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Conectada e apartidária, geração Z chega à política; há espaço para eles?

Callum Shaw/Unsplash
Imagem: Callum Shaw/Unsplash

Luiza Pollo

Colaboração para o TAB

10/11/2020 14h00

Vídeo de tiozão no TikTok, disparo de mensagem com memes no WhatsApp, gírias jovens em um jingle de campanha. As tentativas de candidatos(as) a cargos públicos de se aproximar da geração Z parecem não convencer muito.

Com um número decrescente de eleitores de 16 e 17 anos segundo números do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) — que votam só se quiserem — a política tradicional não parece, à primeira vista, um lugar acolhedor para esses jovens, que acabam encontrando em pautas identitárias ou grupos de interesses comuns nas redes sociais sua fonte de atividade política.

"Quando a gente pensa em jovens, a gente tem que lembrar que existe todo um processo de socialização política em que a internet está sim se tornando um novo agente socializador", diz Jennifer Azambuja de Morais, professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e estudiosa do comportamento dos jovens na política.

Em uma pesquisa realizada entre 2015 e 2016, com jovens do ensino médio de escolas públicas e privadas nas três capitais do sul do país (Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba), o NUPESAL/UFRGS (Núcleo de Pesquisa sobre América Latina) constatou que a escola começava a perder espaço na socialização política dessa geração. Se antes a família vinha em primeiro lugar e as instituições educacionais em seguida, a internet começou a aparecer em segundo lugar. Em dados iniciais de 2019 da pesquisa, interrompida pela pandemia, a tendência se mantinha.

Escolas, universidades e grêmios estudantis costumavam ser os principais espaços de discussão de ideias politizadas. Não que eles tenham sumido (é só pensar na ocupação das escolas em 2016), mas, hoje, as redes sociais possibilitam uma conversa mais ampla com temas que ecoam no mundo todo e tocam a nova geração: questões de gênero, defesa dos direitos dos negros, da população LGBTQI+ e manifestações em geral. "É o que vem acontecendo principalmente desde 2013, quando as redes viraram lugar de mobilização", lembra Morais.

Para Ana Flávia Silva de Paula, 23, coordena o programa de lideranças cívicas do Acredito, jovens querem 'hackear' o sistema - Ana Flávia Silva de Paula/Acervo pessoal - Ana Flávia Silva de Paula/Acervo pessoal
Para Ana Flávia Silva de Paula, 23, coordena o programa de lideranças cívicas do Acredito, jovens querem 'hackear' o sistema
Imagem: Ana Flávia Silva de Paula/Acervo pessoal

Ana Flávia Silva de Paula, que tem 23 anos e coordena o programa de lideranças cívicas do Acredito (movimento com objetivo de renovação política que elegeu, entre outros, Tabata Amaral e Felipe Rigoni), percebe essas mudanças no dia a dia. "Desde as mobilizações de 2013, quando a internet ganhou um protagonismo muito grande, o jovem foi ganhando um espaço ali que ele não via para política, via mais para relações sociais. E isso foi fazendo também com que a política fosse chegando mais a quem tem de 15, 16 anos, e que não falava tanto sobre isso", percebe ela. O sentimento, desde aquela época, é de mudança. "Os jovens querem hackear o sistema político por dentro", diz de Paula.

Movimentos

Para aqueles que decidem ir além da mobilização online e se engajar em projetos — hackear a política —, os movimentos civis como Acredito, Agora!, MBL, entre outros, têm sido um caminho.

Ilona Szabó, diretora do Instituto Igarapé e co fundadora do Agora!, reflete que sua geração foi desencorajada a ocupar cargos públicos, mas comemora que isso venha mudando. "Sempre nos foi dito 'fique fora da política, porque política é uma coisa suja'. E eu acho que isso foi um grande erro", reflete ela, hoje aos 42 anos.

Para Szabó, 2013 foi um marco para o nascimento dos movimentos cívicos, o que ela vê de maneira positiva. O jovem percebe que precisa se envolver na política formal, ocupando espaços, sejam eles dentro de governos, por meio de conselhos de políticas públicas, como ela mesma fez, ou de outras maneiras. "Na avaliação de como se engajar na política, é muito importante que os jovens pensem qual papel eles querem ter, se é por dentro, se é por fora, se é em uma empresa. Porque a mudança é necessária em todas as esferas", defende ela. "Para mim, sempre foi importante ter voz. Então optei por estar na sociedade civil, de forma independente, onde eu posso dar minha opinião sem amarras — seja de uma corporação, seja de um governo de plantão."

Outro ponto levantado por ela é a importância de se dar espaço a lideranças femininas — e diversas, em geral — na política.

Rafael Mourão Drumond, 27, coordenador nacional do Acredito, se aproximou da política após as manifestações de 2013 - Rafael Mourão Drumond/Acervo pessoal - Rafael Mourão Drumond/Acervo pessoal
Rafael Mourão Drumond, 27, coordenador nacional do Acredito, se aproximou da política após as manifestações de 2013
Imagem: Rafael Mourão Drumond/Acervo pessoal

Apartidários

Os movimentos costumam abrir as portas na política a partir de um grupo que defende os mesmos ideais, sem que o jovem precise necessariamente buscar um partido logo de cara, onde já há lideranças estabelecidas e as regras não costumam favorecer os novatos. Essa é a avaliação de Rafael Mourão Drumond, de 27 anos, coordenador nacional do Acredito, que se define como suprapartidário, ao reconhecer a importância dos partidos na democracia, mas não necessariamente apoiar apenas um ou outro.

Ele também cita as manifestações de 2013 como ponto de virada e afirma que, apesar da polarização acentuada a partir daquele momento, as novas gerações preferem não vestir a camisa de um lado ou de outro, e sim defender ideias ou pessoas. "Acho que a gente está menos preocupado em escolher um time para torcer e mais preocupado em quem realmente vai entregar melhor qualidade de vida, mais prosperidade econômica, aliado a responsabilidade ambiental, direitos humanos, etc", avalia.

Morais, da UFRGS, lembra que o Brasil nunca foi um país de grande identificação partidária, mas ressalta que entre os jovens esse sentimento é ainda menor. "Pelo menos na nossa pesquisa no Sul do país, nem 5% se identificam com partidos políticos. A identificação do voto do eleitor brasileiro e do jovem é personalista. E aí vai muito da identificação por temas", diz ela, na mesma linha de Drumond.

Para conquistar, portanto, esse jovem eleitor, é preciso saber conversar com ele. E pouca gente sabe se apropriar dessa 'ágora virtual', como chama Szabó. "O grande desafio que temos — tanto a política formal quanto o próprio Instituto Igarapé, por exemplo — é como a gente produz conteúdos de qualidade que serão consumidos por essa turma que está ávida por conhecimento e por participar de forma mais informada no debate. A gente precisa mudar nossas linguagens e ir até ele. Eu acho que poucas pessoas têm feito essa tradução", opina.

Tanto Szabó quanto Morais dizem considerar ingenuidade imaginar que será possível atingir esse público sem usar a internet. É lá que eles debatem, buscam informação e se divertem. É, portanto, um local inevitável de discussão e engajamento político. Mas vale lembrar que os nativos digitais também já entram nesse debate de dentro de suas bolhas.

"Diferente dos pais e da escola, que transmitem conhecimento, seja de forma intencional ou não, a internet não está tentando transmitir um conhecimento. Ela está ali na frente do jovem e ele busca o que quer", afirma a professora da UFRGS. "Para esse jovem se auto socializar bem, para ele procurar conteúdo de qualidade, ele tem que ter anteriormente uma educação de qualidade, a gente não tem como fugir disso", defende ela.

Podcast

Na próxima quinta-feira (12), o TAB lança o CAOScast, podcast apresentado pelo antropólogo Michel Alcoforado, produzido pela Consumoteca. O tema do primeiro episódio é exatamente este: como o jovem vem se comportando na política. Se você se interessou pelo assunto, fique ligado para ouvir o bate-papo completo sobre o tema aqui no TAB.