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O que levou Mantovani de "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite" à neurociência

Aline Arruda/Divulgação
Roteirista Braulio Mantovani acompanha as filmagens de "Albatroz" com Alexandre Nero Imagem: Aline Arruda/Divulgação

Tiago Dias

do TAB, em São Paulo

2019-03-08T04:00:00

08/03/2019 04h00

Braulio Mantovani conta que se interessou por uma certa loucura brasileira quando escreveu os roteiros de "Cidade de Deus" (2002) e os dois "Tropa de Elite" (2007 e 2010). Os filmes arrastaram milhões de pessoas aos cinemas, abriram janelas no mercado internacional (e até no Oscar) e ficaram gravados no imaginário brasileiro como exemplos de um retrato cru e realista de um distúrbio social.

Até por isso pode parecer que seu novo filme, "Albatroz", que estreou na última quinta-feira (7), tenha dado uma freada brusca nessa trajetória preferencial do principal roteirista do país. Mas o que muda, na realidade, é apenas o cenário.

Com direção de Daniel Augusto ("Não Pare na Pista") e elenco com nomes como Alexandre Nero, Andrea Beltrão, Camila Morgado, Maria Flor, Andreia Horta e Gustavo Machado, o thriller passa longe da realidade das ruas brasileiras e se volta para a psique humana. A inspiração para esse movimento são os mistérios e avanços da neurociência, que há tempos ultrapassam a ficção.

A história acompanha Simão (Alexandre Nero), um fotógrafo que entra em crise após registrar o que parecia ser um atentado terrorista em Jerusalém. Criticado por preferir captar a melhor imagem em vez de ajudar a vítima, ele sucumbe à depressão e abandona a câmera, dizendo estar interessado apenas em fotografar os próprios sonhos.

Em algum momento da história - ou de uma versão dela -, Simão encara o seu inconsciente durante um procedimento no laboratório da neurocientista dra. Weber (Andréia Horta), levado pela ex-namorada Alicia (Andrea Beltrão), que escreve um livro sobre a tentativa de reconciliação com o ex.

A sinopse é inteligível, mas por pouco tempo. Tanto personagem quanto espectador podem ter dificuldade de entender se os acontecimentos na tela são parte ou não de um delírio. Ou, como diz um dos personagens, tomando emprestado uma frase do neurologista e escritor Oliver Sacks, autor de vários best-sellers, entre eles "Tempo de Despertar":

Tecnicamente não há diferença entre percepção e alucinação

E há décadas a neurociência tem comprovado isso.

Mantovani deu o primeiro mergulho na neurociência lendo os relatos de Sacks para casos que seriam mais facilmente atribuídos ao misticismo, excentricidade ou simplesmente loucura, mas que são fenômenos de um cérebro desorganizado por algum acidente ou trauma. "O cérebro se desorganiza, mas ele não é nunca um cérebro totalmente desestruturado. Ele se reestrutura de uma outra maneira", explica o roteirista.

O exemplo mais clássico é o caso de um homem com agnosia visual (prosopagnosia), termo usado quando o paciente não consegue distinguir objetos. Ele tenta alcançar seu chapéu, mas pega a cabeça de sua esposa e tenta colocá-la na própria cabeça, sem conseguir perceber o que estava fazendo de errado.

Outros exemplos, relatados pelo neurocientista indiano Vilayanur Ramachandran, beiram a ficção. Um atleta que perdeu o braço sente fortes dores na parte amputada, e uma mulher parcialmente cega vê personagens de desenho animado sentando no colo do médico à sua frente.

"Não é demência, é um fenômeno cerebral de auto-estímulo, uma vez que o input externo não está vindo mais da retina. A visão é muito complexa, não é só a retina, isso é só o começo. A visão é um processo que envolve muitas outras coisas, como memórias e emoções", afirma Mantovani.

Essas situações surreais podem parecer parte de um filme de David Lynch, como "Estrada Perdida" e "Cidade dos Sonhos". Não à toa, foi com o cineasta cult na cabeça que o diretor Daniel Augusto confessou a Mantovani o sonho de fazer um filme que não tivesse uma interpretação única. "Um filme desestruturado", resumiu. Mantovani lembrou dos cérebros reestruturados: "Eu vou escrever esse filme", prometeu.

Aline Arruda/Divulgação
Imagem: Aline Arruda/Divulgação
Conexões cerebrais

Como o emaranhado de bilhões de conexões cerebrais que um ser humano carrega na cabeça, o roteiro de "Albatroz" se desdobra em muitas hipóteses auto excludentes (ou não), formando um quebra-cabeça difícil de se ver numa produção nacional. Dito isso, é bem capaz que você, ao terminar a sessão, fique com dois pensamentos:

1) Será que eu entendi o que se passou aqui?

2) "Isso é muuuito Black Mirror".

O primeiro pensamento é compartilhado por todo o elenco. Na pré-estreia em São Paulo, Andrea Beltrão contou que recebeu o roteiro de mais de 100 páginas com uma planilha para acompanhar as idas e vindas da história, além do link para a palestra no TED de Ramachandran. Disse a atriz:

Não entendi nada, mas me lembrou meus pesadelos

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Imagem: Reprodução

Já a comparação com a série britânica criada por Charlie Brooker, que leva às últimas consequências os efeitos da tecnologia na nossa sociedade, é feita pelo próprio Mantovani para definir algo que, sim, é ficção, mas baseado em possibilidades reais.

"Todas as experiências no filme são baseadas em coisas que existem ou que podem existir em um horizonte próximo", afirma Mantovani. "O experimento que me fascina muito, e que é real, é essa coisa de fotografar sonhos. Os holandeses já começaram a fazer isso. É bem 'Black Mirror', mas está rolando mesmo", completa.

No filme, assim como ocorre nos experimentos reais, os eletrodos são fixados na testa e se conectam a uma placa. Dela, a informação vai para o computador, que exibe na tela as ondas cerebrais e as regiões do crânio acionadas na experiência.

"Você consegue criar um banco de dados da cabeça da pessoa. Cada imagem que ela olha corresponde a um certo tipo de onda no eletroencefalograma. Durante o sonho, [as imagens do inconsciente] podem ser interpretadas por um software que procura no banco a imagem correspondente", explica.

Ler a mente deixou de ser uma figura de linguagem ou uma crença em algo místico, já é possível, já é uma realidade

Aline Arruda/Divulgação
Imagem: Aline Arruda/Divulgação

Mais surreal que a ficção

O cérebro e seus 86 bilhões de neurônios que lançam continuamente impulsos eletroquímicos sempre rondaram Hollywood, seja no processo de apagar memórias traumáticas, como em "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", de Michel Gondry, ou na construção do personagem Dr. Strangelove de Peter Sellers no clássico "Dr. Fantástico" (1964), de Stanley Kubrick - um dos braços de Sellers parece ter vida própria. Esse fenômeno existe, e é chamado de síndrome da mão anárquica.

Dr. fantástico

Brilho Eterno

Antes mesmo de escrever "Tropa de Elite", Mantovani já queria trabalhar num roteiro com a neurociência como pano de fundo desde que havia lido relatos de neurocientistas e físicos, como o norte-americano Michio Kaku (abaixo, o roteirista indica os livros sobre o tema que fizeram sua cabeça). A partir de mais de 300 entrevistas com a nata da ciência mundial, Kaku fez previsões em livros como "O Futuro da Mente" e "Física do Futuro". No seu prognóstico estão uma loja de órgãos humanos, carros flutuantes e nanossondas, que poderiam ser usadas para tratar doenças. Um pedaço desse futuro está na edição do TAB "Cérebro Hackeado".

Mais fina que um fio de cabelo, a nanossonda já permitiu a pesquisadores controlarem o comportamento de camundongos a partir de um computador - e a Mantovani, brincar com sua cobaia na ficção.

Essas são coisas surreais demais para se imaginar na vida real, admite. "Mas eu, como nasci em 1963, posso dizer que já vi alguns milagres. Quando comecei a trabalhar como roteirista, eu usava uma máquina de escrever e ia a bibliotecas públicas fazer pesquisa. Google era algo impensável", afirma.

A primeira aventura artístico-científica de Mantovani quase saiu do papel enquanto finalizava o roteiro de "Cidade de Deus", e por muito pouco não virou tema de uma série da TV Globo.

Na época, Mantovani lia "O Mistério da Consciência", do filósofo John Searle. "Foi aí que eu descobri que o assunto não era puramente filosófico, era um assunto também científico", afirma. "Tem uma série de fenômenos mentais, pessoas que tem certeza que estão mortas, por exemplo, e são males físicos. Não dá para resolver com psicanálise. Esse universo maluco me fascinou demais", completa.

O tema, de alguma forma, esteve presente no curta "Nanoilusão" (2005) e no livro "Perácio: Relato Psicótico" (2010). Em 2011, Mantovani começou a trabalhar no roteiro do projeto internacional "Nêmesis", baseado livremente no livro de Peter Evans sobre o magnata grego Aristóteles Onassis.

Além da vida de luxo e glamour, havia um mistério na vida do milionário. Subornos e encontros sexuais envolvendo Onassis teriam culminado na encomenda da morte do senador americano Robert Kennedy, em 1968. Uma teoria da conspiração que ressoa até hoje, inclusive em círculos de estudiosos de ondas neurais. Sirhan Sirhan, o assassino de Robert Kennedy, estaria sob efeitos de hipnose quando cometeu o crime. O filme não saiu, mas ecos dessa história estão em "Albatroz".

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Imagem: Reprodução

Livre-arbítrio, uma ilusão

Mas não seria também o livre-arbítrio uma lenda? Nas últimas décadas, neurocientistas indicaram que nossas escolhas e ações, que seriam conscientes, na verdade podem ser decisões automáticas tomadas pelo nosso cérebro.

Mantovani conta que já se pegou fazendo um caminho automático de carro, quando na verdade precisava ir em outra direção. "O seu cérebro está fazendo sem você ter controle sobre isso. É igual ao Waze", diz. "É uma ilusão isso de você tomar essa decisão. Seu cérebro fez isso sem você ter consciência", completa.

Diante de um filme com uma proposta tão complexa, em um cenário de certo marasmo nos lançamentos no circuito, Mantovani não se arrisca nas previsões - pelo menos as do mercado. Ele conta que errou quando assistiu ao primeiro corte de "Cidade de Deus". Na ocasião, disse ao diretor Fernando Meirelles: "Ganharia um Oscar, pena que ninguém vai ver". O filme fez mais de 3 milhões de espectadores.

"Se esse negócio de não existir livre arbítrio for verdade, se você não tem controle nem das suas ações mais básicas da vida, imagina ter controle da percepção do público", questiona. Talvez no futuro, ou até mesmo no presente, o público e seus desejos possam ser avaliados com a precisão a princípio descartada, mas sonhada, pelo roteirista.

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