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Perifacon mostra que favela também é nerd e que está cheia de novos autores

André Lucas/UOL
Evento realizado no Capão Redondo mostrou a produção de muito autores e ilustradores da periferia paulistana Imagem: André Lucas/UOL

João de Mari e Kaluan Bernardo

Do UOL TAB, em São Paulo

2019-03-25T13:24:38

25/03/2019 13h24

"Tudo começou com o debate sobre como é difícil acessar cultura nerd na quebrada. E como, apesar disso, não deixamos de consumir", conta Mateus Martins, 22, um dos idealizadores da Perifacon, convenção que, no último domingo (24), levou o universo geek para a Fábrica de Cultura do Capão Redondo, na periferia da Zona Sul de São Paulo.

Martins uniu-se a mais sete amigos para criar a primeira edição do evento, que atraiu mais de 4 mil pessoas em um domingo no bairro conhecido por ser berço de Mano Brown e Ice Blue, dos Racionais MCs. Enquanto a Comic Con Experience, a maior convenção geek do país, tem valores que vão de R$ 90 a R$ 1.800, a Perifacon foi gratuita.

"A galera ou não tem dinheiro ou tem que pegar duas, três horas de ônibus para ir ao evento e acaba não indo. A gente sempre consumiu cultura geek e é muito bom ver um evento desses democratizando o acesso", comenta Hugo Rafael, integrante da banda Kuromame, que tocou no início do evento.

De fato, a quebrada não tem o mesmo acesso a espaços culturais. De acordo com o Mapa da Desigualdade 2018, organizado pela Rede Nossa São Paulo, o bairro do Grajaú, também da periferia da Zona Sul, tem aproximadamente um centro cultural para cada 333 mil pessoas. O índice é 117,8 vezes pior que o subdistrito da Sé, no centro da cidade.

Mas não era apenas no valor e na localização que a Perifacon se diferenciava de suas inspirações mais endinheiradas. Assim como na Comic Con Experience, a feira contava com mesas de debate, artistas independentes, praças de alimentação e lojas vendendo produtos.

Mas tudo era diferente. Entre as lojas, além de marcas que reforçavam representatividade, como a 4P ("Poder Para o Povo Preto"), do DJ KL Jay, lá estavam editoras vendendo livros famosos com pequenos defeitos de fabricação por R$ 10. Na praça de alimentação, os lanches saíam por R$ 4 e bebidas por R$ 1. Nas mesas, as principais discussões passavam sobre temas de inclusão, como representatividade negra, espaços para mulheres na cultura nerd e arte enquanto resistência. No espaço dedicado aos artistas independentes, haviam vários periféricos (muitos estreantes) de mão cheia e que nunca conseguiram se inscrever em feiras maiores.

"Quisemos mostrar que há um diálogo entre a cultura nerd e geek e a vida do favelado", diz Matheus Polito, outro dos idealizadores. Ele resume:

A gente existe. Fazemos os corres. A Perifacon é a mistura do que temos para dar com o que adoramos ver

A educadora e ilustradora Lya Nazura faz quadrinhos que discutem sua ancestralidade negra. Após participar de uma mesa sobre representatividade dos negros em quadrinhos, refletiu sobre a diferença na recepção. "Vejo duas reações quando levamos alunos de periferias para esses eventos geeks caros: ou eles ficam acanhados porque se sentem envergonhados nesses espaços, ou ficam agressivos, porque não se sentem pertencentes. Eles assumem tal postura para se defender", diz. "Mas, quando estamos em um lugar como esse, nos sentimos em casa. É outro tipo de visão. A Fábrica está aqui justamente para disseminar a cultura para as favelas", comenta.

Do Capão para o mundo

Em um morro alto do Capão Redondo, a Fábrica de Cultura é um prédio de sete andares e parte de um conjunto de espaços do governo paulista para promover acesso gratuito a atividades culturais. Com uma fila que quase dobrava o quarteirão, o local permaneceu lotado o dia todo. Com poucos elevadores, as escadas permaneciam sempre cheias de pais e crianças ávidos por aproveitarem cada uma das atrações.

Em frente a um mural grafitado com a palavra "Resistência" estava o trono de ferro da série Game of Thrones. Se a vontade de posar de rei gera filas imensas em eventos maiores, na Perifacon o trono estava quase esquecido próximo à fila de entrada. Mesmo após a lotação do evento, quem não pôde entrar ficou na arena próxima ao portão acompanhando o concurso de cosplays (como é conhecida a arte de se fantasiar de um personagem famoso).

Entre um corredor e outro, cosplays profissionais e amadores de personagens japoneses ou super-heróis americanos atraíam olhares, principalmente de crianças que vibravam ao encontrar, no mundo real, aqueles heróis que só viam em telas.

Em um desses corredores, uma menina vestida de Batman ficou tímida ao posar com um Superman e um Lanterna Verde. Foi o primeiro evento dela, mas não deles. O Lanterna era Luiz Júnior, que cria roupas de cosplay há oito anos; o Superman era Sayers Salvatore, no hobby há 12 anos. Acostumados a ir em eventos grandes, estavam lá como jurados do concurso de fantasias que teria. "Estamos vendo pessoas novas, com talentos fora do comum, cosplays que nunca vimos. É um pessoal que estava escondido e que não consegue ir em eventos distantes", comenta Salvatore.

Obrigada @kljaydeejay

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Júnior diz que as fantasias que cria não saem por menos de R$ 400, podendo chegar a R$ 1.500. Mas incentiva que todos comecem com o que podem, criando roupas até mesmo de borracha ou peças improvisadas - o que, no meio cosplay, é ironizado com o nome de "cospobre". "Não deveria ser um problema. Eu mesmo comecei com o 'cospobre', todo mundo começa. O que importa é fazer algo que você gosta de fazer", diz Salvatore.

Para Júnior, que mora na comunidade Teleatlas, na Zona Leste, o mais importante é criar novas referências. "Meu poder é fazer a criança ter um super-herói como referência. Não sou diferente de um palhaço de circo, o que a gente quer fazer é a pessoa se divertir", defende.

Referências, na verdade, estavam por todos os lados. Robson Nunes, um dos participantes da mesa sobre representatividade negra nos quadrinhos, sentou-se ao lado de um de seus ídolos, Marcelo D'Salete, para o debate. Todas as sextas-feiras, publicava uma página no Facebook discutindo racismo no cotidiano. O projeto ficou batizado de "Black Friday". "Eu via o Marcelo questionando a individualidade negra e também queria fazer. Mostrei meu trabalho para ele, que gostou da minha história e, nas nossas conversas, fui desenvolvendo mais", relata.

Para Nunes, seus trabalhos, assim como tal tipo de evento, são essenciais no momento político polarizado que o país enfrenta. "É muito fácil lutar quando a maré está à favor", comenta. "Pessoas de periferia estão deixando de perceber o seu entorno e assumindo uma fala que não é deles, que é patronal. Quando reproduzem isso, é um perigo. Nesse momento, lutas de frentes feministas, LGBTQ+ e movimento negro triplicaram de importância. Temos que usar todas as ferramentas, seja em manifestações seja em histórias em quadrinhos - agora que é mais importante. E, com a arte, você alcança as pessoas de outra maneira", defende.

Eu, periférico e nerd

As referências, inclusive do universo geek, passam por uma questão de identidade. "Esse evento me fez repensar minha vida enquanto consumidora de cultura", diz Gabrielly Oliveira, uma das criadoras do evento. "Achava que era algo distante porque ligava a eventos caros, coisas longe. Mas eu sempre gostei de ir ao cinema, me alfabetizei lendo gibis e a Bíblia", comenta. Para ela, o evento a fez entender, pela primeira vez, que ela também era geek. Ela destaca:

Me reconheci dentro de um universo que achava que não era meu

Alguém que quebrou esse estereótipo da favela ser algo distante da cultura geek foi o rapper Rashid, uma das principais atrações da feira. Um dos artistas mais em evidência do hip-hop brasileiro, Rashid lançou o single "Não é Desenho", no início de 2019, com um clipe que simula histórias em quadrinhos e com letra cheia de referências à cultura pop.

André Lucas/UOL
Rapper Rashid aproveita Perifacon Imagem: André Lucas/UOL

Na Perifacon, Rashid usava uma camiseta do desenho japonês "Dragon Ball". "Entrei no hip-hop pela arte visual, pelo grafite. E isso veio por causa da minha paixão por anime e quadrinhos. Isso permeia meu universo e, consequentemente, o da minha música", comenta. "Acho legal colocar isso para fora porque um monte de gente se identifica. Todos procuram um artista que gostem das mesmas coisas que você", diz. "Hoje estou como artista, mas facilmente estaria nesse evento como fã. Esse tipo de encontro mostra quanto potencial, quanta riqueza cultural tem na periferia", declara.

Lya Nazura, além de refletir sobre seus ancestrais, é fã de animes e gosta de reimaginar artistas negros como integrantes de Naruto, série japonesa. "Não precisamos ficar em uma só estética. É legal mesclar essas linguagens", comenta. Ela diz que, além do segregador socioeconômico e racial, há também divisão de gênero na cultura geek. "Além de faltar pretos, faltam mulheres. É só você falar que gosta de algo para vir um cara fazer um quiz sobre o assunto", diz.

This is Konoha, meus amores Childish Gambino like Uzumaki Naruto

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Segundo Nazura, na periferia é diferente. "Aqui eu sempre tive uma liberdade maior de conversar sobre. Na sala de aula, adoro trazer uma cultura diferente para nosso contexto. Faço analogias de Naruto para meus alunos. É preciso trabalhar as poéticas diferentes", defende.

Para ela, eventos como a Perifacon são, também, uma possibilidade para artistas se sentirem mais livres. "As pessoas se auto-boicotam por causa da insegurança. Acham que não podem se inscrever em uma Comic Con Experience. E, em eventos assim, é diferente porque é de nós para nós", comenta.

Autores novatos

Não por acaso, o beco dos artistas, que reunia ilustradores novatos ou independentes tinha as maiores filas. Em outros lugares, é comum que essa não seja uma das principais atrações, mas na Perifacon era. E havia preocupação especial da organização: "O recorte, para nós, é muito importante", diz Martins. Ele defende:

Nos preocupamos em ter quadrinistas negros, mulheres, não dar espaço para obras machistas ou homofóbicas. Queremos algo inclusivo para raças, mulheres, crianças.

Raphael Fernandes, que cresceu na periferia de São Mateus, na Zona Leste de São Paulo, e passou a infância comprando gibis usados e sem capa que eram vendidos em sebos ou na calçada. Anos depois, tornou-se editor da revista Mad, onde aprendeu muito sobre o trabalho editorial.

"Quando eu era criança, não me imaginava fazendo quadrinhos. O máximo no meu horizonte era ter um sebo para poder vender gibis", comenta. No entanto, com a experiência, tomou coragem e criou "Ditadura no Ar", uma história policial e romântica que se passa na ditadura brasileira. A publicação lhe rendeu dois prêmios HQMix, o que o levou a criar outras publicações como "Apagão", "Periferia Cyberpunk" e "Na Quebrada", prestes a ser lançada.

Fernandes não estava lá como quadrinista novato, mas como expositor vendendo seu trabalho. "Sinto que hoje estamos voltando para casa. Fechei o ciclo. Estou aqui como alguém que cumpriu sua própria 'jornada do herói' e chegou para trazer novos heróis para a jogada. Só penso na possibilidade de alguém ler um quadrinho meu e se tornar um novo autor, ou até mesmo um novo leitor", diz.

"A cultura nerd é legal por isso: é sobre correr atrás, sobre ser apaixonado por algo", diz Polito. "E ela não foi um escapismo, não me tirou da realidade da periferia, que eu amo. Ela me adicionou mais. Espero que o evento faça isso por mais pessoas", comenta.

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