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Dormentes e vagões inteiros de trem: como funciona um leilão da CPTM em SP

Interiores do vagão de trem da CPTM que foi à leilão, no pátio da companhia, na Vila Anastácio (SP) - Reinaldo Canato/UOL
Interiores do vagão de trem da CPTM que foi à leilão, no pátio da companhia, na Vila Anastácio (SP)
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Claudia Castelo Branco

Colaboração para o TAB, em São Paulo

19/10/2021 04h00

Telefone analógico. Fio de cobre contaminado. Limalha de ferro. Disco de freio. Trilhos. Resíduo de óleo mineral isolante. Vagões de trens desativados. "Quem dá mais? Vendido por R$ 700", anuncia Carlos Chui, um homem meio careca, na faixa dos cinquenta anos. É sua primeira vez liderando um leilão de sucata promovido pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos.

De polo preta, sapatos e jeans, demonstra receio de falar com a imprensa — no caso, a reportagem do TAB — mas perde a timidez ao ver o auditório repleto de interessados. Não é sempre que acontece. É comum que o leiloeiro fique sozinho no salão enquanto os interessados dão lances online. No auditório, cerca de vinte homens e uma mulher estão determinados a comprar lixo. Ou, como são descritos no edital, "itens inservíveis", termo usado para designar objetos obsoletos que pelo uso prolongado não atendem mais à companhia.

Uma das frases mais repetidas por Carlos durante o evento é "Vai deixar pro online?", uma tentativa de animar os interessados que estão no salão. São muitas as diferenças desse leilão para um leilão judicial. Uma delas é que não há impedimentos legais envolvendo os itens. É uma decisão administrativa que parte da própria empresa. "Aqui são commodities, é material de alto giro com percentual bem baixo", explica Leandro Capergiani, gerente de Logística da CPTM. Acostumado a leilões do tipo, surpreende-se com as inúmeras perguntas da reportagem, mas concorda que é um tema curioso para quem não é do meio.

É quando a voz do leiloeiro toma conta do auditório. O ritmo faz toda a diferença, observa um dos participantes. Online, tudo fica mais desanimado.

Me chama que eu vou

As grandes disputas são pelos dormentes, um nicho de mercado. E o negócio é ligeiro. Os lances pelo lote com cinquenta e cinco pedaços de madeira passa de R$ 425,25 para R$ 495,25 em menos de trinta segundos. No online, um interessado dá um lance de R$ 500 mil por engano, forçando uma pausa. "É a ansiedade. Acontece", explica um habitué. Várias das pessoas abordadas pela reportagem não quiseram dizer nome ou sobrenome.

O leiloeiro acalma a turma, corrige o valor e a disputa continua. Quando chega nos R$ 635, alguém cochicha que o lote vale um lance maior por causa da conversão da moeda. De centavos em centavos depois, vendido.

Leilão CPTM - Reinaldo Canato/UOL - Reinaldo Canato/UOL
Leilão de itens obsoletos da CPTM, em São Paulo
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Um homem tímido, de boné azul, perde mais uma vez para duas figuras que chamam a atenção no auditório. São pai e filho, empresários do ramo de móveis que saíram de São João del Rei (MG) para a rodada na capital paulista. Ronaldo Oliveira, 58, é um coroa bonitão que frequenta leilão há 30 anos. O filho, Bruno, de 38, segue os passos do pai e frequenta esse tipo de leilão há cinco anos. Cada um tem sua empresa, mas dão lances juntos e preferem o formato presencial. "Vai que a internet não funciona na hora..."

Veteranos, os Oliveira não perdem tempo. Quando os lotes de dormentes se encerram, eles partem para assinar o cheque dos seus cinco mil itens arrematados. Pelos cálculos da reportagem, pagaram no mínimo R$ 400 mil pela matéria-prima que movimenta o nicho. Com o preço da madeira, saíram no lucro.

Com valor mínimo de R$ 1.456.000, os lotes 18 e 19 também chamam a atenção — cada um com 700 toneladas de trilhos usados, ou 1.400 toneladas que não servem mais para as vias de São Paulo, devido ao nível de desgaste. Como nada se perde e tudo se transforma, uma das possibilidades para quem adquire essa preciosidade milionária é a reutilização em rodovias de pequeno porte.

Leilão CPTM - Reinaldo Canato/UOL - Reinaldo Canato/UOL
Caixas com limalha de ferro, parte do leilão de itens obsoletos da CPTM, em São Paulo
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Calote em leilão

Tem todo tipo de gente no leilão de sucata. Grandes e pequenos empresários, acumuladores e até caloteiros. Gilson Vieira, 54, camisa estampada com coqueiros, arrematou três mil equipamentos de informática. É abordado discretamente por Reno, um dos assistentes do leilão, que pergunta pelo cheque. Simpático, Gilson responde que pagará na saída enquanto Reno explica à reportagem que é muito comum gente que dá lance, arremata e depois dá o famoso perdido. "Daí sobra pro leiloeiro", justifica.

Vera Rosa, 41, é a única mulher no salão. Dona de uma loja de informática na Santa Efigênia, está interessada no lote de sucata eletrônica e aguarda o lote de telefones analógicos para dar seu lance. Diferentemente de Maria do Carmo, personagem interpretada por Regina Duarte na novela "A Rainha da Sucata", a empresária tem um visual discreto. Participa de leilões há alguns anos e prefere dar lances online. "Minha internet não estava legal, então decidi vir."

Todos os presentes ali já chegaram determinados, sabendo o que queriam. Um deles é Frederico, apontado como o único interessado nos vagões do lote 44. Agitado, começa sentado numa cadeira na última fila. Sai várias vezes do auditório para beber água. Quando retorna, senta-se na segunda fileira, depois volta para a última. Abordado, confirma o interesse no lote, mas corta o papo. "Pode ser depois?".

Os vagões podem ser desmontados para serem reciclados ou usados em siderúrgicas. Há também quem aproveite a composição inteira para fazer lanchonetes ou comércio temáticos.

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Vagão de trem que foi leiloado pela CPTM, em São Paulo
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Se eu perder esse trem

Dei meu lance, comprei minhas coisas, e agora?

O comprador tem até cinco dias para pagar o leiloeiro que emite as notas. Após o registro de toda a documentação, são realizados os agendamentos para a retirada. Grande parte da sucata leiloada está no pátio de manutenção de trens. São centenas de caixas — uma delas, por exemplo, contem 13 toneladas de disco de freio. Para chegar perto de um dos veículos ferroviários, considerado a cereja do bolo do leilão, é preciso passar pela plataforma da linha 7, acima da Estação da Lapa. De lá para os trilhos da ferrovia são 3 km. Esse é o cenário que aparece ao fundo da cena do jogo de futebol do filme "O ano em que meus pais saíram de férias", de Cao Hamburger, em 2006. Hoje, o clima é de cemitério.

Em meio aos trilhos com resquícios de veneno de rato, o TAB encontra o vagão da Série 1600. A cena é triste, mas tudo está limpinho. Composto de aço inoxidável, operou em seus últimos anos na Linha 7-Rubi e foi modernizado em 2009. Está parado há sete anos. No seu interior, não há mensagens nos painéis, bitucas de cigarro ou objetos esquecidos. Apenas assentos vermelhos, muita poeira e um mapa ultrapassado do transporte metropolitano, quando a linha 13-Jade, inaugurada em 2018, sequer existia. Quando circulava por aí, a linha 5-Lilás, que hoje vai do Capão Redondo até a Chácara Klabin, terminava no Largo 13. Outros tempos.

Num silêncio pouco usual em São Paulo, o trem descansa em frente a um muro pichado com a frase "Não jogar lixo". Em um clima oposto ao do leilão animado, não há sinal de vida ali. Apenas o som de um helicóptero Águia.

Enquanto isso, no leilão que acontece no Centro, o lote com os vagões é anunciado. Sem lances na internet, Frederico, o único potencial interessado, fica em silêncio. É possível baixar o valor mínimo do trem no futuro? Ninguém se arrisca a dizer. Dos 101 lotes leiloados na sexta-feira (15), 90 foram vendidos e R$ 7,9 milhões arrecadados, mas os trens seguem sem um novo dono. Sinto muito, amor, mas não pode ser. Ainda.