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Com população acima de 12 anos vacinada, Paquetá ensaia volta à rotina

Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro, concluiu a vacinação de toda a sua população a partir de 12 anos no dia 15 de agosto - Fabiana Batista/UOL
Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro, concluiu a vacinação de toda a sua população a partir de 12 anos no dia 15 de agosto Imagem: Fabiana Batista/UOL

Fabiana Batista

Colaboração para o TAB, da Ilha de Paquetá

19/08/2021 04h00

"Já se vacinou?", grita um adolescente a outro em uma rua na Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro. No domingo, 15 de agosto, quase toda a população acima de 12 anos recebeu a segunda dose da vacina contra a covid-19. Este foi o último dia do projeto "PaqueTá Vacinada", uma parceria da Secretaria Municipal de Saúde do Rio com a Fiocruz.

A iniciativa visa avaliar os efeitos da vacinação em larga escala na ilha de 4 mil moradores que registrou 299 casos e 13 mortes por covid-19 desde o início da pandemia. Segundo a secretaria, até o dia 15, 85,8% dos moradores acima de 12 anos completaram o ciclo vacinal e, até o fim do mês, os idosos tomarão uma terceira dose da vacina.

Um dos adolescentes vacinados foi o estudante Carlos da Silva Fonseca, 15, filho de Linda da Silva, 58, motorista de carros elétricos que circulam com turistas. Na fila na Casa de Artes, um centro cultural transformado em um dos pontos de vacinação da ilha, Carlos contou que não vê a hora de voltar a frequentar a escola e "rezar missa na capela de São Roque".

"Paquetá", em língua indígena, quer dizer "muitas pedras" ou "muitas pacas" — um roedor pequeno. Apesar da polêmica se são pedras ou pacas, a verdade é que basta olhar para o mar ou ir ao parque que é possível encontrar ambos em grande quantidade. A ilha é um distrito do Rio, com 1,2 km² de área e 8 km de perímetro, a uma hora da praça XV. Seu acesso é feito apenas por transporte aquaviário.

A pé e de bicicleta

Nos primeiros meses da pandemia, o distrito foi fechado para turistas e as barcas ficaram disponíveis somente aos residentes. Linda lembra que "não via uma viva alma" e precisou se reinventar. Diante da quarentena, ela se disponibilizou para fazer e levar as compras à casa das pessoas.

A região da estação das barcas é a área com os principais estabelecimentos comerciais. Mercado, floricultura, restaurantes e uma loja de souvenir são alguns deles. Nos primeiros meses, ficou aberto apenas o mercado. Atualmente, todos os comércios voltaram a funcionar.

Quem chega para turistar pode alugar uma bicicleta, uma charrete ou carrinhos elétricos. Já os residentes têm a própria bicicleta e até as cartas chegam por um funcionário pedalando. Carros movidos a combustíveis são limitados para trabalhos ligados à prefeitura, empresas privadas de telefonia e lojas como depósitos de construção.

Pequena, a ilha pode ser visitada a pé. Na praia José Bonifácio ou a da Moreninha, por exemplo, basta seguir sentido banco Itaú (a única agência bancária da ilha) e, em menos de cinco minutos, vê-se o mar.

As placas de sinalização orientam os turistas perdidos. Também é possível contar com a paciência e a ajuda dos moradores, que estão acostumados com o turismo. Ou, ainda, pedir orientação, assim que chegar, no posto turístico ao lado da padaria do Careca.

Linda da Silva e o filho Carlos, que foi vacinado no u?ltimo dia de Projeto 'PaqueTa? Vacinada', na Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro - Fabiana Batista/UOL - Fabiana Batista/UOL
Linda da Silva e o filho Carlos, vacinado no último dia do Projeto 'PaqueTá Vacinada'
Imagem: Fabiana Batista/UOL

Da ponte pra lá

Das 25 ruas de terra e de pedras, 20 chegam às praias, parte mais procurada pelos turistas. Praia Grossa, dos Tamoios, do Buraco, Praia das Gaivotas, Imbuca, Moema e Iracema e Manuel Luís estão na mesma orla da estação de barcas. Já do outro lado estão as praias José Bonifácio, da Moreninha, de São Roque, Pintor Castagneto, do Lameirão e do Catimbau.

Mais para o interior, como na rua Tomás de Cerqueira, onde está localizada a única escola que funciona, a E.M. Joaquim Manuel de Macedo, o barulho e a agitação não são mais encontrados. E é assim nas ruas da Ponte da Saudade para lá, que divide a praia José Bonifácio e praia Grossa d'a Moreninha e dos Tamoios.

Diz a lenda que o nome Saudade diz respeito à amada que aguardava, com saudade, o amor de sua vida que foi embora e não voltou mais. A ponte é feita de madeira e ultrapassa a margem de areia. A visão da ilha é privilegiada e o som do mar, ao bater nas pedras, misturado ao cantar dos pássaros, transmite tranquilidade.

Também há comércios, pequenos estabelecimentos isolados em quintais e barracas de madeira na frente do portão do proprietário. Maria Guerreira, 51, é uma dessas comerciantes. Instalada na porta de casa, com duas madeiras apoiadas em dois tripés, ela vende objetos de decoração usados e buquês de flores de madeira natural feitos por ela.

Agitada, a artesã está de agasalho e meia calça mesmo com o calor. Diz que é de Pernambuco, mas o sotaque indica uma estrangeira latino-americana. Há 31 anos mora ali com a família. Os parentes não pretendem ir embora, já Maria não vê a hora de "ir para o estrangeiro visitar o genro".

Casa com placa 'Mais barcas. Menos pandemia' na Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro - Fabiana Batista/UOL - Fabiana Batista/UOL
Moradores pedem mais barcas para poderem ir e vir do Rio
Imagem: Fabiana Batista/UOL

'Mais barcas. Menos pandemia'

A gari varrendo lança um "bom dia" para os que cruzam seu caminho. Um homem sentado na calçada em uma cadeira de praia puxa assunto com os passantes. O vendedor de salgados, de bicicleta, cumprimenta a todos, acenando com a cabeça. Como num pequeno bairro, todos conversam quando se cruzam.

Os moradores são, em sua maioria, idosos e os que se esbarraram na reportagem nesse fim de semana de sol tinham uma história para contar.

Carlos Roberto da Silva, 63, o Grilo, trabalhador de serviços gerais no hospital municipal há 32 anos, foi um deles. Contou que a juventude foi regada a galanteios e noitadas na discoteca do Iate Clube. Boa parte da conversa com TAB cantarolou músicas de sucesso - Sidney Magal e Kid Abelha estão em seu repertório favorito. Além de não ver a hora do Carnaval voltar "para me fantasiar e brincar nos blocos", Grilo já voltou a trabalhar, depois de meses em casa, e vacinado, toma suas cervejinhas na padaria do Careca, depois do expediente.

Outra situação perceptível é a organização social. As pequenas faixas "Mais barcas. Menos pandemia", por exemplo, estão por toda parte. Esta foi uma das formas que os habitantes encontraram para reivindicar mais horários de funcionamento do transporte aquaviário, em meio à pandemia, para poderem ir e vir do Rio.

Além dos que foram criados ali, há ainda cariocas que procuram no distrito o sossego que não encontraram no continente. Este é o caso do guarda municipal Luiz Ricardo dos Santos, 48, que, seduzido pela tranquilidade e segurança, se mudou há quatro anos.

Criado no Méier, crescendo em meio ao samba acompanhando o pai, Santos começou a frequentar Paquetá por causa da música. "Depois das rodas de samba que a Cristina Buarque organiza, eu parava nos botecos e comecei a fazer amizade" com os que agora são seus vizinhos, lembra ele.

Carlos Roberto da Silva, o Grilo, trabalhador de servic?os gerais do hospital municipal da Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro - Fabiana Batista/UOL - Fabiana Batista/UOL
O morador Carlos Roberto da Silva, o Grilo, não vê a hora de o carnaval voltar
Imagem: Fabiana Batista/UOL

O guardião da ilha

As residências são distintas. Há pequenos condomínios, casas de rua, antigos casarões que abrigam famílias de classes sociais distintas. O morro do Buraco é ocupado por casas populares que invadem a mata virgem. As ruas são tomadas por bicicletas sem cadeado.

Além dos nomes de rua em homenagem a artistas, militares e religiosos, há esquinas informalmente renomeadas - a "esquina do Pecado" é uma delas. "Quando eu era menino falar palavrão era pecado e naquela esquina tinha muita briga e palavrão". Quem a batizou e conta esta história, e a lenda da Ponte da Saudade, foi Benedito da Encarnação Martins, 72, o Bené, uma espécie de guardião da memória da ilha.

Respeitado pelos moradores, basta começar a fazer perguntas, que mandam procurá-lo na padaria do Manduca. E lá está ele. Sentado no balcão, com uma camiseta em homenagem a São Roque, chapéu e um lenço no pescoço. Na mão um copo de cerveja e na cabeça boas memórias. "Minha família chegou aqui em 1913."

Na adolescência, Bené era o mensageiro de Paquetá e esta foi a oportunidade que teve para ouvir histórias e criar as suas. Para ganhar um trocado, também entregava marmitas feitas pela vizinha e "no final do dia, vinha para o Manduca comer pão farofa e tomar guaraná".

A padaria está na região tranquila da ilha e é o lugar que Bené frequenta desde a infância. Assim foi, o moleque se tornou homem e nunca deixou a terra natal. Organizou festas juninas, procissões religiosas, comemorações de Dia Internacional da Mulher e de aniversários.

Paquetá é a ilha perdida de Los Hermanos em uma música; o destino sugerido por Wilson Simonal em outra; o cenário de "A Moreninha", do livro de Joaquim Manuel de Macedo. É onde Bené proseia com os amigos e Maria vende suas flores de madeira — e de onde Grilo não quer nunca sair. Bucólica e festeira, agora vacinada, a ilha vai voltando à sua rotina.