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Indígena ensina língua proibida pelos portugueses na paradisíaca Alter (PA)

George Borari, 37, professor de nheengatu - Ian Cheibub/UOL
George Borari, 37, professor de nheengatu
Imagem: Ian Cheibub/UOL

Sarah Lemos

Colaboração para o TAB, de Santarém (PA)

10/10/2021 04h00Atualizada em 18/10/2021 10h07

Às 7h, George já está tomando seu café na arejada varanda azul de alvenaria e vestindo a camisa do colégio onde dá aulas, com a frase "saberes indígenas na escola", calça jeans e sapato. No pescoço e no punho, as miçangas reafirmam a identidade estampada em seu rosto e no de sua mãe, Luciene Borari, com quem mora.

Enquanto se prepara para sair, George Borari, 37, escuta Luciene contar sobre a espevitada neta de um ano, Tainá. A criança é filha de uma das cinco irmãs de George, Gilvana, com o carioca e ongueiro (quem vem geralmente do Sudeste trabalhar no terceiro setor em defesa da floresta) Diego Nogueira. A erveira também fala de modo espirituoso sobre as mais de 200 plantas medicinais que cultiva no Katumawa Iwí (Saúde da Terra). E, a partir delas, como produz as garrafadas que "saram tudo".

Às 8h, George atravessa o quintal repleto das tais ervas em direção à estrada que, como conta, foi construída pelas mãos dos moradores. Ele se refere à parte do trecho da rodovia que liga Santarém a Alter do Chão — hoje o distrito mais famoso da região.

"Isso aqui tudo era mato há 20 anos", relembra, já mais falante e entusiasmado. O professor de nheengatu — a língua mais falada no Brasil por dois séculos e proibida em 1758 pela Coroa Portuguesa — conta como acompanhou a transformação ao redor, apontando para as outras casas construídas tijolo a tijolo, como a dele.

'Antigamente isso aqui era tudo mato'. Vista aérea de Alter do Chão, com a Vila de Alter localizada à esquerda e as reservas no entorno - Ian Cheibub/UOL - Ian Cheibub/UOL
'Antigamente isso aqui era tudo mato'. Vista aérea de Alter do Chão, com a Vila de Alter localizada à esquerda e as reservas no entorno
Imagem: Ian Cheibub/UOL

Caribe do Pará

O aumento do turismo no distrito abraçado pelo rio Tapajós se justifica. As águas altas e baixas formam ora rios densos em florestas alagadas, ora praias doces e azuis em areias brancas. Não à toa, a região é conhecida como a "pérola da Amazônia paraense" ou "caribe brasileiro no Pará".

Praticamente toda a geografia da região carrega o idioma nheengatu. Foi também em 1758 que Alter do Chão foi batizada assim, inspirada numa vila portuguesa do Alentejo, no distrito de Portalegre — então com 3.500 habitantes, quase metade da população da homônima brasileira na mesma época.

Uma criança brinca ao entardecer na praia da Ilha do Amor, Alter do Chão  - Ian Cheibub/UOL - Ian Cheibub/UOL
Uma criança brinca ao entardecer na praia da Ilha do Amor, Alter do Chão
Imagem: Ian Cheibub/UOL
Turistas aproveitam a praia da Ilha do Amor, em Alter do Chão  - Ian Cheibub/UOL - Ian Cheibub/UOL
Turistas aproveitam a praia da Ilha do Amor, em Alter do Chão
Imagem: Ian Cheibub/UOL

Há uma década, Alter e toda Santarém resgatam o idioma através do ensino em 47 escolas. Uma delas é a Escola Índigena Antônio de Sousa Pedroso, mais conhecida como Escola Borari. Pedroso, aliás, foi um dos primeiros portugueses a dar aulas na região, hoje repleta de mestres nativos como George, que leciona para mais de 500 alunos, a maioria não-indígenas.

Depois da sua caminhada diária de meia hora, com o sol a pino e previsão de chuva, George finalmente chega ao local de trabalho, de onde se avista a Ilha do Amor no auge da temporada do verão amazônico (de agosto, quando o rio começa a secar, a novembro). Quando totalmente seco, é possível até mesmo caminhar sobre o que antes era só água. Já o inverno amazônico é repleto de chuvas, mas a proximidade da Linha do Equador não deixa a temperatura variar tanto: entre 24°C e 33°C, todos os meses do ano.

Crianças brincam em restaurante construído para a temporada de verão Amazônico em Alter do Chão, quando o Rio Tapajós seca e as praias do Rio aparecem - Ian Cheibub/UOL - Ian Cheibub/UOL
Crianças brincam em restaurante construído para a temporada de verão Amazônico em Alter do Chão, quando o Rio Tapajós seca e as praias do Rio aparecem
Imagem: Ian Cheibub/UOL

Identidade da língua

Trabalhando remotamente por causa das obras, e não mais por causa da pandemia, os funcionários se reúnem na escola alguns dias da semana para preparar e entregar as folhas de exercícios e correções de provas aos alunos ou aos pais, a maioria deles sem acesso à internet.

Antes de o dia começar, se unem para o lanche matinal. Os parentes — como se referem a quem se autorreconhece indígena —, e todos os outros conversam em torno da mesa, que ostenta cuias com frios e quentes, suco de cupuaçu, açaí, pão, mandioca, leite e mais café. A cozinha improvisada e aberta foi reformada por eles.

Vista da Floresta Encantada, uma floresta de Igapó localizada a cerca de 2 km da casa de George Borari. Apesar do território Borari não ter sido oficialmente demarcado, os indígenas usufruem da floresta para sua sobrevivência - Ian Cheibub/UOL - Ian Cheibub/UOL
Vista da Floresta Encantada, uma floresta de Igapó localizada a cerca de 2 km da casa de George Borari. Apesar do território Borari não ter sido oficialmente demarcado, os indígenas usufruem da floresta para sua sobrevivência
Imagem: Ian Cheibub/UOL

"A prefeitura fez obra, pois havia grande demanda, mas são os funcionários que se juntam e levantam verba pra maioria das mudanças", pontua uma das professoras, Risonilva Garcia, mais conhecida como Nilva Borari. A também aluna de antropologia na Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará) e letras na UFPA (Universidade Federal do Pará) fala com orgulho sobre o reconhecimento de Alter do Chão por suas belezas naturais, mas também da importância da arte e modo de vida povos tradicionais de sua terra.

George segue do café para apresentar a escola onde leciona desde 2020, com pinturas tribais nas paredes e salas nomeadas por substantivos indígenas. Na sala do diretor, onde entra, cumprimenta e conta sobre a entrevista. "O professor é a identidade da língua", resume ao se referir a George. É taxativo: "e não tem essa de dizer que não vai assistir às aulas. As de nheengatu são como as outras: têm provas e reprovam".

George Borari, professor da língua Nheengatu em Alter do Chão  - Ian Cheibub/UOL - Ian Cheibub/UOL
George Borari, professor da língua Nheengatu em Alter do Chão
Imagem: Ian Cheibub/UOL

Idioma secreto

Raimundo Garcia, que foi aluno e começou como auxiliar de secretaria, ostenta atrás de sua mesa medalhas e prêmios da escola que é "referência na região". Cheio de orgulho, exalta as semanas mais importantes do ano: a dos Povos Indígenas, em abril, e a da Independência do Brasil, em setembro. "É nosso dever cívico celebrar a Semana da Pátria, mas hoje também sabemos como é fundamental contar os dois lados dessa história."

George consente silenciosamente, mas, ao se despedir, desata novamente a falar — agora sobre a disciplina que leciona sobre cultura indígena, que compõe a grade tradicional, adicionando conhecimentos sobre os (e dos) povos originários.

Ele conta que nhe'eng significa "língua", e "boa" é a tradução de katu. Daí o nheengatu ou nhengatu (ou língua geral), criado no século 16 pelos jesuítas a partir do tupi e criminalizado no século 18 por um decreto de Marquês de Pombal.

O idioma foi falado às escondidas até meados do século 20, por todo o país. "Quando era criança, ouvia minha avó e bisavó paternas conversando entre si e, às vezes, escapava sem querer na hora de brigar com a gente." George só descobriu os significados dos sermões quando foi estudar o idioma com que seus antepassados se comunicavam majoritariamente na Amazônia de 150 anos atrás.

George Borari (centro), professor da língua Nheengatu em Alter do Chão, durante pausa para o café na Escola Indígena Borari  - Ian Cheibub/UOL - Ian Cheibub/UOL
George Borari (centro), professor da língua Nheengatu em Alter do Chão, durante pausa para o café na Escola Indígena Borari
Imagem: Ian Cheibub/UOL

Graduação em nheengatu

"Não há nada mais representativo para um povo que a sua própria língua. Seu ensino é uma resistência simbólica que fortalece a nossa cultura", ressalta o professor, que começou dando aulas de matemática nas aldeias em 2010, e é casado com a também professora e pedagoga Jocenila Picanço, da etnia Hiskaryana, com quem tem três filhas: Juliana, Gabriela e Geovanna.

Ele é membro do Fórum Nacional de Educação Indígena, com pesquisadores e acadêmicos de todo o Brasil, e da Academia da Língua Nheengatu, que reúne povos do Amazonas e do Pará, para preservação da cultura de etnias como a Borari, à qual pertence e que dá nome à escola.

O também mestrando em Educação Escolar Índigena pela UEPA (Universidade do Estado do Pará) conta que quem ensina línguas indígenas, como o nhengatu e o munduruku, não tem a mesma visibilidade e remuneração de professores de outras disciplinas, além de mais difícil acesso à formação e à criação de materiais didáticos que se adaptem às particularidades de cada comunidade. Mas ele não se abala. "Participo na criação dos livros, vídeos, podcasts e até mesmo na composição de músicas de bandas da região."

Segundo George, através do Movimento Indígena, em ações e estudos como do grupo Consciência Indígena, houve o resgate da cultura, reforçando a identidade e a autoestima dos povos das aldeias.

Esse diálogo ganhou força no final dos anos 1990. "Antes se falava apenas ribeirinho e caboclo. Mas com esse trabalho, passamos a nos assumir como indígenas e as comunidades estão mais conscientes dos seus direitos, lutando pela manutenção e conquista deles, como educação, saúde e modo de vida", diz George, que relembra que o Movimento está junto com a Ufopa no projeto para realização do primeiro curso de graduação da língua nheengatu.

George Borari, professor de Nheengatu na Escola Indígena Borari, em Alter do Chão, participa do atendimento aos pais e alunos da escola - Ian Cheibub/UOL - Ian Cheibub/UOL
George Borari, professor de Nheengatu na Escola Indígena Borari, em Alter do Chão, participa do atendimento aos pais e alunos da escola
Imagem: Ian Cheibub/UOL

Terra de ninguém

Santarém ainda não possui nenhum território indígena reconhecido pela Funai (Fundação Nacional do Índio). "Somos acusados de falsos índios", diz George.

Ser indígena é motivo de bastante orgulho para ele e sua família, mas também de preocupação, devido ao preconceito e aos ataques na sociedade, na mídia e no governo. Muitos não conseguem se assumir por isso.

George conta que, nos últimos anos, seus parentes têm sofrido ainda mais perdas de direitos que conquistaram em tentativas como a discussão do Marco Temporal em Brasília. "É preciso estar atento, pois nossa luta é todo dia, seja em Santarém ou em qualquer lugar do Pará ou do Brasil."

Mas o professor George Borari se inspira na crença de que dias melhores virão. E que isso será possível através da busca da ancestralidade ao vivenciar o presente: "Não é andar nu e se pintar, a gente conquistou outras formas de vida e educação. É reconhecendo nosso sangue e nossa cultura sagrada."

Errata: o texto foi atualizado
A primeira versão deste texto afirmava que Alter do Chão é município. Na realidade, é um distrito de Santarém (PA). O trecho foi corrigido.