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'Outbêco', versão genérica de restaurante faz sucesso em comunidades do Rio

O dono da rede Outbêco, Daniel Felix, e Alex Backer, franqueado, na filial no alto da favela da Rocinha, no Rio - Lucas Landau/UOL
O dono da rede Outbêco, Daniel Felix, e Alex Backer, franqueado, na filial no alto da favela da Rocinha, no Rio
Imagem: Lucas Landau/UOL

Elisa Soupin

Colaboração para o TAB, do Rio

20/01/2021 04h01

As ruas estreitas da Rocinha, na zona sul do Rio, são confusas para quem não está familiarizado. Isso e a subida íngreme dificultam um pouco o acesso da reportagem de TAB ao restaurante Outbêco, numa viela na parte alta. Não, você não leu errado. Outbêco é inspirado naquela rede famosa da Flórida (EUA), trazida ao Brasil em 1997. No cardápio, nomes de pratos iguais àqueles que são sucesso na original, mantidos em inglês. "Ajuda a valorizar o produto", explica o idealizador Daniel Felix, 46.

O primeiro Outbêco foi inaugurado em agosto de 2020. Sucesso meteórico: já são 40 filiais espalhadas pelas favelas do Rio, segundo o dono. A ideia veio de um momento de fúria de Felix, que nasceu na Lapa e cresceu em Vilar dos Teles, na Baixada Fluminense.

Em 2009, conta ele, comandava duas franquias de cursos de inglês na Baixada. Naquele final de ano, durante uma confraternização de empresas em um hotel bacana na Barra de Tijuca — todo mundo devidamente alcoolizado, ninguém com muito juízo —, um cara debochou dele. "Imagina o povo da tua terra aqui?", disse o incauto. "Fiquei com muita raiva do desdém, quase fomos às vias de fato, a briga teve que ser apartada", diz ele, filho de pedreiro. O nervoso plantou a semente do que, 11 anos depois, viria a ser o Outbêco.

Felix sempre teve o que classifica como vida dupla: andava com os playboys e com a galera da favela, era o menino da Baixada enturmado com a classe média. Começou a cursar Letras na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) em 1992, não chegou a concluir o curso, mas expandiu os círculos sociais. "Eu ia surfar no Recreio [zona oeste do Rio] com os amigos que fiz na faculdade e na volta passava no Outback. Achava aquele lugar o máximo, a comida muito gostosa, o ambiente legal", diz ele, que usa um tipo de coque samurai. Felix é um contador de histórias nato, emenda um assunto no outro sem cerimônia, enquanto sorri e acena para conhecidos que passam pelo Outbêco, o que o dá ares de vereador.

Em 2013, as duas filiais do curso de inglês de Daniel foram à falência. "Fiquei completamente duro", relata. Fez uma coisa e outra para sobreviver até que, em 2016, começou a prestar serviço indireto para o Outback, entregando mercadoria nos galpões. Foi conhecendo gente, se envolvendo com a cozinha, aprendendo os pratos. Garante ter as receitas originais, mas o jeito falastrão fica misterioso quando perguntado como conseguiu o feito e se limita a admitir que teve ajuda interna. Segredo em mãos, era hora de tirar do papel a ideia de levar comida boa pro "povo da terra dele".

Frangos fritos kookaburra servidos na filial do Outbêco, no alto da favela da Rocinha, no Rio - Lucas Landau/UOL - Lucas Landau/UOL
Frangos fritos kookaburra
Imagem: Lucas Landau/UOL

Rei da Pedreira

A primeira filial do Outbêco foi na comunidade da Pedreira, e a explicação não reserva espaço para modéstia. Ele afirma ser altamente popular por ali, fruto dos tempos de menino em que, diz, era craque de bola ("Já joguei até no América") e frequentava muitas favelas. "Sou conhecido em muitas comunidades, joguei futebol em tudo que era quadra e campinho, mas ali na Pavuna eu fui rei, tinha muita fama", conta, aos risos.

Cerca de R$ 10 mil foi o montante investido no Oubtêco 1, saídos diretamente do bolso de Daniel. "Não quis fazer nada muito rebuscado para não assustar os clientes e franqueados", explica ele. Sim, desde antes de abrir a primeira unidade, ele já acreditava que teria franqueados e planejava o sucesso. "Eu já sabia até que estaria dando entrevista sobre", garante. Em agosto de 2020, a missão era reformar um trailer bem acabadinho, mas que ficava em um ponto bom, no circuito gastronômico da comunidade.

Para a inauguração, nenhuma estratégia de marketing, nada de Instagram, nada de Facebook. Ele abriu e esperou o povo vir. O povo veio, meio desavisado, mas com fome. "Chegavam pedindo hambúrguer, pedindo pinga", conta ele. Alguns até estranharam, mas a noite foi de sucesso, segundo ele, que fez de tudo: atendeu gente, fritou batata, assou costela — e muita. "Vendi 78 naquela noite", diz. O estoque acabou.

Hoje, Felix tem centros de distribuição em Costa Barros, Penha e Gardênia Azul, onde armazena os insumos que abastecem cada uma das franquias.

Filial do Outbêco no alto da favela da Rocinha, no Rio - Lucas Landau/UOL - Lucas Landau/UOL
Filial do Outbêco no alto da favela da Rocinha, no Rio
Imagem: Lucas Landau/UOL

Desviando da violência

A versão "made in comunidade" é indiscretíssima: a logomarca é igual, os nomes de pratos também. E a similaridade obscena não demorou a chamar a atenção do restaurante original. Pouco depois da inauguração, Felix diz ter recebido uma visita de advogados do Outback em sua casa, em São João de Meriti, com uma notificação extra-judicial. "Disseram que a gente estava usando o trademark, imitando a costela, e que não poderia usar as placas nos nossos estabelecimentos. Dei uma gargalhada e eles riram também", afirma.

O motivo do riso é o fato de os estabelecimentos ficarem bem no meio de comunidades, onde qualquer tipo de fiscalização é, digamos, bem rara. "Eles entenderam e falaram que a gente precisaria mudar a logomarca no Instagram. Mudamos e foi isso."
Por enquanto o cardápio é enxuto, já que copiar as receitas não é tão simples, mas Daniel diz que isso vai mudar. "Não vamos vender nada que não tenha no Outback e já estão para entrar mais dois pratos no menu."

TAB entrou em contato com o rede de restaurantes, que afirmou, em nota, ser praxe alertar pessoas ou instituições que façam uso indevido ou imitação de suas marcas, para assegurar que todos saibam os caminhos corretos que podem e devem ser seguidos, garantindo que não haja risco de confusão ou indução ao erro para os consumidores. O restaurante disse, ainda, que fica orgulhoso em poder inspirar pessoas.

Se com o Outback a história se resolveu com facilidade e nem chegou à Justiça, a violência do Rio volta e meia fica no caminho dos negócios. A primeira tentativa da reportagem de TAB de visitar uma franquia não deu certo porque a comunidade Jorge Turco, na zona norte, havia registrado um tiroteio forte naquele dia. Dias depois, Daniel contou que, em uma visita ao morro Santo Amaro, visitando uma franqueada, um tiroteio começou e ele precisou se jogar no chão.

A ordem dos morros vem do tráfico e, sobre o assunto, Daniel é sucinto. "Existem as leis, a gente obedece e tudo fica bem, ninguém incomoda", diz ele, sobre a lição de empreendedorismo onde o Estado não chega.

O sonho do Outbêco próprio

O interesse da clientela em virar empresária do ramo alimentício surgiu (e cresceu) rapidamente, conforme ele esperava. Manicures, motoboys, trabalhadores que querem ser donos do próprio negócio têm procurado Felix para abrir uma portinha de Outbêco como franqueado. Daniel cobra uma taxa fixa única: um salário mínimo é o necessário para ingressar no grupo, mais R$ 150 mensais, investidos em marketing. "O investimento máximo para abrir um Outbêco é de R$ 10 mil, que são usados para pintar uma parede de preto, comprar os utensílios necessários para começar a produzir, então é um investimento inicial possível, porque as pessoas parcelam tudo", diz ele.

Um cuidado do idealizador é com a qualidade do atendimento. Ele recomenda que não se fale palavrão; muita gíria no atendimento também é um hábito a ser evitado. Usar os termos em inglês é importante. Não é franguinho, é kookaburra. Costela, não; é ribs. "Falar assim ajuda a ganhar clientes, mas muita gente não entende ainda. Eu dou as costas e voltam a falar franguinho", confessa ele, que, ao mesmo tempo que tenta implementar um padrão à inglesa, admite que cada Outbêco acaba tendo uma identidade própria. "Essa é a graça, cada unidade terá uma personalidade e estilo", aposta ele.

Cardápio e embalagens do Outbêco, rede carioca de restaurantes inspirada no Outback Steakhouse - Lucas Landau/UOL - Lucas Landau/UOL
Cardápio e embalagens do Outbêco, no Rio
Imagem: Lucas Landau/UOL

Dona da filial que a reportagem visitou, na Rocinha, Priscila Carvalho, 35, tem um salão de beleza e resolveu investir em um Outbêco para dar mais autonomia financeira ao marido, Alex Backer, 36, que trabalha como motoboy. "Parcelei tudo, fritadeira, forno, tudo", conta ela, que faz questão que a reportagem prove os pratos oferecidos.

O ponto foi inaugurado no dia 17 de dezembro e é simples, com paredes pintadas de preto, uma TV grande, para que a clientela assista a jogos em dia de partida, e cadeiras pretas de plástico. "Mais pra frente, quero fazer um pagodinho aqui na rua, pro pessoal", antecipa. Os pratos de seu cardápio são apresentados com foto, para o público leigo saber do que se tratam as nomenclaturas pouco familiares.

Priscila, que é moradora do Complexo do Alemão, não escolheu a Rocinha ao acaso. "Queria investir na maior favela de todas, e onde tem mais gente é aqui", diz ela, que já pensa em abrir Outbêcos em outras partes da imensa comunidade — de acordo com o IBGE, são mais de 25 mil domicílios no local. O primeiro vive cheio, apesar da pandemia (pouca gente usa máscara por lá), e são muitos os pedidos que o restaurante atende por delivery. "A gente entrega até em Copacabana e na Barra", diz ela, mostrando que o sucesso extravasa o perímetro já amplo da comunidade.

Caso o leitor tenha chegado ao final do texto curioso quanto à similaridade da comida servida em relação às versões originais fica uma singela impressão: os pratos são bem servidos, custam cerca de metade do preço, alguns são muitos parecidos, outros nem tanto. Gostosos? Sim.