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Do Tumblr ao Instagram, como o conteúdo erótico aparece nas redes sociais

Foto: Vidar Nordli-Mathisen/ Unsplash
Imagem: Foto: Vidar Nordli-Mathisen/ Unsplash

Luiza Pollo

Da agência Eder Content, colaboração para o TAB

10/03/2020 04h00

Em dezembro de 2018, o Tumblr anunciou a decisão mais polêmica já tomada pela rede: a proibição de conteúdo sexual explícito e nudez. Algo que muita gente já sabia ficou provado em números, confirmando que boa parte dos usuários estava na rede pelo conteúdo erótico 'diferenciado'. Fotos artísticas, discussões sobre sexo, representatividade e feminismo encontravam espaço (e engajavam uma comunidade sólida). Apesar de servir a diversos outros propósitos, o Tumblr ficou mesmo marcado pela forma particular como seus usuários retratavam a sexualidade.

Em um ano de proibição de conteúdo adulto, a rede perdeu 21% de visitantes, reportou a The Atlantic. O volume médio mensal de cliques na página inicial nos EUA caiu quase pela metade e o app no Android perdeu 35% de usuários ativos na média diária. Além disso, o número de acessos ao site só cai, assim como o tempo que os usuários passam nele. De 2018 para 2019, esse número diminuiu em mais de um minuto, e as pessoas têm visto em média 1,5 páginas a menos em cada visita ao site.

Assim como a maioria do que consumimos, o conteúdo adulto também já é parte corriqueira das redes sociais, e não foi o fim do tumblr porn que acabou com ele -- só ficou um pouco mais difícil de encontrá-lo -- e novas modalidades ganharam espaço.

Undress You . . . #illustration #agathesorlet #undress #art #creation #couple #kiss

Uma publicação compartilhada por Agathe Sorlet (@agathesorlet) em



Para o psicólogo Paulo Tessarioli, presidente da Associação Brasileira dos Profissionais de Saúde, Educação e Terapia Sexual (Abrasex), a expressão da sexualidade nas redes sociais é um reflexo natural da sociedade atual. "Se formos pensar historicamente, passamos muito tempo vivendo em grupos, e mais recentemente criamos condições para que as pessoas tivessem a oportunidade de estar em ambientes privados, com condições de manter sigilo. Isso é inédito na humanidade, impensável há 300, 400 anos. Mas começou a ficar chato. As pessoas querem compartilhar", analisa.

A vontade de mostrar experiências privadas, somada a equipamentos que produzem fotos e vídeos em qualidade cada vez maior, em uma década em que tudo pode ser compartilhado instantaneamente com milhões de pessoas ou com grupos específicos criou o ambiente propício para que a intimidade sexual fosse exposta nas redes, afirma o especialista.

Essa necessidade de compartilhamento transborda a internet e já pode ser vista em outros meios, como a televisão. A sexóloga Laura Muller virou sensação do programa Altas Horas, da TV Globo, ao responder perguntas espinhosas da plateia e de convidados sem tabus. Cauã Reymond que o diga: em novembro do ano passado, o ator se chocou ao descobrir o que é beijo grego. Outro exemplo de conversa franca sobre sexo na TV aberta é o programa Amor & Sexo, que chegou a mostrar nu frontal de dançarinos em 2015.


Não há estudos que especifiquem a porcentagem desse tipo de conteúdo nas redes -- e fica até difícil separar o que é arte, pornografia ou simplesmente uma foto mais provocativa. Em 2019, o portal de pesquisas Statisa divulgou um estudo sobre o uso da internet nos Estados Unidos que estima que 4% dos sites sejam pornográficos, e que a proporção de pesquisas por esse tipo de conteúdo em buscadores é de 13% e 20% em pesquisas web e mobile, respectivamente. No Brasil, uma das pesquisas mais recentes sobre o assunto -- realizada por telefone pela Quantas Pesquisas e Estudos de Mercado a pedido do canal a cabo Sexy Hot -- concluiu que 22 milhões de brasileiros consomem pornografia.

Enquanto sites mais 'tradicionais' de pornografia (se é que dá para usar essa palavra neste contexto) costumam oferecer um conteúdo padrão -- já conhecido desde os cinemas privês e fitas escondidas nos cantos menos acessíveis das locadoras --, as redes sociais permitem novas linguagens e estéticas.


Aplicativos como o Dipsea, que reúne histórias eróticas em áudio, ganham espaço com uma estética minimalista e posts altamente compartilháveis -- de frases sobre amor próprio e sexualidade até fotos sugestivas.

No Instagram, surgem páginas de ilustrações eróticas de diversos estilos. O artista Tai Melo criou a Nudegrafia em 2014 e afirma ter chegado à marca de 400 mil seguidores antes de a página ser banida. "Esse mercado é cruel com quem produz", diz Melo. "Parece que você fica com uma espécie de toque de midas ao contrário. Tudo o que você faz tem um toque de pecado."

A sucessora, @nudegrafia_mirror acumula mais de 92 mil fãs, mas já não é atualizada com frequência pelo artista. Melo percebeu que os posts mais denunciados envolviam cenas "menos convencionais" de sexo. "Acho que o público brasileiro é muito conservador. Eu sentia que quando o conteúdo envolvia sexo entre um casal a aceitação era melhor. Os que envolviam, por exemplo, menage, eram mais censurados."


Termos de uso

As regras de publicação desse tipo de imagem, vídeo, áudio e até texto mudam de rede social para rede social. Em geral, os termos de uso procuram proteger menores de idade, pessoas que não querem ser expostas 'de surpresa' a imagens explícitas e costumam esbarrar na dificuldade de identificar consentimento para a publicação. Definir o que configura ou não material pornográfico é uma linha tênue, e o conteúdo que bebe da herança mais artística do Tumblr costuma ser um campo de batalha ainda mais indefinido.

A maioria das redes permite mostrar obras de arte que retratam nudez, assim como fotos de mulheres amamentando e seios após mastectomia. No entanto, imagens que se enquadram nessas categorias acabam sendo denunciadas e deletadas com frequência, conforme relatos de responsáveis pelas páginas, como ocorreu com Melo.

O controle costuma ser feito em parte por inteligência artificial -- que pode ser falha --, e em parte por humanos. É um trabalho estressante que requer olhar imagens de violência, nudez e outros conteúdos pesadíssimos durante longas jornadas de trabalho.

Se comparado com Instagram, Facebook e YouTube, por exemplo, o Tumblr tinha regras bem mais flexíveis para a disponibilização de pornografia, mas agora chega a ser mais restrito do que o Twitter, por exemplo. Na política de uso divulgada em novembro de 2019, a rede de Jack Dorsey afirma que esse tipo de conteúdo deve ser protegido com um aviso de 'imagem sensível', e só pode ser visualizado por quem consentir em abri-lo.


no Tumblr, atualmente qualquer conteúdo adulto é proibido -- só há possibilidade de exceções em contextos jornalísticos, artísticos, educacionais ou políticos, além de textos. Instagram e Facebook vão na mesma linha, e uma decisão recente tornou as redes ainda mais restritivas: até mesmo emojis com conotação sexual (pêssego, berinjela, gotinhas) ficam proibidos quando usados para "fazer proposta implícita ou indireta de solicitação sexual".

No YouTube, vídeos de ASMR escondem pornografia em áudio, apesar da proibição de qualquer "conteúdo explícito com objetivo de satisfação sexual" no site. Aliás, o YouTube é um dos maiores exemplos de que as proibições acabam invalidadas pelo comportamento de diversos usuários e dos próprios algoritmos. Em 2019, o New York Times revelou que pedófilos tinham à disposição praticamente um catálogo de vídeos de crianças, interconectados pelo sistema de recomendações do site. O YouTube já havia bloqueado a seção de comentários em diversos vídeos que mostravam crianças exatamente pelo mesmo problema, e diversas marcas retiraram anúncios do site como boicote após o escândalo.

É fácil constatar que as proibições são falhas em todas as redes citadas. Para Tessarioli, a solução está na educação. "É meio clichê, é chover no molhado e eu infelizmente gostaria de não precisar falar isso, mas faltam ações educativas na área de educação em sexualidade", afirma. "Se a sociedade em geral entendesse o que é, provavelmente a gente saberia separar as coisas e não ficaria alarmado diante de uma produção artística de expressão sexual."

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