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Tarsila é pop: Como as redes sociais mudaram a experiência de ir ao museu

Público se amontoa em volta do "Abaporu" e faz fila para selfie - Danilo Verpa/Folhapress
Público se amontoa em volta do "Abaporu" e faz fila para selfie Imagem: Danilo Verpa/Folhapress

Letícia Naísa

Do TAB, em São Paulo

26/07/2019 13h21

Na última terça-feira (23), o tempo de espera para entrar no Museu de Arte de São Paulo (Masp) era de seis horas para a exposição "Tarsila Popular", que se encerrará neste domingo e reúne 92 obras da artista modernista Tarsila do Amaral (1886-1973). "Nós esperávamos uma grande recepção do público, mas não nessa escala", afirma Fernando Oliva, um dos curadores da mostra.

Nos últimos meses, pipocaram nos feeds do Instagram fotos da exposição e muitas selfies. A rede social já tem mais de 35 mil postagens com a #tarsiladoamaral. Mas o que fez com que o "Abaporu" se tornasse a Mona Lisa brasileira, com um aglomerado de gente tentando fotografar a tela? Qual o apelo atual em torno da figura de Tarsila para que a exposição se tornasse tão popular?

"A selfie virou uma instituição do Instagram. Quando a rede social, os departamentos de marketing e os museus começaram a trabalhar juntos, o fenômeno da selfie migrou para o museu", explica Giselle Beiguelman, artista e professora da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP). "É um atestado de que a pessoa esteve lá, um carimbo."

Para Oliva, é positivo que as pessoas usem as redes sociais para divulgar o trabalho do museu. "Incentivamos que o público faça imagens das obras e selfies e pedimos para colocar a hashtag do museu". Ele explica que essa ação é importante por fazer as imagens circularem em outro circuito. "Estamos tentando entender essa nova maneira do público de olhar a exposição e de se relacionar com ela", diz. Como estratégia, o museu reposta fotos dos visitantes que marcam o perfil do Masp ou usam hashtags.

Marcar presença é um dos grandes motivos que movem as selfies com a estrela da exposição. "Isso representa o momento em que a gente vive", afirma o professor Gabriel Kazukas, 28. Ao lado da companheira Catarina Aguiar, 27, também professora, ele tirava selfies enquanto andava pelo espaço dedicado à artista modernista no Masp. "Além de viver, a gente consegue registrar algo a que pertenceu junto ao quadro", explica Aguiar.

Na frente do "Abaporu", a disputa pelo espaço da selfie é grande. Pedidos de licença e celulares em punho divertiam alguns e irritavam outros visitantes. "É assim o tempo todo", comentou uma funcionária do museu. Outro quadro popular para fotos, o "Cristo Abençoador", pintado em 1834 pelo artista francês Jean-Auguste Dominique Ingres, faz parte do acervo fixo do Masp e chegou a virar meme.

O incentivo às fotos dentro dos museus é uma tendência internacional, apesar de ser um fenômeno recente. Desde 2009, o Met (Metropolitan Museum of Art), de Nova York, tem um departamento de mídias digitais para pensar estratégias de integração das obras na internet. No Brasil, o MIS (Museu da Imagem e do Som) foi um dos pioneiros em trazer exposições com espaços interativos e "instagramáveis", como a "Exposição Stanley Kubrick", de 2013.

"Hoje todos querem, de algum modo, contar onde estiveram e mostrar sua visão particular daquilo que viram", diz Cleber Papa, diretor cultural do MIS. "A ideia também é que as pessoas tenham na exposição não só um espaço de cultura, mas um entretenimento qualificado."

Em 2014, outra exposição que ganhou espaço nas redes foi a da artista japonesa Yayoi Kusama no Instituto Tomie Ohtake. Em três meses de exposição, o público chegou a 500 mil visitantes. "Ela não era uma artista conhecida no Brasil, mas muito popular lá fora, onde a arte dela atrai multidões. É uma artista muito lúdica e a exposição tem uma parte interativa, então as pessoas tiravam foto sem parar, viralizou nas redes sociais e a gente teve que aprender a lidar com filas", conta Vitoria Arruda, diretora do Instituto. Depois do sucesso de público, o museu passou a pensar em estratégias de redes sociais.

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Para Arruda, as redes sociais aproximam as pessoas da arte e faz com que elas se sintam mais à vontade para frequentar museus. "Muita gente se sente inibida, as postagens fazem o museu se tornar mais parte da vida, faz as pessoas terem vontade de ir e de participar daquilo", opina.

A pesquisadora Andrea Lombardi, responsável pelas relações institucionais do MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo), concorda. "As redes sociais servem para aproximação do público com a arte", diz. "Mesmo que seja uma moda por conta das redes sociais ir ver a Tarsila, pode ser um começo para uma pessoa conhecer a arte", diz, Andrea, destacando que a população conhece pouco do modernismo brasileiro e sua importância.

Tarsila é pop?

Mas a Tarsila bombou nas redes porque é pop ou ficou pop porque bombou nas redes? "A Tarsila não é um nome desconhecido, bons livros escolares passam por alguma imagem dela, e o Masp é um museu que é um ponto de referência na cidade, mas é um museu que tem um trabalho nas redes sociais que não começou agora", analisa Giselle.

Para a especialista, as redes sociais têm um poder multiplicador que fizeram a artista se tornar um fenômeno para o público como se fosse um show de rock em que todos andam com o celular na mão. O perigo, diz, é haver uma deseducação do olhar voltado para a arte. "Essa movimentação toda acaba privilegiando mais a foto que vai ser feita e publicada na internet do que o olhar para o quadro propriamente dito. As pessoas passam rápido pela obra", afirma.

O efeito perverso do fenômeno, diz a especialista, é o surgimento de pseudo museus e pseudo exposições feitas apenas para serem postadas no Instagram e que não necessariamente são expressões artísticas. "Temos que relativizar esse encanto das exposições se transformarem em pontos de selfie e não de relação do público com as obras. Uma das questões mais importantes é pensar em como trabalhar com esse potencial de multiplicação de público sem banalizar o espaço expositivo", conclui.

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