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Arte como remédio: quando um museu pode ajudar na cura de doenças

Os salões da Belle Époque, no 1º andar do Museu de Belas Artes de Montreal - Marc Cramer / Divulgação
Os salões da Belle Époque, no 1º andar do Museu de Belas Artes de Montreal Imagem: Marc Cramer / Divulgação

Da agência Éder Content, em colaboração para o TAB

25/09/2019 04h00

Na bilheteria do Museu de Belas Artes de Montreal (MMFA), no Canadá, você pode pagar seu ingresso usando dinheiro vivo, cartão de crédito, de débito, ou uma receita médica.

Em uma ação considerada pioneira no mundo, o museu fez parcerias com médicos da associação Médecins Francophones du Canada, que se registraram no programa para emitir 50 receitas cada um. A prescrição médica é válida como entrada no MMFA para dois adultos e duas crianças, com o objetivo de complementar o tratamento tradicional dos pacientes.

O MMFA é referência mundial quando o assunto é arteterapia -- o uso da arte em tratamentos médicos -- para os mais diversos casos. Eles indicam visitas para pacientes com diferentes condições, de anorexia a Alzheimer, passando por arritmia cardíaca, problemas de saúde mental e epilepsia.

"É um mundo muito amplo, podemos atuar em muitos espaços", afirma Maria Alice do Val Barcellos, coordenadora do curso de Arteterapia do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. "Acho importante não invadir o espaço do psicólogo, do psicoterapeuta. Vamos por outro caminho, trabalhando com a arte para que a pessoa possa se encontrar e descobrir algumas coisas sobre ela própria."

Pavilhão pela Paz Michal e Renata Hornstein do Museu de Belas Artes de Montreal, visto de fora - Marc Cramer/ Divulgação
Pavilhão pela Paz Michal e Renata Hornstein do Museu de Belas Artes de Montreal, visto de fora
Imagem: Marc Cramer/ Divulgação

O trabalho do arteterapeuta costuma ser indicado por um psicólogo para que o paciente consiga se expressar de uma maneira mais lúdica, e envolve a produção e o consumo de arte em diferentes formas — pintura, música e dança são alguns exemplos.

É importante esclarecer que a arteterapia não é, por si só, considerada um tratamento. A ideia é ser complementar e contribuir com a melhora do paciente. "Não posso afirmar que alguém que esteja com a saúde mental comprometida vai melhorar só com a arteterapia, não podemos passar a imagem de que é mágico", alerta Barcellos. "Mas temos a chance de ajudar muito, principalmente na prevenção. A arte nos deixa mais soltos, mais perceptivos, mais atenciosos. Ajuda também na memória."

Pesquisas na área apontam que o uso da arte na saúde é aprovado por pacientes e médicos, além de ter se provado custo-efetivo no Reino Unido para pacientes com depressão. Lá, foi criado em 2014 o All-Party Parliamentary Group on Arts, Health and Wellbeing (Grupo Parlamentar Multipartidário em Artes, Saúde e Bem-Estar, em tradução livre), com o objetivo de melhorar a conscientização sobre os benefícios que a arte pode trazer para a saúde e o bem-estar.

Vitamina de cultura

Na Dinamarca, pelo menos quatro cidades estão testando a chamada Kulturvitaminer. É isso mesmo que o termo parece indicar: vitamina de cultura. O país nórdico está investindo na criação de grupos de pessoas com depressão, que estejam desempregadas ou em licença médica, para consumir cultura juntas.

"Era uma atividade que me tirava de casa, algo que não era uma consulta médica, onde eu era tratado como 'normal'. Porque eu não sou minha ansiedade, eu sou eu", disse Jonas Thrysøe, um dos participantes, ao jornal britânico The Guardian.

Mais de 200 pessoas já participaram do programa, que costuma levar os grupos para duas a três atividades culturais por semana, durante dez semanas.

A Dinamarca e o Reino Unido não são os únicos países que investem na arte como "suplemento". Na Austrália, arte e saúde estão ligadas desde 2013, dentro do Departamento de Comunicações e Artes, pelo National Arts and Health Framework, que tem o objetivo de reunir informações e promover o uso da arte na saúde pública. Suécia e Noruega também são considerados países avançadíssimos nesse quesito.

E no Brasil?

Quando pensamos em arte na psiquiatria, é impossível não lembrar da brasileira Nise da Silveira. Contrária a tratamentos agressivos, como a lobotomia e o eletrochoque da forma como era realizado, ela foi pioneira ao introduzir ateliês de pintura e modelagem na área da terapia ocupacional no Centro Psiquiátrico do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, na década de 1940. Posteriormente, os trabalhos dos pacientes seriam reunidos no Museu de Imagens do Inconsciente, centro de estudo e pesquisa fundado por Nise em 1952.

Hoje, o Brasil tem ações pontuais que levam a arte à saúde pública. Na cidade de São Paulo, por exemplo, há parcerias entre alguns Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) da Prefeitura — que acolhem e estimulam a reintegração social de pessoas com transtornos mentais — e a Pinacoteca.

Acervo Nise da Silveira/Itaú Cultural
Imagem: Acervo Nise da Silveira/Itaú Cultural

Em 2016, Mariana Carvalho Groetares de Castro, terapeuta ocupacional do CAPS Jaçanã/Tremembé, procurou o museu para marcar uma visita guiada aos pacientes a fim de trabalhar habilidades sociais. A visita se transformou em uma parceria duradoura inserida no Programa Educativo para Públicos Especiais (Pepe) da Pinacoteca, criado em 2003.

Os pacientes do CAPS fazem excursões periódicas ao museu, numa prática que ajuda na reintegração social. "Trabalhamos todo um processo que se chama treino de habilidades. Chegar no horário, se organizar, ter contato com dinheiro para pagar o ônibus, usar o transporte público... O objetivo é ocupar novos espaços e entender que o museu é um lugar que ele pode frequentar", relata Mariana.

Divulgação
Imagem: Divulgação

Na Pinacoteca, os pacientes observam e debatem sobre as obras, fazendo paralelos com suas realidades. "O objetivo maior é questionar: quem tem espaço na arte? Os pacientes passam a ver o museu como um espaço transformador, de integração social", diz Margarete de Oliveira, analista de educação responsável pelo Pepe. Ela conta que as atividades com retratos e paisagens, por exemplo, fazem os pacientes refletir sobre si mesmos e seus entornos.

Como comprovado no Reino Unido, o investimento em arte por parte do poder público dá retorno inclusive financeiro, evitando gastos extras com saúde.

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