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Artistas indígenas fogem dos rótulos: "ninguém aqui é Iracema"

Ilustração ?Não somos Iracema?, de Yacunã Tuxá - Yacunã Tuxá/Reprodução
Ilustração ?Não somos Iracema?, de Yacunã Tuxá Imagem: Yacunã Tuxá/Reprodução

Camila da Silva e Gabriella Mesquita

Colaboração para o TAB, de São Paulo

13/09/2019 04h00

O processo de colonização no Brasil cristalizou, no imaginário popular, uma imagem padrão da pessoa indígena: figuras seminuas, com pinturas no corpo e cocar de penas na cabeça. Esse estereótipo muito antigo, construído pelo olhar de quem vem de fora, reforça uma ideia que não corresponde à diversidade dos povos.

A população indígena brasileira soma hoje mais de 817 mil pessoas, em 305 diferentes etnias, segundo dados do IBGE. Imagine cada etnia com sua própria cosmogonia, saberes e modos de entender o mundo. A arte que produzem, por tabela, é muito mais diversa do que imaginamos. Não se trata só de artesanato, cestaria e miçangas.

Para Renata Tupinambá, 30, jornalista e co-fundadora da Rádio Yandê, a primeira rádio indígena do Brasil, essa visão colonialista atrasa sua autonomia. "Temos de lidar com essa mentalidade do passado. O indígena é visto como tutelado e realmente incapaz. A gente foi muito objeto e, quando o objeto toma palavra, isso assusta os que nunca lidaram com isso", explica. Através da arte e longe do estereótipo, jovens indígenas reafirmam hoje sua identidade.

Renata é uma das organizadoras do primeiro Festival de Música Indígena Contemporânea (YBY), que reunirá em São Paulo 14 artistas entre rappers, instrumentistas, cantoras e cantores. A programação conta ainda com um desfile de moda e exposição de artesanato e peças de artes visuais. O festival, que acontece de 29 de novembro a 1º de dezembro de 2019, surgiu a partir da necessidade de mostrar a cultura, a arte e a identidade do povo indígena, a partir da própria população.

Renata (Aratykyra) Tupinambá, co-fundadora da Rádio Yandê e criadora do YBY, o Festival de Música Indígena Contemporânea - Gabriella Mesquita/Divulgação
Renata (Aratykyra) Tupinambá, co-fundadora da Rádio Yandê e criadora do YBY, o Festival de Música Indígena Contemporânea
Imagem: Gabriella Mesquita/Divulgação

"Há muitos artistas que tentaram entrar no mercado e ouviram que seu rosto não vende. Como você se insere no mercado de trabalho que exige que você seja de uma determinada maneira?", questiona Renata. "Nós estamos atrás disso, mostrando diferentes formas de expressão, contando as histórias por meio da música e construindo uma identidade. Queremos juntar o contemporâneo com toda essa tradicionalidade das culturas."

Representatividade e representação

Indígenas também lançam mão das artes plásticas como meio de se expressar. Entre eles, destaca-se o trabalho de Yacunã Tuxá, de 25 anos, nascida no interior da Bahia, na divisa com Pernambuco. "Nós temos muito a dizer e a arte é fundamental para mim nesse sentido, porque toca as pessoas e leva sua mensagem."

Yacunã cresceu em uma aldeia Tuxá na Ilha da Viúva, às margens do rio São Francisco, e hoje vive em Salvador, onde cursa Letras na UFBA (Universidade Federal da Bahia). Na arte, ela reflete sobre a influência das danças, músicas e pinturas e de sua família.

A artista trabalha com desenhos: faz um rabisco em um caderno, a partir de ideias, frases ou mensagens que surgem de seu dia a dia. Depois disso, ela redesenha e colore os desenhos em um software livre, chamado Krita. Ela escolheu esse programa por não ter experiência com desenhos digitais e pelo programa ser gratuito, mais acessível. Yacunã trabalha em uma mesa digitalizadora simples e, depois, divulga as ilustrações em sua conta no Instagram. Hoje seus desenhos digitais circulam e trazem uma discussão política e identitária nas redes sociais.

"As sereias", de Carmézia Emiliano, parte da exposição da artista em "Maloca Querida", em Roraima -  Carmézia Emiliano/Reprodução
"As sereias", de Carmézia Emiliano, parte da exposição da artista em "Maloca Querida", em Roraima
Imagem: Carmézia Emiliano/Reprodução

Além de integrar a liderança jovem nas lutas territoriais dentro e fora de sua comunidade, ela afirma fazer arte para "lembrar às pessoas que indígenas existem". "Eu queria mostrar o meu cotidiano, mostrar que eu ando com roupas comuns, para que as pessoas entendam que a identidade é uma coisa que está por dentro. Não é um acessório", diz.

No espaço universitário, ela teve sua identidade questionada. "As pessoas me perguntavam se eu era indígena mesmo e chegavam a questionar o que eu estava usando em relação a roupas. As pessoas têm essa visão de que o índio não pode usar um celular ou um notebook, de que no momento em que o índio sai da aldeia, ele não é mais indígena", explica Yacunã, que também usa a a arte para refletir sobre o que é ser uma mulher indígena e lésbica, vivendo em um território urbano.

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