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Como a filosofia explica a cultura da lacração e da mitagem na internet

17.jan.2019 - Olavo de Carvalho - Vivi Zanatta/Folhapres
17.jan.2019 - Olavo de Carvalho Imagem: Vivi Zanatta/Folhapres

Edison Veiga

Colaboração para o TAB, de Bled (Eslovênia)

09/05/2020 04h00

Mora na filosofia o argumento que prova por A+B, lacrando, mitando ou cancelando quem ousar discordar: nas redes sociais, todos parecemos discípulos de Olavo de Carvalho. Não interessa muito se você é de direita, de esquerda ou se encerra qualquer debate com "não discuto política". O debate público no ambiente digital é gritaria e dedo em riste.

No livro "Tormenta", sobre o primeiro ano do governo Jair Bolsonaro, a jornalista Thaís Oyama, colunista do UOL, afirma que o "maior legado de Carvalho às redes sociais" é a "ferramenta hoje usada à farta pelo bolsonarismo raiz: o ataque abaixo da linha da cintura". Lembrando que o guru é "estudioso da erística", ela diz que ele ensina seus alunos — muitos deles hoje membros do governo — "como neutralizar inimigos com chutes na canela e sem dor na consciência".

A chave para compreender esse fenômeno está numa expressão que parece complicadíssima: erística dialética. É algo que nasceu muito antes de Mark Zuckerberg. "A erística estava nos debates envolvendo o nascimento da filosofia que nós conhecemos, na Grécia antiga", diz ao TAB o historiador, teólogo e filósofo Gerson Leite de Moraes, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. É um tipo de discurso que tem por finalidade a vitória no debate — um recurso muito utilizado pelos sofistas.

Sobre quem são esses sofistas, a gente já chega lá. Antes, é preciso viajar no tempo para entender como um conceito da Antiguidade clássica foi recuperado pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) e se tornou modus operandi de internautas contemporâneos, incentivados ou não pelo astrólogo brasileiro radicado nos EUA.

Busto de Polemon de Laodiceia, filósofo sofista grego - Zde/ Wikicommons - Zde/ Wikicommons
Busto de Polemon de Laodiceia, filósofo sofista grego
Imagem: Zde/ Wikicommons

Espera, erística é o quê? A erística é quase um jogo de cena: é uma forma de argumentação que encobre a tese ou adia a sua apresentação, uma vez que a intenção não é provar um determinado argumento, mas confundir, cansar e vencer o oponente num diálogo. O nome deriva de Éris, a deusa da discórdia na mitologia grega. Quando o termo foi cunhado pela filosofia, os sofistas eram especialistas nessa arte argumentativa visando ao convencimento.

Lacração grega. Os sofistas eram conhecidos pela capacidade de influenciar, pela arte e pela retórica. No momento da consagração da democracia ateniense, essa era uma estratégia utilizada pelos políticos e pela elite que tinha dinheiro, preparando os filhos da aristocracia para que eles pudessem conseguir vitórias nesses debates. Os sofistas cobravam taxas para instruir essa gente toda — tudo bem, era como se estivessem dando aulas particulares. Seriam eles os primeiros bots ou os primeiros influencers? A se pensar.

Como vencê-los? O contraponto dos sofistas era o diálogo filosófico, "perpetrado por Sócrates, Platão, Aristóteles e toda a tradição ocidental, a tradição do diálogo, que busca chegar a um consenso, a uma verdade através do diálogo", pontua Moraes. Enquanto a erística almejava a vitória a qualquer preço, o diálogo busca o fundamento da verdade. Platão, em sua obra, explica o método de Sócrates: enumerar os pontos, acuando-os em sua própria argumentação, lançando mão de ironia e maiêutica. "Geralmente, é aí que o sofista apela, quando vem todo o xingamento. Essa é uma marca do grupo do Olavo de Carvalho", exemplifica.

Onde entra o alemão? "Schopenhauer estava interessado no discurso como meio de representação [no sentido de atuação]. Para ele, não era possível, através da argumentação racional, chegar à verdade. Por isso, recorria-se à erística antiga", explica ao TAB o filósofo Luiz Armando Bagolin, professor da USP (Universidade de São Paulo). Olavo de Carvalho não esconde seu apreço pela ideia, mas ele foi mirar esforços justamente em anotações que nem o próprio Schopenhauer apreciava — tanto é que permaneceram inéditas e sem título até sua morte. As notas compiladas entraram na obra "Dialética Erística", que virou "A arte de ter razão", e, finalmente, "Como vencer um debate sem precisar ter razão" — edição prefaciada e comentada pelo próprio Olavo de Carvalho.

Defesas e ataques. "Nas palavras do Olavo, erística dialética é 'a arte do debate malicioso'", diz ao TAB o jornalista Denis Russo Burgierman, que escreveu uma reportagem sobre o curso online oferecido pelo guru da neodireita brasileira. "O livro traz 38 'estratagemas' para ganhar um debate, independentemente de se estar certo. Na introdução do livro, Olavo alega que publica a obra para 'defesa', não para o 'ataque'. Seu objetivo seria munir os leitores de conhecimento para se protegerem desses artifícios. Olavo não fala muito desse livro em suas aulas, mas o fato é que é possível identificar cada um dos estratagemas em seus textos e vídeos. Ele faz tudo o que Schopenhauer descreve."

Desqualificando o adversário. Burgierman enfatiza o último dos 38 estratagemas de Schopenhauer, o "argumentum ad hominem", ou "ad personam", que é atacar, ofender o interlocutor, em vez de contestá-lo. "Vi essa recomendação explícita aos alunos. 'Não puxe discussão de ideias. Investigue alguma sacanagem do sujeito e destrua-o." Essa, veja só, também parecia ser a norma de Lênin, revolucionário marxista e líder da Revolução Russa: nós não discutimos para provar que o adversário está errado. Discutimos para destruí-lo socialmente, psicologicamente, economicamente.

Volta: Lênin também? Há controvérsias, mas Burgierman acha que sim. "Ataques pessoais eram praxe no regime soviético — no caso, era mais que ganhar debates, era um exercício do poder." Existe até uma frase, frequentemente atribuída a Lênin: "acuse seu inimigo daquilo que você é" (ou variações). Gerson Leite de Moraes pensa que não. "Ele [Lênin] se insere na chave do materialismo dialético e não na dialética erística. Não o colocaria no quadro do discurso erístico", aponta. Mas é o filósofo Fernando de Sá Moreira, professor da UFF (Universidade Federal Fluminense), quem lacra o debate: todo mundo é um pouco adepto da erística e isso pode acontecer até de forma inconsciente. "Lênin usava recursos erísticos de debate, como qualquer um. O que não sei afirmar é se ele conhecia ou desenvolvia uma dialética erística 'teórica', ou seja, um estudo consciente das técnicas de convencimento, como fez Schopenhauer."

Debates sem fim. O saldo da erística está nas redes sociais: insultos sem fim, como se cada interlocutor habitasse seu próprio universo. "Terminei o curso do Olavo com um imenso cansaço diante da constatação de que não há limite para a capacidade de prosseguir um debate só para ter razão. Ando me questionando muito sobre a eficácia da lacração", comenta o jornalista.