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Com a pandemia de Covid-19, o que será da economia compartilhada?

Espaços de coworking estão sentindo o impacto da crise, mas alguns já vêm adotando novas medidas para proteger a saúde dos frequentadores - Cowomen/Unsplash
Espaços de coworking estão sentindo o impacto da crise, mas alguns já vêm adotando novas medidas para proteger a saúde dos frequentadores Imagem: Cowomen/Unsplash

Luiza Pollo

Colaboração para o TAB

15/05/2020 04h00

Ter menos posses e alugar, emprestar, dividir mais. A economia do compartilhamento ou economia compartilhada, que vinha crescendo há pelo menos uma década como alternativa para uma geração que já não queria (e nem tinha as condições financeiras para) comprar um carro, uma casa própria, pagar estadia em hotéis, mas ainda queria usufruir de algum conforto, parece agora um contrassenso.

Quem vai querer compartilhar uma carona com alguém que more em outra casa? É seguro usar a lavanderia coletiva do prédio? E um espaço de coworking, sentando a poucos metros de distância de quem você nem conhece — e muito menos sabe se está se cuidando para não pegar e transmitir o novo coronavírus?

À primeira vista, pode parecer que a pandemia de Covid-19 vai causar um baque nessa tendência que, segundo a consultoria PwC, movimentaria aproximadamente US$ 335 bilhões anuais até 2025, ante US$ 15 bilhões em 2014, quando a pesquisa foi feita. De certa forma, o impacto negativo já é perceptível. Serviços que se dizem parte desse movimento, como Airbnb e Uber, já viram seus faturamentos diminuírem consideravelmente.

Por outro lado, a economia compartilhada vai bem além disso, ressalta Iza Dezon, consultora e professora de um curso de Coolhunting e pesquisas de macrotendências da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado). "Sim, compartilhar recursos deve ficar mais complicado, mas a economia compartilhada vem da ideia de que, se nós unirmos forças, temos capacidade de fazer mudanças mais consistentes. Vem dessa crença de que eu mais você somos capazes de fazer coisas que não conseguiríamos sozinhos", explica.

A ideia de reinvenção do sistema econômico por meio da oferta direta de serviços ou produtos está na base da economia compartilhada, e ela tem espaço para crescer com a crise exatamente por estarmos em um momento de repensar nosso conceito de comunidade, aponta a especialista.

Aliás, exemplos como Airbnb e Uber são, para Dezon, pouco representativos da tendência do compartilhamento, pois não cumprem o propósito de redesenhar um modelo econômico — apenas oferecem novos serviços que acabam servindo à mesma lógica anterior. Se a Uber surgiu com a ideia de motoristas compartilharem seus trajetos do dia a dia com estranhos e o Airbnb tinha a proposta de gerar uma renda extra a alguém com um quarto sobrando ou que ficava com a casa sem ocupação nas férias, atualmente não é mais assim.

É bem mais comum encontrar carros alugados por trabalhadores que são motoristas do app em tempo integral e estúdios em grandes cidades comprados e decorados com o único propósito de hospedagem pelo site. Em outras palavras, não são bens compartilhados, são apenas novas configurações de mercados já existentes, mas agora com intermédio de aplicativos.

As plataformas colaborativas são produto da crise de 2008. Elas nasceram com o intuito de propor novos modelos socioeconômicos e esta cultura está sendo levada para empresas, instituições e, principalmente, para a Internet. As fronteiras e princípios dos negócios em termos de preço, trabalho e serviço, estão mudando a tal ponto que muitos apontam como o inicio da era pós-capitalista. Segundo Michel Bauwens, fundador da P2P Foundation, estamos rumo a novas infraestruturas e sistemas de valor. A comunidade e a força das conexões tornam-se novos drivers para ecossistemas cooperativos e um futuro mais 'aberto' e decentralizado. A economia colaborativa tem como principal característica a diversificação de termos e regras. Já está claro que ela só terá êxito quando sua abordagem for mais humana, com respeito e desejo de colaboração mútua, gerando assim uma inteligência coletiva dentro das comunidades que estão emergindo. Como disse Rachel Botsman em seu primeiro TED: "Paramos de confiar em instituições e começamos a confiar em estranhos." Trata-se de identificar como o talento de cada pessoa pode contribuir para um todo e valorizar o capital humano como um ativo intransferível que todos possuem. Hoje, as pessoas estão em busca de realização pessoal, remuneração justa por sua contribuição e expressão livre de suas ideias. Tais prioridades, fazem das relações um elemento-chave no mundo dos negócios. Mais infos nos destaques. Acompanhem #40diasdisruptivos todo dia no meus stories! Special thanks to @rbidaultwaddington @emmafric

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Reinvenção

O próprio conceito de economia compartilhada como conhecemos hoje — principalmente envolvendo a tecnologia nas transações de serviços ou produtos peer to peer, ou seja, diretamente de uma pessoa para outra — surgiu em uma crise.

"Era algo que já existia, mas que foi ganhar corpo a partir de 2008. Foi com essa questão da crise que ganhou força a ideia de 'não preciso investir, posso simplesmente alugar e compartilhar'", afirma Anapaula Iacovino, economista e também professora da Faap. "Começa até a haver uma mudança cultural, sai um pouco daquela ideia de propriedade, e percebo que não preciso ter algo para usufruir."

Tanto Iacovino quanto Dezon lembram que a crise gerada pela pandemia terá consequências graves na economia do mundo todo, e que a ideia não é romantizar um momento complicado. Mas elas ressaltam que há espaço para novas ideias.

Dezon cita como exemplo o coliving (compartilhamento de moradia) e os cursos online de professores independentes como dois serviços da economia compartilhada que se destacam nesse momento. Já Iacovino traz um exemplo do próprio prédio onde vive: lá, os moradores se reuniram em um grupo de WhatsApp para fazer compras em conjunto e reduzir os custos. Quando a OMS (Organização Mundial da Saúde) passou a recomendar o uso de máscaras, diversos condôminos decidiram comprar o produto de uma só costureira independente, e conseguiram desconto. Os exemplos são dos mais diversos, provando que tem muita gente conseguindo manter o ideal de coletivo em voga, ressaltam as especialistas.

As bicicletas compartilhadas, que viraram um dos símbolos da economia do compartilhamento, são um exemplo de serviço que pode até ganhar força - Mika Baumeister/Unsplash
As bicicletas compartilhadas, que viraram um dos símbolos da economia do compartilhamento, são um exemplo de serviço que pode até ganhar força
Imagem: Mika Baumeister/Unsplash

Trabalho

Uma tendência de compartilhamento que vinha crescendo antes da pandemia e, ao que tudo indica, pode se adaptar e até ganhar força, é a do coworking. A plataforma Coworking Brasil, que reúne informações sobre esses espaços no país desde 2015, registrou um crescimento de 25% de 2018 para 2019 nesse mercado.

Por enquanto, os espaços desse tipo no Brasil estão sentindo os reflexos da pandemia e dois em cada três estão fechados, também segundo a Coworking Brasil. No entanto, com as mudanças no regime de trabalho trazidas pela pandemia, principalmente com o trabalho remoto, há espaço para crescimento.

Rogério Cruz, arquiteto de projetos de arquitetura corporativa, afirma que uma das tendências é que nem todos os trabalhadores voltem a frequentar o escritório ao mesmo tempo. O open space — escritórios abertos, sem divisão de salas — tinha virado praticamente regra, mas o contato mais próximo entre funcionários, valorizado do ponto de vista da transparência das relações de trabalho, se mostra como um risco para a saúde em um momento como este. A tendência é, portanto, diminuir a densidade de pessoas no escritório para evitar a transmissão do vírus. Mas isso exige a realocação de funcionários, e, sem um local ideal para trabalhar em casa, muita gente pode preferir o coworking.

"A gente tem trabalhado o layout [dos escritórios] para deixar o ambiente menos denso. Por exemplo, você pode ter uma estação de trabalho com funcionário, e outra não, intercalando", explica o arquiteto. "Mas aí a empresa precisa realocar as pessoas, e muitas já estão aumentando a frequência do home office. Isso abre espaço para a empresa estabelecer parcerias com espaços de coworking, se ela quer diminuir a densidade de pessoas, mas não quer reestruturar o espaço."

A partir daí, cabe também aos coworkings oferecer novas soluções para preservar a saúde de quem frequenta os espaços, como tem feito a WeWork. Estações muito próximas e rotativas, usadas por diferentes pessoas em diferentes turnos, precisarão ser repensadas.

Mobilidade

Com mais gente trabalhando em casa ou em espaços de coworking (possivelmente mais perto de onde moram), a tendência é que o transporte público também desafogue um pouco. Se as mudanças serão suficientes para acabar com a lotação dos trens, metrôs e ônibus, é difícil dizer, mas o transporte compartilhado pode parecer mais assustador daqui para frente.

Dezon ressalta o aumento na preferência pelas bicicletas, um dos artigos que ganharam mais destaque na economia do compartilhamento. Nova York, por exemplo, viu um crescimento de aproximadamente 67% no número de viagens com as bicicletas do Citi Bike entre os dias 1 e 11 de março.

Ainda é cedo para cravar, mas os carros também podem voltar a ganhar força com o fim das medidas de isolamento, já que a tendência é se sentir mais seguro no transporte individual. No entanto, Iacovino, da Faap, lembra que um dos pilares da economia compartilhada é a sustentabilidade, e isso não deve desaparecer com facilidade. "Ganhou força o tripé da sustentabilidade: econômico, ambiental e social", afirma. Se depender disso, a economia do compartilhamento ainda tem muito a crescer.

"Se o cenário pós-pandemia for mais seguro — com vacina e um medicamento eficaz —, a tendência é que a economia compartilhada retome o curso com mais rapidez", avalia ela. "As pessoas vão recuperar a confiança e vão retomar naturalmente essa coisa que é intrínseca do ser humano, que é a vida em sociedade."

A economia colaborativa estará à beira de uma transformação? Ao que tudo indica, o sistema adotado como uma alternativa econômica mais justa está em processo de metamorfose. Apesar das falhas e dos desafios que enfrenta, os sistemas compartilhados estão aprendendo com os seus erros, reinventando-se e criando um novo amanhã, economicamente mais sustentável e transparente. Seja em escala familiar, rural ou megalópole, indivíduos estão cada vez mais interessados em autossuficiência e modelos econômicos autônomos, que otimizam a independência, revitalizam os centros urbanos e questionam o papel de intermediários. Há também o crescente sucesso dos sistemas agrícolas ecológicos, do contexto urbano à permacultura. Depois de espalhar-se pela Europa, as ecovilas estão sendo exportadas. Pela administração direta de energia e materiais à agricultura local, elas são essenciais às comunidades sustentáveis e autossuficientes. Além de ser uma ação liderada por cidadãos, é uma promessa dos novos processos democráticos que impulsionam esse movimento global. A permacultura é um sistema sustentável e ecológico que está rapidamente ganhando espaço e estabelecendo novos padrões de produção e consumo dos alimentos. Depois de por em ação a ideia de uma "sociedade ideal" estruturada pelos pilares de compartilhar e solidariedade, a economia colaborativa precisa evoluir os conceitos e estratégias para monetizar seus bens e serviços - um sinal claro de que o lucro permanece sendo prioridade. Porém, o fato de ser um mercado sem regulamentação e ter uma estrutura de custo desvinculada da qualidade tangível, estabelecer um preço justo, pode ser a única alternativa que garanta o sucesso deste modelo, por hora. Mais infos nos destaques. Acompanhem #40diasdisruptivos todo dia no meus stories! Special thanks to @el_colectivo_loco @emmafric

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