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"Spotify do Nordeste" deixa pirateiros na mão e faz girar mercado de hits

Você pode não ter ouvido falar, mas em três meses, o grupo baiano Furacão Love passou a fazer 30 shows por mês - Divulgação
Você pode não ter ouvido falar, mas em três meses, o grupo baiano Furacão Love passou a fazer 30 shows por mês Imagem: Divulgação

Tiago Dias

Do TAB, em São Paulo

14/12/2018 04h00

O próximo hit do Carnaval já circula por aí. Aquele refrão chiclete, que invade os ouvidos e se alastra entre os amigos sem muito aviso, também já surgiu, ainda que provavelmente não tenha aparecido no seu radar. Mas ele já deve estar no Sua Música. Criado em João Pessoa (PB), a plataforma de streaming e download gratuito é líder de acesso no Nordeste dentro de uma fatia generosa de ouvintes, entre 21 e 54 anos, o que o coloca na região à frente de plataformas internacionais, como Spotify, Deezer e Tidal. Hoje, o território corresponde a 60% dos plays e downloads do site.

O feito 100% nacional se deu graças ao catálogo, dedicado quase exclusivamente aos ritmos que fazem a cabeça na região, seja o batidão romântico da Paraíba, a arrochadeira (ou swingueira para alguns) da Bahia ou o forró do Ceará. "Aquele artista cool, indie, pop, com barba ruiva desenhada do sul da França, a gente deixa para o Spotlight", explica Rodrigo Amar, CEO do plataforma, como se desconhecesse o nome da concorrente sueca.

O Sua Música surgiu em 2011 em formato de blog, com conteúdo cedido por artistas até então desconhecidos, mas que entendiam o que fazia bombar as caixas de som pelo Nordeste. Entre eles, um tal de Garota Safada, liderado por um moço de olhos verdes e cabelos comprido e liso chamado Wesley Safadão.

Sem investimento, o paraibano Éder Rocha Bezerra coordenava o site de sua casa, com ajuda de mais dois amigos. Era apenas um hobby, mas que conseguia reunir, em apenas um dia, 80 mil usuários únicos. Hoje, o Sua Música faz frente com 1 milhão de acessos únicos por dia e é um dos 60 aplicativos mais baixados no Brasil.

A diferença entre o Sua Música e as outras plataformas é que não há planos de assinatura, nem repasse de direitos autorais, algo que o mercado local nunca contou no fim do mês, preferindo a estratégia de viralizar. Que o diga Aldair Playboy, paraibano que jogou no Sua Música, ainda em 2017, sua grande aposta, "Amor Falso", uma das músicas mais tocadas no Brasil este ano.

Empresário musical, o potiguar Elanio Tinôco tem uma meta: fazer com que "My Baby", do grupo baiano Furacão Love, seja o novo "Amor Falso". A mistura de batidão romântico com arrochadeira entrou em julho no Sua Música e rapidamente se alastrou nos sons automotivos, fluxos itinerantes onde carros equipados com grandes caixas de som garantem a festa. O grupo, liderado pelo casal baiano Eduardo Mascarenhas e Camila Souza, então correu para adesivar um ônibus e cair na estrada pela primeira vez. Hoje, cumprem 30 shows por mês e se apresentaram pela primeira vez em São Paulo em novembro.

A aposta que "My Baby" vai ser a música do Carnaval já fez com que artistas e grupos como Psirico, Gusttavo Lima, Babado Novo e Safadão incluíssem o sucesso em seus repertórios. Mesmo deixando o Spotify de lado na divulgação, a música apareceu nas 50 mais tocadas da concorrente. Mascarenhas, que no começo do ano nem sonhava em excursionar, tenta resumir o resultado: "O pipoco foi grande".

Direto de um estúdio em Salvador, onde preparava mais um "CD promocional" para distribuir na internet, o cantor e compositor do grupo contou que já conseguiu comprar um apartamento e um carro. "Saímos da água para o vinho. É aquela coisa de você dormir pobre e acordar rico."

Vindo de Carnaúba, no Rio Grande do Norte, o Saia Rodada é outra aposta da plataforma. "Na verdade, eles já estouraram", explica o CEO do Sua Música, "mas não ainda no Itaim Bibi e no Leblon", pondera, citando dois bairros nobres em São Paulo e no Rio de Janeiro, respectivamente.

O Saia Rodada é o 5° artista mais ouvido do ano na plataforma (com 60 milhões de plays), ao lado de artistas que ainda não estouraram a bolha, mas já fazem shows no Sudeste, onde a comunidade nordestina é bastante representativa, como é o caso de Devinho Novaes (95 milhões), Unha Pintada (61 milhões) e Jonas Esticado (51 milhões).

"O ranking é onde o fã vai ver quem, no jargão dele, é top, e onde o contratante de Mossoró (RN) e Quixeramobim (CE) vê quem é que está bombando e tem potencial de lotar a casa de shows dele, que é o que ele quer no final das contas", explica Amar. "E é onde as gravadoras, que por anos ficaram de costas para esse mercado, vão caçar talentos, ver quem é que tem potencial para ser o próximo Safadão."

Direto na consciência

O Nordeste é uma região extremamente musical, mas historicamente colocada à margem do mercado, concentrado no eixo Rio-São Paulo. Se hoje é consenso em todo o país que os shows passaram a ser o principal ganha-pão de qualquer artista, o Nordeste entendeu essa dinâmica anos atrás, ao fazer girar sua própria engrenagem, impulsionada pela cultura de shows que agitam as principais cidades nordestinas de segunda a segunda.

"Aqui tem muito festejo, tem vaquejada, tem padroeira quase todo dia", afirma Tinôco, que entrou no meio ainda "de menor" para acompanhar o pai, produtor de shows. "E isso porque estamos em crise. Hoje isso se restringe a bandas que realmente fazem sucesso. Antes, a gente anunciava qualquer banda e enchia."

Ele explica a lógica: "Eu não assino contrato com gravadoras, então tenho que fazer minha própria mídia, colocar a música na boca do povo, porque aí eu faço mais shows, faço com que o prefeito de alguma cidade me conheça e chego na consciência do povo."

Divulgação
Imagem: Divulgação

Para invadir tão nobre espaço na mente, a estratégia era simples: distribuir de mão em mão CDs e pen drives em feiras, eventos, bares e quiosques de praia. Até mesmo os pirateiros, que durante os anos 1990 e 2000 ajudaram a indústria fonográfica a entrar em crise, recebiam as gravações originais dos próprios artistas. O milagre da multiplicação era necessário para fazer a música chegar, como Tinôco explica, "mais ligeiro".

Hoje, piratear já não é mais um negócio lucrativo, e a culpa é do site de streaming e download gratuito nascido em João Pessoa.

Real business

Safadão hoje conta com estrutura grande de gravadora e cachês em torno de R$ 600 mil, mas continua a alimentar seu perfil no Sua Música com versões "promocionais" dos seus discos. Não à toa, ele é o artista que lidera o ranking dos mais ouvidos em 2018. São quase 125 milhões de plays.

"Ele sabe que o público do Nordeste está com ele desde o começo e que lá em cima a gente domina. Se virar as costas para essa audiência, ele morre abraçado com a gravadora na praia", observa Amar. "Ele está aqui porque sabe que o novo repertório vai estar na boca do povo".

Criado em João Pessoa, o Sua Música expandiu os negócios e abriu escritórios em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Fortaleza - Divulgação
Criado em João Pessoa, o Sua Música expandiu os negócios e abriu escritórios em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Fortaleza
Imagem: Divulgação

É o que faz artistas nacionalmente conhecidos, como Claudia Leitte e a dupla Henrique & Juliano, a trabalharem lançamentos de forma diferenciada na plataforma. Exemplo de quem pilota suas bandas de olho no Sudeste, Tinôco explica a via de mão dupla: "É o seguinte: se uma música emplaca no Nordeste, ela vai fazer sucesso no Brasil."

No posto de CEO, ao lado de dois sócios, o carioca Amar não veio da música e ainda trabalhava como advogado quando acessou pela primeira vez o Sua Música. Queria empreender e buscava no Brasil iniciativas com alto tráfego de acesso. "Se você tem audiência, você tem tudo. Não à toa, os políticos do Nordeste, por exemplo, todos têm uma afiliada da Globo, uma rádio, um jornal", compara.

Até então, o contato mais próximo com a região era as viagens a turismo. Tudo mudou quando conheceu um tal de Aviões do Forró. "Fui em um show numa quinta-feira em Ipojuca, perto de Porto de Galinhas (em Pernambuco), com 15 mil pessoas. A gente não tinha a dimensão do que era isso. Era muito mais que 80 mil fãs por dia na plataforma. Era toda uma indústria, todo um nicho girando em torno disso", explica Amar. Naquele dia, falou para si mesmo: "Aqui tem 'real business'".

O paraibano Éder, fundador que postava as músicas uma a uma no começo do site, ajudando nas aspirações de Safadão e tantos outros artistas, vendeu a marca e foi atrás de realizar o próprio sonho: Ser dono de bandas.

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