos os indivíduos que criam e produzem valor na sociedade nesse momento dramático em que vivemos, estejam eles desempregados ou impedidos de trabalhar pelo governo".

Ele também explica que a iniciativa "visa instigar as pessoas a lerem o livro e as obras de Ayn Rand para verem o que acontece com sociedades em que os indivíduos, profissionais liberais, trabalhadores da iniciativa privada em geral e empreendedores verdadeiros são regulados e taxados de forma extrema, como é o caso do Brasil. Ainda mais com as medidas recentes que beiram o autoritarismo". Por "empreendedor verdadeiro", Rachewsky entende "aqueles que não se valem de relações espúrias com o governo".

Contra o isolamento social

O presidente do Instituto Liberdade é um defensor da imunização de rebanho — aquela que significaria deixar o maior número possível de brasileiros contrair a Covid-19 e que, de acordo com o biólogo Átila Iamarino, resultaria, na "melhor" das hipóteses, em 900 mil brasileiros mortos. Cientistas e instituições respeitadas de todo o mundo pensam basicamente o mesmo: em países que não conseguem testar a população de forma massiva (quase ninguém consegue, já que os insumos são disputados por todo o mercado internacional), imunização de rebanho é sinônimo de catástrofe.

Para Rachewsky, a solução seria "colocar infectados em quarentena observando testes e sintomas. Quem não quiser sair às ruas não pode ser obrigado, mas quem quiser e não estiver infectado ou já estiver imune, não pode ser impedido".

O Brasil é um dos países que menos testam sua população. De acordo com dados do site WorldMeters colhidos em 20 maio, o país realizava em torno de 3.462 testes por milhão de habitantes. O Irã, por exemplo, fazia 8.719. Portugal já aplica 66.079 testes a cada milhão de habitantes.

'Egoísmo racional'

Ex-professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e estudioso da obra de Ayn Rand, Eduardo Chaves avalia que "o uso do slogan 'Quem é John Galt?' num campanha contra o isolamento social dificilmente será eficaz, porque a maior parte das pessoas desconhece o personagem".

Chaves também é contra as medidas de isolamento social, por "ferirem frontalmente a liberdade das pessoas e ostensivamente atentar contra a Constituição Brasileira, apesar do que o STF (Supremo Tribunal Federal) possa dizer". O estudioso, que hoje se define como um "libertário anárquico", mantém um blog e uma página no Facebook sobre a escritora, chamados "Ayn Rand Space".

"Sim, Ayn Rand defende o individualismo e egoísmo racional do indivíduo", diz Chaves. "Mas são doutrinas filosóficas que existem desde o início da filosofia, com os gregos, 2.500 anos atrás. As teses dela não são exacerbadas. Ayn Rand se vê como discípula de Aristóteles, cuja ética é calcada na defesa e promoção individual dos interesses racionais, que é a única forma de alcançar realização pessoal e profissional. Aquilo que os gregos chamavam de eudaemonia."

Darwinismo social

O professor de filosofia da Unimes (Universidade Metropolitana de Santos), Ricardo Mendes Machado, escolheu um tema curioso par estudar: comparar Ayn Rand ao escritor inglês Clive Barker, autor do clássico "Hellraiser: renascido do inferno", aquele do Pinhead, o monstro com um monte de alfinetes enfiados na cabeça. Tanto o filme quanto o livro são repletos de cenas de violência extrema.

Para Machado, o estilo de vida representado por Frank, protagonista da obra, traz uma possibilidade supostamente 'imoral' de experimentar a realidade. Qual outro personagem fez isso, muito antes de Frank? Segundo o professor, John Galt.

O estudioso enxerga várias questões filosóficas válidas na obra de Rand. Como já foi dito, o problema é o uso que se pode fazer delas no mundo real. "No contexto do romance, John Galt representa a iniciativa individual, a luta pela liberdade e autorrealização", diz ele ao TAB. "A proposta da Ayn Rand é uma ode ao neoliberalismo. O que você vê agora, porém, é um discurso mais perigoso e agressivo. É a espécie de um impulso para o combate, ao menos no plano das ideias."

O professor concorda que, a depender da maneira como é lida, a obra de Ayn Rand pode ser perigosa, com o risco de cair na legitimação de um certo darwinismo social. "Procuro fazer uma compreensão apolítica da proposta dela, como faço com outros autores. Marx, por exemplo. O que ela propõe a princípio é uma hermenêutica de conceitos. Uma leitura tendenciosa ou, digamos, aplicada na prática, leva sim à beligerância, como costuma acontecer com qualquer ativismo."

Machado lembra que não faltam obras que servem de embasamento para a violência, caso seus leitores assim as interpretem. A Bíblia e o Alcorão, por exemplo, justificaram as Cruzadas e os horrores perpetrados pelo Estado Islâmico. "Compreendo e concordo com algumas coisas que Ayn Rand defende. O que ela faz é uma releitura dos conceitos de altruísmo e egoísmo. O que o pessoal faz, porém, é usar essa filosofia para legitimar um discurso político. É aí que mora o perigo."