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Como a cafeína levou ao Iluminismo e moldou o ambiente de trabalho moderno

Chris Benson/Unsplash
Imagem: Chris Benson/Unsplash

Luiza Pollo

Do TAB

02/05/2020 04h00

Há muita gente fazendo home office. Foi preciso arrumar um canto em casa para colocar o computador, a agenda e também a xícara de café. Mesmo fora do escritório, nosso hábito de consumir cafeína durante o trabalho dificilmente muda. A droga psicoativa mais consumida no mundo é, afinal, o que move a muitos e dá energia para produzir.

Aqui no Brasil, a cafeína costuma ser consumida no café — muito mais do que no chá ou em refrigerantes, por exemplo. Quem está acostumado ao cafezinho diário sabe bem que dificilmente fica restrito a uma xícara por dia. Primeiro, é o café da manhã. Mais tarde, aquele copinho depois do almoço para voltar à atividade. Das garrafas térmicas às máquinas automáticas de espresso em cápsula, é difícil encontrar um local de trabalho que não ofereça uma opção cafeinada para recarregar e socializar com os colegas. Em casa, a ida à cozinha pode virar um ritual de pausa e preparação da bebida.

Quando pesquisamos mais a fundo essa relação, descobrimos que ela não ocorreu por acaso. Cafeína e produtividade andam juntas, e os patrões sabem disso há décadas, disponibilizando gratuitamente esse tempo de "descanso" aos trabalhadores com a intenção de deixá-los mais despertos e concentrados. Essa droga se liga diretamente ao ambiente de trabalho como conhecemos hoje.

Sem cafeína, sem capitalismo. Não fosse a cafeína, o mercado de trabalho não teria a cara que tem hoje, crava o jornalista Michael Pollan em seu recente audiolivro "Caffeine" (ainda sem versão em português). Aliás, ele vai mais longe ao dizer que talvez nem mesmo o capitalismo tivesse muita chance de dar certo sem a adição da molécula C8H10N4O2 no nosso dia a dia. A substância psicoativa é fortemente ligada "ao processo cognitivo focado, linear, abstrato e eficiente", diz o autor. "É isso, mais do que qualquer outra coisa, que fez da cafeína a droga perfeita não apenas para a era da razão e do Iluminismo, mas para a ascensão do capitalismo também."

Ideias mais claras, trabalho mais focado. Para entender de onde Pollan tira essa conclusão, precisamos voltar alguns séculos. Quando a cafeína chegou à Europa, vinda do mundo árabe no século 17, o consumo de álcool era tão comum que ocorria mesmo durante o trabalho, conta o autor. Mas a embriaguez deixava os trabalhadores menos focados — o que não era um problema tão grande quando as funções ainda não exigiam tanto da mente. Não dá para dizer o que veio antes: a cafeína ou a cultura do trabalho regrado, focado e intelectual, mas Pollan arrisca: "O café e o chá [cafeinado] trouxeram uma mudança mental, afiando mentes que estavam turvas pelo álcool, libertando as pessoas dos ritmos naturais do corpo e do sol. Fazendo, assim, com que fossem possíveis trabalhos totalmente novos e possivelmente novos tipos de pensamento também."

'Cool' desde a criação. Intelectuais veneravam a nova droga — Balzac, autor francês do século 19, supostamente bebia 50 xícaras por dia, número hoje considerado absurdo e motivo de piada. Pollan arrisca dizer que parte do motivo se deve ao hype de todo novo psicoativo, mas não só. Em oposição às tabernas — ambientes com álcool, discussões de bar e a balbúrdia que você pode imaginar que os ingleses do século 17 faziam —, as cafeterias de Londres eram locais de discussão intelectual elevada. Com o passar dos anos, cada uma delas foi ficando conhecida por ser centro de um debate específico: enquanto os comerciantes e homens interessados em frotas de navios iam à Lloyd's, os corretores de seguros se reuniam na Jonathan's, que futuramente faria nascer a bolsa de valores de Londres e a London School of Economics.

Iluminismo e Revolução Industrial. Talvez você já tenha pensado nisso a essa altura da reportagem, mas vamos deixar mais claro: o Iluminismo é um movimento do final do século 17 que ganha força no século 18. Coincidência? Pollan e outros pesquisadores afirmam que não. Como já vimos, a cafeína ajudou a limpar as mentes inebriadas pelo álcool, reuniu grupos de intelectuais para conversas civilizadas em espaços comuns e permitiu uma nova organização de trabalho. Caldo perfeito para o desenvolvimento de um movimento cultural baseado nos debates e na intelectualidade. Além disso, o caminho estava aberto para a Revolução Industrial a partir do século 18. Era quase impensável um turno da madrugada antes da cafeína. Aliás, o "turno" costumava respeitar o movimento do sol — quando muito, as horas. Com a industrialização, o trabalho foi para o ambiente fechado, e os turnos começaram e ficar mais bem definidos, já que nem todo mundo precisava trabalhar ao mesmo tempo respeitando o relógio biológico. "O café e o ponteiro dos minutos nos relógios chegaram quase que no mesmo momento histórico", observa Pollan em "Caffeine". A partir daí, era possível manter uma fábrica funcionando 24 horas por dia, se necessário. Teria alguém acordado para acompanhar a produção.

Pausa para o cafezinho. Levantar da mesa para tomar um café e recuperar a atenção ou chamar um colega para compartilhar esse momento de sociabilidade são parte da rotina de qualquer escritório no século 21 — mesmo no home office, levantar para preparar um cafezinho é um ritual —, observa Miriam Rodrigues, professora de Gestão de Pessoas da Universidade Presbiteriana Mackenzie. "É um elemento de aproximação entre as pessoas nos nossos trabalhos cada vez mais virtuais. 'Vamos tomar um cafezinho?' indica que quero compartilhar uma questão de trabalho ou pessoal, contar alguma coisa para um colega. Ou então o cafezinho é uma pausa para respirar", avalia a especialista. Mas nem sempre foi assim. Patrões demoraram a pesar os prós e contras de permitir que os empregados usassem tempo pago de trabalho para consumir cafeína. "Só foi no final dos anos 1950 que o conceito moderno de pausa para o café — café de graça e tempo pago para isso — virou uma instituição totalmente estabelecida e legalmente reconhecida no ambiente de trabalho americano", relata Michael Pollan. A história melhor aceita para o início do "coffee break" é a de uma empresa que começou a servir café aos funcionários ao perceber que eles realizavam as mesmas tarefas em menos tempo quando consumiam a bebida. No entanto, o empregador foi processado por descontar esse tempo da folha de pagamento. A Justiça decidiu em favor dos trabalhadores, observando que a empresa se beneficiava da pausa oferecida aos funcionários.

Café no trabalho e trabalho no café. Quem trabalha em casa também prepara seu próprio cafezinho para acompanhar o trabalho. Mas, quando dá para sair, muita gente vai além e faz da cafeteria seu "home office". Isabela Raposeiras, dona do Coffee Lab, em São Paulo, estima que 90% dos clientes durante a semana estejam lá para trabalhar. "As pessoas estão elegendo cada vez mais as cafeterias como espaços de coworking, seja para trabalhar sozinhas ou mesmo fazer reuniões", observa. No Coffee Lab, as mesas são compartilhadas, então Raposeiras afirma que não se incomoda com aqueles que passam algumas horas por lá e só consomem um espresso: "Eu não acho ruim. Temos que olhar para o fato de que é uma tendência. Tem que acolher essas pessoas e fazer com que o negócio seja inteligente, para não frustrar o cliente e ao mesmo tempo ganhar dinheiro."

Ligados e frenéticos. Wi-Fi, tomadas, ambiente confortável e descolado fazem dos cafés locais acolhedores para o trabalho, mas é difícil não relacionar essa tendência ao início de tudo, quando as cafeterias londrinas eram espaço de efervescência intelectual. Atualmente, a pressão por produtividade não permite longas horas de discussão regada a cafeína, mas é nesses espaços que muitos jovens imersos na chamada hustle culture (a cultura da produtividade, em interpretação livre) encontram os ingredientes de que precisam para trabalhar com eficiência. "As pessoas acabam buscando o café e outras bebidas estimulantes com o objetivo de melhorar a produtividade, ficar mais ligadas, mais tempo acordadas para dar conta das tantas demandas que têm. Eu vejo isso em todas as faixas etárias, mas talvez mais nos jovens", relata Rodrigues, do Mackenzie.

E funciona, mesmo? Cientificamente, já está provado que a cafeína afeta os sistemas nervoso central e cardiovascular. Há estudos que comprovam melhora cognitiva após o consumo da substância, mas também já se sabe que ela pode causar dependência. Quem está acostumado a consumir cafeína todos os dias sabe bem dos efeitos da abstinência — sonolência, dor de cabeça, perda de confiança. Ou seja, o consumo regular de cafeína basicamente nos traz de volta ao estado normal de funcionamento. Ela resolve um problema que ela mesma criou, destaca Pollan, que decidiu se abster da substância enquanto escrevia a livro e pede desculpas pelos efeitos negativos que isso possa ter causado no resultado final do trabalho.

Estamos mais chatos com o café? Que bom. A qualidade do café interfere nos benefícios ou malefícios que ele pode trazer. Apesar de a cafeína ser considerada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) uma droga, há benefícios comprovados do consumo moderado de café, como a diminuição do risco de desenvolver diabete tipo 2, doença de Parkinson, entre outras. Mas, claro, isso tudo depende do grão, do tipo de cultivo e até de extração da bebida. Raposeiras afirma que a relação do brasileiro com o café vem mudando de forma clara, e para melhor. "O consumo de café de qualidade cresce exponencialmente, ano a ano. A gente tem uma escola de café e nota o crescimento tanto da população que quer trabalhar com café quanto a de consumidores interessados em saber mais", conta. E ela percebe que isso se reflete, ainda que aos poucos, também no mundo corporativo. "Algumas pequenas e médias empresas cujos sócios amam café já fazem a mudança da qualidade. A diferença de preço por xícara não é tão grande, no fim das contas", afirma. Para quem acostumou o paladar e não gosta de tomar o café da empresa, a dica é encontrar algum método de extração "portátil", como a prensa francesa, e levá-lo ao trabalho. Só não dá para ficar sem café.