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'Guardião da Sé', sacristão cuida de catedral em Olinda há mais de 50 anos

Gilvan Pereira da Silva, o sacristão que desde a década de 1970 cuida da Catedral da Sé, em Olinda (PE) - Clara Gouvea/UOL
Gilvan Pereira da Silva, o sacristão que desde a década de 1970 cuida da Catedral da Sé, em Olinda (PE) Imagem: Clara Gouvea/UOL

Wagner Oliveira

Colaboração para o TAB, de Olinda

22/08/2021 04h00

Apoiado numa bengala e com passos lentos, seu Gilvan caminha pela Catedral da Sé, no Sítio Histórico de Olinda. Vez por outra, pede a ajuda de alguém para subir degraus ou para sentar. No cós da calça, traz um molho pesado de chaves. Nada que acontece ali dentro escapa do olhar atento dele.

Aos 85 anos, Gilvan Pereira da Silva vai todos os dias à Igreja da Sé, com exceção das segundas-feiras, dia de folga para a Igreja Católica. Chega por volta das 7h e só volta para casa depois das 16h, quando a catedral fecha. Faz disso seu passatempo preferido. A dificuldade para andar não o impede de zelar pelo santuário e, mesmo aposentado, seu Gilvan ainda exerce a função de sacristão, por amor ao que sempre fez. São mais de 50 anos de trabalho dentro da igreja que se confunde com sua casa. Tanta dedicação e cuidado renderam a ele um título que carrega com orgulho, o de "guardião da Sé".

Há 72 anos, ele dedica suas horas de trabalho aos cuidados com a Arquidiocese de Olinda e Recife. "Sou muito feliz aqui", diz o guardião. Atualmente, é uma espécie de supervisor da catedral. As pessoas da igreja em Pernambuco dizem que alguém ir à Sé e não conhecer seu Gilvan é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa.

Em 15 de setembro de 1948, dia de Nossa Senhora das Dores, o menino Gilvan, então com 12 anos, chegou para seu primeiro ofício no Seminário de Olinda. Nascido na cidade de Bezerros, no Agreste de Pernambuco, ele já acompanhava as missas e seu pai autorizou que viesse com o padre que havia sido transferido para Olinda. "Cheguei no seminário para trabalhar como copeiro e fui gostando ainda mais da igreja. Todas as pessoas sempre foram muito boas comigo", lembra. Seu Gilvan também foi auxiliar de serviços gerais, antes de chegar ao posto de sacristão.

Gilvan Pereira da Silva, o sacristão que cuida da Catedral da Sé, em Olinda (PE) - Clara Gouvea/UOL - Clara Gouvea/UOL
Seu Gilvan, conhecido como o 'guardião da Sé'
Imagem: Clara Gouvea/UOL

Em sua trajetória na igreja, conviveu com cinco ex-arcebispos. Esteve perto dos homens poderosos da Igreja Católica em Pernambuco como dom Miguel de Lima Valverde, dom Antônio de Almeida Moraes Júnior, dom Carlos de Gouveia Coelho, dom Hélder Pessoa Câmara e dom José Cardoso Sobrinho. Segue trabalhando com o atual arcebispo, dom Fernando Saburido. "Tudo que eu sei hoje da igreja aprendi e presenciei ao lado de todos esses religiosos. Muitos deles já morreram. Alguns, como dom Hélder, estão enterrados aqui na Igreja da Sé", aponta.

Seu Gilvan também trabalhou nas cidades de Camaragibe, Caruaru e Bonito. Nessa última, conheceu o amor da vida dele, dona Lucinéia, com quem teve três filhos. Foi também na cidade de Bonito onde exerceu pela primeira vez a função de sacristão. Pouco tempo depois, o casal veio morar em Olinda e seu Gilvan voltou a trabalhar na Igreja da Sé. Já na década de 1970, passou a ser o responsável pela Igreja da Sé. Foi designado por dom Hélder para ser o responsável pelos donativos arrecadados pela igreja e que seriam distribuídos à população atingida pelas enchentes naquela época.

Gilvan Pereira da Silva, o sacristão que cuida da Catedral da Sé, em Olinda (PE) - Clara Gouvea/UOL - Clara Gouvea/UOL
O sacristão cuida das relíquias da igreja, uma das mais antigas do Brasil
Imagem: Clara Gouvea/UOL

Relíquias da sacristia

A Catedral da Sé é uma das igrejas mais antigas do Brasil. A primeira construção foi feita no século 16. Ao longo dos anos, passou por várias reformas até chegar ao modelo atual. A idade já não permite que seu Gilvan varra o chão da igreja nem limpe os bancos, como sempre gostou de fazer. Mas entre suas tarefas diárias está a fiscalização desse serviço. "Sou muito exigente com limpeza. Esses bancos têm que estar sempre limpos e o chão bem varrido", comenta ele, enquanto observa um rapaz fazer a limpeza.

Na lateral da igreja fica a casa do sacristão. Lá, seu Gilvan descansa, almoça e depois volta para a sacristia. "Toda tarde eu abro a porta para as pessoas visitarem a sacristia."

A porta, de madeira muito forte, só pode ser aberta ou fechada pelo lado de fora. A chave, que dizem ter mais de 300 anos, não sai do bolso da calça de seu Gilvan. Também pudera, como ainda responde pela sacristia da Sé, cabe a ele cuidar dos bens e das relíquias que estão dentro daquela sala.

Sentando numa cadeira na entrada da sacristia, ele fala sobre tudo que está ali dentro. Entre as coisas mais preciosas estão as relíquias de São João Paulo II, São João XXIII, Santo Antônio e um pouco da terra tirada do túmulo de São Pedro.

Também é lá que fica guardado todo o material utilizado pelo bispo e padres durante a celebração das missas que acontecem nos domingos pela manhã. Óleos sagrados para batismos, crismas e unção dos enfermos, livros, paramentos litúrgicos, galhetas e cálices são todos bem guardados e cuidados por seu Gilvan. "Antes de começar a missa, o bispo e o padre que fazem a celebração passam por aqui para se prepararem. E quando termina a missa é para cá que eles voltam e guardam tudo antes de irem embora", destaca o guardião.

Como Olinda e suas igrejas fazem parte do roteiro turístico de quem visita Pernambuco, os guias de turismo costumam levar grupos grandes para conhecerem o interior da Igreja da Sé. Todos eles, sem exceção, conhecem seu Gilvan. O guardião é apresentado aos turistas que ficam encantados ao saberem dos mais de 70 anos de trabalho dedicados à Arquidiocese de Olinda e Recife por seu Gilvan. Simpático e cuidadoso, o sacristão também é rigoroso. "Não abra as gavetas, não, viu, mocinho", disse a um dos guias que entrou na sacristia com um grupo enquanto ele conversava com a reportagem de TAB do lado de fora da sala.

Gilvan Pereira da Silva, o sacristão que cuida da Catedral da Sé, em Olinda (PE) - Clara Gouvea/UOL - Clara Gouvea/UOL
Dizem que ir à Sé e não conhecer seu Gilvan é como ir a Roma e não ver o Papa
Imagem: Clara Gouvea/UOL

O Papa ao Recife

No dia 7 de julho de 1980, o Recife parou. Católicos de várias partes do estado e até gente de fora lotaram a área central da capital, na Ilha de Joana Bezerra, para acompanhar a visita do Papa João Paulo II.

O líder da Igreja Católica havia chegado de Salvador e passou a tarde e uma noite no Recife, onde celebrou uma missa para mais de quinhentas mil pessoas. Seu Gilvan não teve a oportunidade de assistir à celebração. Foi escalado por dom Hélder Câmara, arcebispo da época, para organizar o Palácio dos Manguinhos, sede da arquidiocese, onde o Papa iria dormir. "De todo meu trabalho na igreja, a chegada do Papa foi a maior emoção que eu tive", conta.

As lembranças daquele dia, até hoje são contadas com orgulho pelo sacristão. "Ele me deu um abraço e me cumprimentou na língua dele, que eu não entendia. Dom Hélder foi quem transmitiu e eu senti muita emoção, porque não poderia ir a Roma mas estava falando e abraçando o santo padre", lembra seu Gilvan.

Antes de deixar o Recife, João Paulo II deu de presente ao sacristão um terço e, quando chegou em Roma, mandou um álbum com as fotografias que os dois tiraram na passagem do Papa pelo Recife. "Guardo tudo com muito carinho e cuidado."

Por ser querido por muita gente, não são poucas as demonstrações de carinho recebidas pelo guardião da Sé. Muitos visitantes da igreja pedem para tirar fotos com ele. Em setembro de 2018, quando completou 70 anos de arquidiocese, foi homenageado em uma cerimônia realizada no Palácio dos Manguinhos.

Seu Gilvan recebeu uma placa das mãos do arcebispo de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido, e foi abraçado pelo padre responsável pela Igreja da Sé, monsenhor Albérico Bezerra. Já em novembro de 2019, ele recebeu o título de cidadão honorário de Olinda na Câmara da cidade. O certificado está numa parede da pequena casa onde ele passa parte do dia na Catedral da Sé - e é mostrado com orgulho a quem o visita. "Dediquei minha vida toda a cuidar do seminário e da igreja e me sinto realizado. Trabalhar na casa de Deus foi uma graça que recebi e tenho orgulho disso."