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Na Suécia, idosos em asilos não recebem ajuda em casos graves de Covid-19

Casal usa máscara em Estocolmo, capital da Suécia - Jonathan Nackstrand/AFP (8.5.2020)
Casal usa máscara em Estocolmo, capital da Suécia Imagem: Jonathan Nackstrand/AFP (8.5.2020)

Carolina Vila-Nova

Colaboração para TAB

28/05/2020 04h00

A decisão da Suécia de não impor um lockdown (bloqueio total de circulação de pessoas) durante a pandemia da Covid-19 já havia atraído a atenção e críticas da opinião pública no mundo inteiro. Agora, uma onda de denúncias de que os idosos em asilos não receberam os cuidados necessários para sobreviver ao novo coronavírus está colocando em xeque a estratégia sueca de combate à pandemia. Pessoas acima de 60 anos representam 95% das mortes por Covid-19 no país nórdico.

O governo sueco já admitiu que falhou ao não proteger adequadamente essa parcela da população, mas afirma que médicos e instituições agem segundo regras rígidas estipuladas pelo Conselho Nacional de Saúde e Bem-Estar. Documentos e denúncias de médicos e entidades nos últimos dias apontam para a aplicação de diretrizes como tratar os idosos nos próprios asilos -- em vez de encaminhá-los a hospitais e UTIs -- e administração de cuidados paliativos (de fim de vida), no lugar de tratamentos; além disso, orientam a não administração de oxigênio mesmo em casos mais graves da doença.

Um dos principais sintomas em casos agudos de Covid-19 é a falta de ar. Na quarta-feira (20), o órgão de inspeção sanitária, IVO, anunciou que irá investigar as condições das instituições de longa permanência de idosos e a disponibilidade de oxigênio, após ter recebido 317 notificações desde março.

"Temos recebido sinais de que os idosos não têm tido acesso a tratamento com oxigênio, que faz parte das recomendações para tratamento paliativo do Conselho Nacional de Saúde e Bem-Estar", afirmou a diretora-geral do IVO, Sofia Wallström, ao jornal Dagens Nyheter (DN). "Todos têm direito a receber o cuidado de que precisam, seja paliativo ou de outro tipo", completou.

Cuidados curativos x cuidados paliativos

A Suécia tem a mais alta taxa de mortalidade per capita por Covid-19 da Europa, segundo dados da Our World In Data, da Universidade de Oxford, com 6,25 mortes por dia por milhão de habitantes.

Até terça-feira (26), pessoas com mais de 60 anos eram 3.848 dos 4.125 mortos pelo vírus no país. Do total, 65% tinham mais de 80 anos -- e cerca de três quartos viviam em asilos, segundo o governo. Porém, apenas 3,9% das pessoas que tiveram acesso a atendimento em UTIs tinham mais de 80 anos, segundo o registro de unidades intensivas publicado pelo Svenska Aftonblated.

Outra estatística, publicada no dia 21 de maio pelo Sörmlands Media, com base em dados do Conselho Nacional de Saúde e Bem-Estar, indicou que 90% dos idosos não foram encaminhados a hospitais -- mas morreram no próprio asilo. Um documento interno do Hospital Universitário Karolinska, com objetivo de orientar chefes de unidades intensivas na tomada de decisão durante a pandemia, estipulou que pessoas com mais de 80 anos, bem como pessoas entre 60 anos e 80 anos com múltiplas doenças, não deveriam receber prioridade para terapia intensiva.

Segundo o documento, ao qual os jornais Aftonbladet e SvD tiveram acesso, pacientes que já estivessem em UTIs -- mas pertencessem a alguma das categorias listadas -- poderiam ter o tratamento interrompido.

Em resposta a questionamentos do TAB, Thomas Lindén, diretor do Departamento de Gestão do Conhecimento em Saúde do Conselho de Saúde e Bem-Estar, afirmou que o órgão possui "regulamento rígido sobre como tomar a decisão de não oferecer intervenções como transferências para UTIs e CPR [ressuscitação cardiopulmonar]. É preciso o consenso de dois médicos, documentação em histórico médico e comunicação ao paciente (e familiares)", afirmou.

"Também fornecemos diretrizes completas para os cuidados paliativos, que, entre outras questões, abrangem o processo de transição de cuidados curativos para cuidados paliativos e a entrega de cuidados paliativos. É uma boa prática médica abster-se de iniciar um tratamento intensivo em pacientes frágeis demais para se beneficiar dele", acrescentou.

"Nesta pandemia, emitimos uma diretriz sobre o uso de produtos farmacêuticos para alívio dos sintomas nos cuidados em fim de vida. Os meios para tratar a falta de ar em doenças terminais têm sido discutidos -- tanto internamente quanto na mídia --, pois existem regimes diferentes, alguns dos quais não incluem tratamento com oxigênio. É perfeitamente claro, no entanto, que, se uma pessoa precisa de oxigênio para manter ou recuperar sua saúde, isso deve ser administrado, independentemente de onde resida", concluiu.

Sobre a transferência para hospitais ou UTIs, Lindén afirmou que os médicos devem decidir cada caso individualmente, mas relatos que contradizem a aplicação dessas regras abundam na imprensa sueca.

Thomas Anderson afirma que seu pai, Jan Anderson, 81, apenas recebeu tratamento depois que denunciou o asilo Ärlingshem, perto de Estocolmo, à imprensa e às autoridades. Segundo ele, um médico orientou a enfermeira por telefone, sem consultar ou informar a família, a prescrever morfina ao paciente. Após a intervenção do filho, o idoso passou a receber soro e anticoagulantes. Não havia oxigênio, mas ele sobreviveu à doença.

Juliana Jihem diz que seu tio, Moses Ntanda, 72, morreu sem o cuidado adequado no asilo Strandängsgården. Segundo ela, o tratamento paliativo foi prescrito por telefone, sem consulta à família, que não podia visitá-lo. O prontuário do tio dizia que ele não deveria ser hospitalizado. "Morreu tranquilamente. Paliativo adequado", relatou Jihem ao DN.

Quando médicos, em um grupo privado nas redes sociais, começaram a mencionar recomendações de administrar cuidados paliativos -- e não deslocar os idosos para hospitais. A médica inspetora do IVO e neurocientista Jenny Fjell, 47, diz ter ficado chocada.

"Não podia ficar ali, pensando que as pessoas estavam simplesmente sendo mortas", contou ao TAB. "E de onde saiu essa ideia de dar cuidado paliativo? Ninguém questionou se essa realmente era uma doença tão letal? Como médica, não faz sentido pra mim. Não acredito que médicos e enfermeiras queiram ser assassinos. Mas muitos dos meus colegas também diziam que estavam só 'seguindo ordens'."

Para alertar outros médicos e a população, Fjell decidiu criar a página "Todos têm direito a oxigênio".

"Ligue para o médico da família e pergunte o que está sendo aplicado em asilos e home cares de sua região. Mande e-mails para funcionários públicos e políticos no seu município ou distrito. Certifique-se de manifestar por escrito, para você e para seus entes queridos, que quer cuidados hospitalares, se for necessário, no tratamento da Covid-19. Ligue para o asilo mais próximo e pergunte como eles estão agindo lá. Sinta-se à vontade para gravar", recomenda ela em uma postagem.

Fjell contraiu o vírus -- está curada, mas ainda lida com sequelas da doença. "É praticamente impossível escapar dele na Suécia."

A médica Jenny Fjell em Estocolmo, antes da pandemia - Ulla Klang/Arquivo pessoal - Ulla Klang/Arquivo pessoal
A médica Jenny Fjell em Estocolmo, antes da pandemia
Imagem: Ulla Klang/Arquivo pessoal

Imunidade de grupo

A Suécia não implementou um lockdown em resposta à pandemia de coronavírus, mas fez apelos para que a população ficasse em casa e exercesse sua "responsabilidade individual".

A maioria das lojas, restaurantes, bares e escolas ficou aberta. Aglomerações com mais de 50 pessoas são proibidas desde o fim de março. As visitas a asilos, desde abril.

"Não acredito que a Suécia tenha adotado uma estratégia muito diferente do que o resto da Europa", afirmou ao TAB Anders Tegnell, epidemiologista-chefe e criador da estratégia sueca de combate ao novo coronavírus.

Olof Johansson Stenman, professor da Universidade de Gotemburgo - Klara Stenman/Arquivo pessoal - Klara Stenman/Arquivo pessoal
Olof Johansson Stenman, professor da Universidade de Gotemburgo
Imagem: Klara Stenman/Arquivo pessoal

Para Stenman, o governo subestimou "de maneira grosseira" a taxa de mortalidade do vírus -- ao mesmo tempo em que superestimou o grau de dificuldade para limitar sua propagação. "O ex-epidemiologista-chef Johan Giesecke, por exemplo, avaliou que a pandemia não seria pior do que uma forte gripe, e que apenas cerca de 0,1% dos infectados morreriam."

A taxa de mortalidade é calculada a partir da realização de testes de anticorpos para medir quantos foram infectados e a proporção entre mortes e infectados. Segundo Stenman, estudos mostraram que, na área de Estocolmo, onde a maioria das mortes até o momento ocorreu, 7% desenvolveram anticorpos. Em Gotemburgo e em Malmö, respectivamente a segunda e a terceira maiores cidades suecas, a taxa foi de 4%.

"Isso tem duas implicações: primeiro, estamos muito mais distantes da imunidade de grupo do que se pensou e esperou; depois, o vírus é mais fatal e causa mais danos do que o pensado. A estimativa da própria Agência Pública de Saúde, agora, é de que 0,6% das pessoas vão morrer de Covid-19, ou seja, seis vezes mais do que a estimativa de Giesecke. Apesar dessas descobertas dramáticas, as autoridades parecem não considerar estratégias alternativas, por exemplo, com base em testes mais intensivos", opinou.

Uma reavaliação de estratégia foi justamente o que defendeu editorial do jornal DN, nesta semana. "A pandemia não acabou, e a Suécia ainda tem altas taxas de mortes per capita. [O premiê] Stefan Löfven ainda pode repensar a estratégia sueca, nem que seja para ganhar tempo para se preparar melhor. Grandes partes do país ainda não viram a propagação da doença como a área metropolitana", disse o texto.