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Gripe de Hong Kong matou um milhão de pessoas e chegou ao Brasil em 1969

Funcionários do jornal Denver Post tomam vacina contra a gripe asiática em novembro de 1957 - Getty Images
Funcionários do jornal Denver Post tomam vacina contra a gripe asiática em novembro de 1957 Imagem: Getty Images

André Bernardo

Colaboração para o TAB

19/05/2020 04h00

"Atenção, eis seu inimigo!". A manchete ao lado estampava a primeira página da edição do jornal Folha de S.Paulo do dia 9 de abril de 1969. O tal "inimigo público nº 1" era de origem asiática. Foi identificado, pela primeira vez, em julho de 1968 na cidade de Hong Kong, na China. Em pouco tempo, invadiu outros países, como Singapura, Vietnã e Malásia. Três meses depois, em outubro de 1968, chegava à costa oeste dos Estados Unidos. Lá, estima-se, tirou a vida de 100 americanos — a maioria deles acima dos 65 anos. De lá, migrou para a Europa e América do Sul. Até hoje, não se sabe ao certo o número total de mortos. Os números variam de 700 mil a 1,2 milhão de vítimas.

O vilão citado pelo jornal Folha de S.Paulo não era um terrorista ou narcotraficante. Era um vírus, o H3N2, responsável pela gripe de Hong Kong. "O H1N1, o H2N2 e H3N2 são todos membros de uma mesma família, a influenza", explica ao TAB a infectologista Elisa Miranda Aires, do Instituto Emílio Ribas e do DaVita Serviços Médicos. "Cada um desses subtipos deu origem a uma pandemia diferente: a gripe espanhola (1918-1919), a gripe asiática (1957) e a gripe de Hong Kong (1968-1969), a terceira e última pandemia de gripe do século 20."

Das três pandemias, a mais devastadora foi a da gripe espanhola. Em apenas dois anos, infectou 40% da população mundial e matou em torno de 50 milhões de pessoas. Seu índice de mortalidade, ou seja, o percentual de pessoas infectadas que foram a óbito, oscilava de 2% a 2,5% nos EUA. A título de comparação, as taxas de mortalidade da gripe Asiática e da gripe de Hong Kong nos EUA eram bem mais brandas: entre 0,2% e 0,5%, e 0,1%, respectivamente. O infectologista Stefan Cunha Ujvari, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e autor do livro Pandemias - A Humanidade em Risco (2011), explica que uma nova pandemia surge quando um vírus influenza desconhecido ao homem começa a disseminar entre humanos.

Os vírus e suas mutações

Mas, como esse novo vírus surge? De duas maneiras: "A primeira pode ocorrer por mutação no vírus presente nas aves, com capacidade para atingir o homem e se disseminar. Neste caso, a mortalidade é maior por ser um vírus desconhecido", afirma o médico, citando o caso da gripe espanhola (H1N1). "A segunda maneira ocorre quando o material genético do vírus, presente no homem, se mistura ao material genético presente nas aves ou no porco. Pelo fato de não ser totalmente desconhecido ao homem, a mortalidade foi menor", conclui. Foi o que aconteceu, por exemplo, na gripe asiática (H2N2), na gripe de Hong Kong (H3N2) e, mais recentemente, na gripe suína (H1N1).

O vírus influenza, agente causador da gripe, pode ser dividido em três tipos: A, B e C. Desses, o A é o mais severo; ataca humanos, aves e porcos. Por essa razão, tem maior potencial epidêmico. O H3N2 é um subtipo do influenza A e circula no mundo desde 1968, quando foi isolado (isto é, identificado laboratorialmente) em Hong Kong. O H do H3N2 é a inicial de hemaglutinina e o N, de neuraminidase. Esses são os nomes das moléculas que formam a estrutura do RNA do vírus. Ao todo, existem 15 tipos de hemaglutinina e nove de neuraminidase. São múltiplas as combinações: H1N1, H2N2, H3N2 e assim por diante.

"Alguns subtipos do influenza A, como H5N1, H7N9 e H10N8, também podem infectar humanos e causar doenças graves", alerta a médica veterinária Lígia Maria Cantarino da Costa, professora da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da UnB (Universidade de Brasília).

Por que a China?

Muitas pandemias têm origem na China, porque é um país que combina grande concentração de pessoas com animais reservatórios da doença, como aves (galinhas, patos e gansos) e porcos. A gripe de Hong Kong teria surgido, segundo cientistas, na província de Guangdong, que tem 86,4 milhões de habitantes. "Foi observada uma incidência de 40% na faixa de 10 a 14 anos, com maior hospitalização e mortalidade entre idosos, jovens e indivíduos com riscos como doenças cardiopulmonares", completa Cantarino.


A gripe de Hong Kong chegou ao Brasil em janeiro de 1969, quando foi isolada por pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo. "Tremores de frio, febre e falta de apetite são sintomas da gripe que está castigando várias capitais do mundo", noticiou o jornal Folha de S. Paulo do dia 4 de janeiro.

Uma das primeiras providências tomadas pelo Ministério da Saúde foi exigir que todo brasileiro que estivesse com viagem marcada para o exterior, especialmente aos EUA, fosse vacinado. Sem imunização, o visto não seria concedido. Além disso, o Serviço de Saúde dos Portos passou a exercer rigorosa fiscalização para impedir a entrada no país de portadores da doença. A julgar por outra notícia publicada na própria Folha, de 2 de abril, a fiscalização não foi tão rigorosa assim: turistas americanos que visitaram o Mato Grosso contaminaram 400 dos três mil índios do Parque Nacional do Xingu.

"Nenhum caso fatal foi registrado até agora e o surto já está totalmente controlado", tranquilizou o então ministro do Interior, José Costa Cavalcanti (1918-1991). Ao constatar os primeiros casos da doença, o superintendente do Parque Nacional do Xingu, o sertanista Orlando Villas-Boas (1914-2002), isolou os indígenas doentes e mandou vacinar os demais. "Toda e qualquer notícia sobre a gripe de Hong Kong demorava a chegar aos países ocidentais. Só ficávamos sabendo de algo quando o Japão ou a Coreia do Sul noticiavam", relata Aires.

Na população em geral, a gripe de Hong Kong não causou maiores estragos. "Os casos registrados em São Paulo foram, segundo técnicos do Instituto Adolfo Lutz e da Secretaria de Saúde de São Paulo, de caráter benigno", divulgou o jornal O Globo, de 10 de abril de 1969. "Os sintomas são semelhantes ao do resfriado comum, sendo recomendado para o pronto restabelecimento das pessoas atacadas, repouso e medicamentos à base de aspirina e vitaminas".

O infectologista Alberto Chebabo, do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e consultor do Laboratório DASA, relata que, na época, muitas pessoas contraíram a doença, mas, por apresentarem sintomas leves, não chegaram a ser hospitalizadas.

Não existia biologia molecular e toda essa capacidade de realizar exames que temos hoje. Não era possível detectar o vírus tão rapidamente. Basicamente, só os casos mais graves foram detectados.
Alberto Chebabo, infectologista

Por essas e outras, medidas mais rígidas de distanciamento social ou drásticas como fechamento de comércio não chegaram a ser tomadas pelas autoridades. "Por ter uma mortalidade menor que a gripe espanhola, a gripe de Hong Kong causou menos pânico na população", complementa Stefan Cunha Ujvari.

O vírus H3N2 não foi erradicado da face da Terra. Pelo contrário. Continua entre nós, circulando no mundo inteiro, como um vírus sazonal da influenza A. No Brasil, a vacina contra a gripe já tem o H3N2 em sua composição, além do H1N1 e de uma cepa do tipo B. "O ser humano adquiriu uma imunidade parcial ao H3N2. Ele pode até adoecer, mas a doença não evoluirá para formas graves", explica Chebabo.