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A expedição que vai mapear as populações de antas na Amazônia

A pesquisadora ecóloga Patricia Medici, especializada em antas - Marina Klink/Divulgação
A pesquisadora ecóloga Patricia Medici, especializada em antas Imagem: Marina Klink/Divulgação

Edison Veiga

Colaboração para o TAB, de Bled (Eslovênia)

09/09/2020 04h01

Quando a anta come frutos, ela os ingere inteiros. As sementes acabam sendo devolvidas ao meio ambiente pelas fezes. Mas o bicho é daqueles que se movimentam muito pelas matas — cientificamente, considera-se sua "área de uso" (área de circulação) um território de cerca de 500 hectares. Isso provoca um fenômeno interessante: a dispersão de sementes. Por isso a anta é conhecida como "jardineira da floresta".

Desde 1996 a engenheira florestal, ecóloga e conservacionista Patricia Medici, do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), se dedica a estudar esse representante da fauna brasileira, o maior mamífero terrestre da América do Sul. E agora ela se prepara para uma aventura inédita: fazer um detalhado e sistemático estudo sobre a espécie no maior bioma do Brasil, a Amazônia.

"A anta está na lista vermelha [ou seja, ameaçada de extinção] tanto de acordo com a União Internacional para Conservação da Natureza como segundo o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). Mas é importante notar que, no Brasil, as condições desse animal em diferentes biomas são diferentes — as ameaças são diferentes", diz ela, ao TAB.

O Pantanal, por exemplo, é considerado o paraíso das antas. "Há uma área contínua, enorme, bem conservada, onde a população está saudável, se reproduz bem", pontua a pesquisadora. No Cerrado, por outro lado, o mar não está para peixe — ou melhor, o mato não está para anta. "É o grande epicentro do desenvolvimento econômico do País, com uma colcha de retalhos monstruosa com todas as ameaças: atropelamentos em rodovias, agricultura em larga escala e todos os agrotóxicos que vêm com essas culturas, caça, perda e fragmentação do habitat."

Na Mata Atlântica, primeiro bioma estudado pela Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira — programa de pesquisa criado por Medici —, a situação também não é boa. O bioma já está historicamente bastante fragmentado, por causa do desenvolvimento histórico, e a malha viária é abundante. Na caatinga, o bicho nem mais existe. A Amazônia é um local que ainda carece de estudos abrangentes. "Sabemos que há caça realizada nem sempre de forma sustentável, mineração, agricultura em larga escala", lembra ela.

Medici e sua equipe de cinco pesquisadores já traçaram quatro regiões da floresta onde o trabalho deve ser iniciado no ano que vem — houve um atraso devido à pandemia de Covid-19. A ideia é capturar animais e instalar neles colares que permitem monitoramento. "Em algumas áreas vamos estabelecer grids com armadilhas fotográficas, que nos permitem analisar comportamento, organização social, reprodução, enfim, coletar informações importantes."

A pesquisadora e ecóloga Patricia Medici, que estuda antas - Kelly Russo/Divulgação - Kelly Russo/Divulgação
A engenheira florestal e ecóloga Patricia Medici, que estuda antas brasileiras
Imagem: Kelly Russo/Divulgação

Uma expedição preliminar aos locais foi realizada em junho de 2019. As quatro áreas delimitadas têm contextos diferentes. Uma é utilizada para mineração, outra para exploração de óleo de palmeira, uma terceira foi desmatada para agricultura em larga escala e a última tem manejo seletivo da floresta.

Se a pandemia atrapalhou um pouco os planos do grupo, um reconhecimento obtido por Medici em 2020 acabou ajudando a viabilizar o projeto. Em abril, ela recebeu o prêmio principal do Whitley Fund for Nature, chamado de "Oscar verde", por ter criado o maior banco de dados sobre a anta no mundo. Acabou ganhando 60 mil libras (R$ 420 mil). O dinheiro, garante ela, vai todo para o projeto da Amazônia.

"Existe uma grande dificuldade em estudar a anta. É um animal difícil, caro de ser estudado, porque é noturna, solitária, de grande porte. Requer que utilizemos métodos indiretos, como telemetria, colares de monitoramento à distância, armadilhas fotográficas? Todos esses instrumentos são caros", comenta Medici. "Para a instalação dos colares, por exemplo, precisamos de veterinários na equipe, e o processo é feito mediante aplicação de anestesia."

Reconstrutora de florestas

A anta brasileira, cujo nome científico é Tapirus terrestris, é uma gigante da nossa fauna. Pode chegar a 300 quilos, 1,10 metro de altura, 2 metros de comprimento. Trata-se de um parente dos cavalos e dos rinocerontes, completamente herbívoro. "A importância desse bicho é grande porque se trata de um animal dispersor de sementes. A anta come frutos e, quando defeca, espalha as sementes por diversos locais. Suas fezes também servem como fertilizante", comenta ao TAB o biólogo e divulgador científico Guilherme Domenichelli, autor do livro "Criaturas Noturnas: Os Animais Que Vivem na Escuridão dos Biomas Brasileiros" e criador do canal Animal TV, no Youtube.

Um estudo publicado em fevereiro de 2019 na Biotropica, sobre ecossistemas tropicais, mostrou a importância da anta para a recuperação de florestas degradadas. Mas há bastante desconhecimento. "Há quem acredite que são parentes de porcos, de capivaras, de tamanduás? Muitos me perguntam se a anta come formiga, por exemplo", ilustra a pesquisadora.

Patricia Medici conta que ainda vê muito preconceito quanto à anta por causa da conotação pejorativa que seu nome acabou adquirindo. "Muita gente associa o animal à falta de inteligência e isso afeta enormemente a questão de as pessoas sentirem orgulho da presença da anta no país, reconhecerem a importância dela", afirma. Não à toa, sua organização tem insistido em divulgar a importância do bicho e até uma hashtag vem sendo disseminada nas redes sociais: #antaéelogio. "Ainda não conseguimos fazer uma campanha, envolvendo personalidades brasileiras, por exemplo, mas já mensuramos que a hashtag tem sido utilizada por gente de fora da nossa organização. Pegou, ainda não do jeito que gostaríamos, mas pegou", comenta.

O biólogo Filipe França, pesquisador da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e da Rede Amazônica Sustentável, acredita que a solução é reverter a zoeira em carisma. Ele estuda os besouros rola-bosta, também importantíssimos para espalhar nutrientes e sementes pela floresta. "No começo há uma certa repulsa das pessoas, mas na maioria das situações, isso vai se transformando em empatia. O nome tão diferente termina abrindo portas", comenta ele, ao TAB. "Sempre vendo a importância do bicho: digo que, apesar do nome com conotação pejorativa, ele tem um papel fundamental na natureza. A natureza, aliás, é composta por uma rede de organismos e todos eles são importantes. Precisamos dar valor a cada um."